
Capítulo 740
Re: Blood and Iron
A madrugada avançava sobre a selva em tons de cinza e cobre.
Vapor subia das árvores destruídas, levantando-se como os fantasmas de homens que ainda não percebiam que estavam mortos.
Erich estava justo do lado de fora do seu veículo de comando blindado.
com uma bota plantada na lama que atingia o tornozelo.
Ao seu redor, o batalhão começava a se reanimar.
Mecânicos se moviam entre os destroços em um ritmo silencioso, apagando carbono dos canos, verificando bobinas de resfriamento, levando cartuchos vazios de estilhaços para montes que brilhavam como altares de bronze.
Nenhum deles falava mais do que o necessário. Não precisavam. Todos entendiam o que tinham feito durante a noite.
Do outro lado do vale, uma fumaça pairava baixa sobre o que tinha sido uma divisão blindada americana.
Pistas se torciam como costelas quebradas, cascos de aço semi-submersos na lama e no fogo.
Erich tirou os binóculos do pescoço e varreu o horizonte.
Não havia movimento além de pássaros. Ele abaixou as lentes e exalou pelos dentes.
"Informe que a linha está segura," disse calmamente.
O adjunto assentiu, acionando seu fone. "Todas as companhias reportam perdas insignificantes. Munição em sessenta e dois por cento. Reservas de combustível normais."
Erich deu um breve sinal de cabeça. Deveria sentir triunfo.
Em vez disso, só havia uma dor surda atrás dos olhos, a imagem residual de rajadas de fogo ainda queimando em sua visão.
Ele desceu até o veículo de comando.
Dentro, o brilho suave dos instrumentos pintava cada rosto com a cor do amanhecer.
Um leve zumbido vindo dos bancos de capacitores preenchia o silêncio entre os batimentos de coração.
"Transmita a confirmação ao comando," disse ele. "A fase inicial da nossa operação foi concluída."
O operador de rádio acionou uma série de interruptores. Uma única luz verde pulsou, a ligação alinhando-se com um satélite acima do Pacífico.
Em poucos minutos, tudo que haviam registrado estaria em Berlim.
Cada coordenada, cada imagem térmica, cada vida apagada agora existiria como dados puros.
Erich se recostou contra a parede de metal.
Seus dedos calçados batiam distraidamente na coxa, ao ritmo distante do motor resfriando.
"Eles nunca nos viram chegando," murmurou o artilheiro.
"Esse que é o ponto," disse Erich. "Se tivessem nos visto, talvez tivessem uma chance."
As palavras ficaram por mais tempo do que ele queria.
A sala de guerra ficava enterrada cinco andares abaixo da Chancelaria, suas paredes revestidas de aço e pedra polida.
Dezenas de telas exibiam imagens aéreas em movimento de Luzon: floresta em relevo preto e branco, lampejos de luz onde as câmeras captaram as primeiras detonações.
Bruno von Zehntner estava na mesa central, com uniforme impecável, postura cansada.
Assistia às imagens sem falar até que o último quadro congelou, fileiras de blindados americanos destruídos reluzindo na névoa matinal.
"Perdas estimadas do inimigo?" perguntou.
O chefe de operações respondeu, "Setenta por cento confirmados destruídos ou capturados."
Interceptações de comunicações sugerem que o General Rose está desaparecido, presumivelmente morto."
O rosto de Bruno não mudou.
Virou-se para o analista que operava o rádio de relé. "E as nossas?"
"Quinze mortos, vinte e um feridos, duas viaturas incapacitada."
A sala permaneceu em silêncio. A proporção era escandalosa, impossível numa guerra convencional.
No extremo oposto da mesa, o almirante Reimann esclareceu a garganta.
"Uma vitória extraordinária, Reichsmarschall. Mais uma prova de que sua filosofia de design é…"
Bruno o interrompeu com um olhar.
"Fala os slogans de lado, Reimann. Vitória não precisa de aplausos."
Ele olhou novamente para a tela principal.
A transmissão tinha mudado para uma sobreposição de satélite: mapas infravermelhos, padrões de crateras, fragmentos de destroços marcados com precisão geométrica.
Parecia menos um campo de batalha e mais uma autópsia.
"Envie uma mensagem para o Comando de Manila," ordenou Bruno. "Diga ao Oberstleutnant von Zehntner para manter a posição até a frota concluir a desembarque no sul. Ele não deve perseguir."
"Sim, senhor."
Quando os oficiais saíram, Bruno permaneceu onde estava, mãos descansando na superfície fria da mesa.
Por um momento, deixou o silêncio o envolver, o zumbido dos projeteores, o tique-taque distante dos recirculadores de ar.
Mais tarde naquela noite, Bruno assistiu às mesmas imagens numa tela menor, do conforto e tranquilidade de seu estudo pessoal em sua residência na Tirolândia.
Com luz tênue, refletida pelos óculos.
A transmissão veio por uma linha direta do satélite, sem censura ou comentários.
Ele viu tudo como realmente era: em baixa resolução, sem adornos, impiedoso.
Do lado de fora, a neve caía pelas encostas.
As montanhas estavam silenciosas, bem distantes das selvas de Luzon. Ainda assim, quando as explosões piscavam na tela, sua luz chegava até ele.
Ele enchi um copo de água da garrafa ao lado da mesa e colocou ao lado de uma pasta.
O papel dentro ainda estava morno, com um leve cheiro de ozônio.
Folheou sem pressa. Colunas de dados, índices de perdas, consumo de munição e eficiência de combustível.
Não eram apenas números.
Era a tragédia das estatísticas manifestada numa folha de papel. E Bruno parecia não se incomodar com isso, como se estivesse olhando para qualquer outra coleção de números.
Tomou outro gole de sua bebida quando um suave sinal quebrou o silêncio.
A luz do interfone piscou uma vez. Bruno pressionou o receptor.
"Senhor," veio a voz filtrada de seu adjunto, "Príncipe Erwin pede uma palavra rápida. Ele está ligando da sede da Corporação em Berlim."
"Coloque-o na linha."
Um instante de estática, depois a voz moderada de seu filho encheu a sala, suave, treinada, distante.
"Vi o relatório de Luzon," disse Erwin. "As bolsas abriram dois pontos mais alto assim que a notícia vazou. Krupp, Rheinmetall e nossas ações no setor aeroespacial estão subindo. O conselho quer saber se devemos ampliar nossa capacidade de produção no Oriente."
Bruno fixou o olhar na imagem congelada do seu monitor: uma coluna em chamas, reduzida a silhuetas pela luz do amanhecer.
"Expanda se for preciso," disse. "Mas lembre-os de que todo contrato novo ainda tem um custo. Nossos livros de contas são escritos mais que em tinta."
Erwin hesitou, talvez percebendo a dureza na voz do pai.
"Claro, pai. Eu mesmo cuidarei disso."
A linha caiu, silenciosa.
Bruno expirou pelo nariz, deixando que o silêncio se estabelecesse mais uma vez.
Ele voltou o olhar para a tela.
O feed do satélite repetia a imagem, replay da ofensiva a partir de uma vantage semelhante à de um deus.
De órbita, parecia quase belo: linhas de luz atravessando a escuridão, uma coreografia de domínio absoluto.
Por trás dessa beleza, estava a carnificina sem sentido que a humanidade, inevitavelmente, se impunha.
Ele não se importou em assistir ao restante e desligou o projetor.
O cômodo mergulhou na escuridão, apenas iluminado pelo brilho suave da neve lá fora e pelo pulso vermelho do terminal de uplink ainda conectado ao céu.