
Capítulo 744
Re: Blood and Iron
A manhã na selva ainda era silenciosa, salvo pelo zumbido dos insetos e o distante ronco dos tanques blindados avançando pela estrada destruída em direção a Puerto Princesa.
O Oberstleutnant Erich von Zehntner comandava a coluna à cabeça, com o capacete debaixo do braço, a outra mão repousando sobre a empunhadura da pistola.
Ao seu redor, os homens de Der Falke marchavam em silêncio, com capacetes marcados por fuligem e lama, uniformes rasgados e ensopados de suor após três dias de combate.
A primeira fase da operação havia terminado; uma pista de pouso havia sido tomada ao norte de Luzon. Permitindo que homens e material se refugassem na região.
Porém, a verdadeira batalha apenas começara.
Ele não nutria ilusões sobre o que viria a seguir. Exércitos podiam destruir fortificações, mas uma campanha de guerrilha seria uma marcha da morte brutal rumo ao esquecimento.
E o Reich não tinha interesse em lutar contra fantasmas na selva.
Erich parou a coluna em frente a uma pequena vila de pescadores, situada ao lado do rio.
Uma dúzia de cabanas de junco se inclinava sobre a água, suportadas por estacas, com fumaça saindo de seus telhados de palha.
Frangos dispersaram-se quando o primeiro half-track parou de vez, seu motor tossiu antes de calar-se em silêncio.
Os moradores se aglomeraram na beira da clareira, cautelosos, mas sem sinais de pavor.
Homens de camisa gasta e chapéus de palha seguravam suas famílias.
Alguns seguravam ferramentas de agricultura como se fossem lanças. No centro, estava o chefe da aldeia, um idoso de camiseta desbotada pelo sol e calças, com o rosto marcado pelas linhas da pobreza e do orgulho.
Erich fez sinal para seu intérprete, um jovem magro chamado Santos, nativo de Manila que estudara engenharia em Hamburgo antes que a guerra transformasse sua vida em uma ponte entre mundos.
"Diga a ele que viemos como libertadores, não conquistadores," disse Erich. "E que quero falar com ele… sozinho."
Santos hesitou, depois traduziu. Os olhos do chefe da aldeia o observaram por um momento antes de assentir uma única vez.
Ambos se refugiaram sob a sombra de uma figueira-árvore que dava vista para o rio, longe dos aldeãos desconfiados e dos soldados alemães inquietos.
Primeiro, falou o velho.
"Vocês expulsam os americanos. Dizem que vieram por paz. Mas paz nunca fica muito tempo com homens de aço."
Erich ouviu atentamente. Deu um momento para o silêncio pesar antes de responder, com tom calmo.
"Você já viu muitas bandeiras, não é? Espanhola, americana e, agora, a nossa."
Os olhos do chefe da aldeia se estreitaram. "Cada uma prometeu liberdade. Cada uma deixou covas."
Erich assentiu levemente. "Se fosse você, também desconfiaria de mim. Mas entenda uma coisa… os americanos quebraram a palavra dada a vocês. Disseram que concederiam independência. Em vez disso, voltaram com soldados e bombas. Viemos para garantir que nenhum império use vocês novamente como escudo."
O chefe da aldeia olhou para ele por um longo instante e então falou baixinho: "E por que vocês se chamam algo além de império?"
O olhar de Erich se tornou mais sério, mas sem raiva, apenas convicção.
"A pátria é um Império por si só. Não precisamos de colônias pelo mundo. O Kaiser começou o processo de descolonização há décadas, em nossas possessões menores. A maior parte delas já é nações independentes e soberanas. Estamos aqui apenas porque os americanos queriam usar suas terras como campo de manobra para semear o caos na região."
Santos traduziu, e o velho não respondeu.
Seus olhos se voltaram para a vila, para os médicos alemães descarregando suprimentos dos caminhões — caixas de alimentos, filtros de água e kits médicos.
O cenário pareceu mexer alguma coisa nele.
Um dos garotos da vila, talvez uns doze anos, avançou cambaleando, movido pela curiosidade e sem medo.
Um soldado alemão se abaixou para ficar na altura dele, deu uma lata de leite condensado e sorriu. O menino hesitou por um momento, depois aceitou com receio, sorriu de volta e correu até a mãe.
O chefe da aldeia expirou lentamente. "Os americanos levaram nosso arroz no mês passado, para alimentar seus destacamentos," disse. "Disseram que devolveriam depois. Nunca fizeram."
A voz de Erich ficou suavizada. "Então, pegue o nosso. E nossos remédios. Se algum de seus moradores estiver doente, envie um mensageiro até a base aérea ao norte daqui. Está sob nossa ocupação até o fim desta guerra. Nenhum soldado meu tocará suas mulheres, suas plantações ou suas casas. Isso não é um pedido… é a lei."
Santos traduziu, com tom reverente, quase orgulhoso. O velho finalmente assentiu e a tensão na clareira começou a diminuir.
À tarde, os engenheiros de Der Falke ajudaram os moradores a consertar a ponte destruída, enquanto outros distribuíam ração e cavavam um poço limpo.
Crianças se aglomeraram ao redor das máquinas estranhas, veículos blindados com a Águia Imperial pintada em cinza discreto, suas tripulações lavando sangue dos trilhos.
A noite, enquanto a selva voltava ao silêncio, o chefe da aldeia veio até a fogueira de Erich. Carregava uma jarra de barro com vinho de arroz. "Por paz," disse simplesmente.
Erich aceitou a bebida, serviu duas taças e passou uma de volta. "Por paz," repetiu.
Deixaram-se envolver pelo silêncio, com o crepitar do fogo entre eles. As estrelas acima eram nítidas e brancas, como pontas de aço pressionando a copa das árvores.
No dia seguinte, Der Falke prosseguiu rumo ao norte, deixando para trás não uma submissão, mas uma cooperação.
Pequenos grupos de milícias locais agora patrulhavam à frente, carregando rádios e munições fornecidas pelos alemães.
A bandeira preto, branco e vermelho tremulava ao lado do antigo escudo de sol filipino na ponte que reconstruíram, não como símbolo de conquista, mas de uma aliança instável.
Enquanto avançavam, Santos viajava ao lado de Erich no topo do half-track de liderança. Acendeu um cigarro, expirando em direção ao amanhecer.
"Acha que vai durar, Herr Oberstleutnant?"
Erich demorou a responder. Observou a estrada desaparecer na selva à frente, onde a guerra ainda aguardava.
"Paz?" ele finalmente falou. "Não. De jeito nenhum… Paz é apenas o silêncio entre os tiros, afinal. Tudo o que fizemos aqui foi transformar a raiva e o ódio dos locais contra aqueles que os provocaram, e, assim fazendo, esperamos evitar uma guerra de dois frentes contra os americanos e contra a própria terra."
Santos concordou, jogando o cigarro no chão e pisando nele na poeira.
"Seu avô aprovaria."
Erich sorriu levemente, olhos fixos no horizonte.
"Com certeza…."
Os motores rugiram e a coluna seguiu em frente.
Logo atrás, as crianças da vila acenaram. À frente, o rádio chiava novas ordens, voos de reconhecimento detectaram movimentação americana perto da costa norte.
Outra batalha os aguardava.
Outra guerra seria travada.
E outro preço seria pago com sangue.