Re: Blood and Iron

Capítulo 671

Re: Blood and Iron

As lâmpadas estavam queimando baixas na ala de inteligência do Chancelerato do Reich, seu brilho espalhava-se sobre pilhas de dossiês, mapas e relatórios codificados.

Fora, as ruas de Berlim ferviam com a vida da primavera, mas aqui o ar era pesado, silencioso, quebrado apenas pelo barulho de papel e pelos tons cortantes dos oficiais.

Bruno sentava-se à cabeceira da mesa, seu uniforme impecável, seus olhos pálidos tão frios quanto vidro.

À sua frente, estavam fotografias: oficiais franceses, generais, homens do Estado-Maior.

Os autores das "exercícios de treinamento" que derramaram sangue alemão na fronteira.

"São provocações deliberadas", disse um coronel, cutucando o dossiê. "As ordens vêm assinadas e seladas. Nenhuma granada 'se extravia' tantas vezes assim."

Bruno assentiu com uma só cabeça. "Então, os homens que assinam essas ordens precisam aprender como se sente uma granada que se extravia."

Uma risada nervosa percorreu o ambiente, logo silenciada pelo silêncio que se seguiu. Bruno não sorriu.

Virou uma página, estudando um retrato de um general de ombros largos em Paris. Seu dedo tocou a borda da foto.

"Infarto. Súbito. Natural. As artérias dele já estão frágeis o suficiente. Uma substância cuidadosamente dosada no vinho fará o resto."

Outro oficial, mais jovem, remexeu-se na cadeira. "E o coronel de Reims? Ele viaja o tempo todo. Difícil de pegar."

O olhar de Bruno se levantou, afiado como lâmina.

"Carros batem, pneus explodem. Motoristas cochilam. Ele vai morrer na estrada, assim como muitos homens irresponsáveis."

Ele recostou, cruzou as mãos.

"Esta não é uma guerra por glória. Não há bandeiras nem tambores. É uma guerra silenciosa, do tipo lutada com pós, motores e sombras. Não vamos deixá-los mártires para se mobilizar. Eles vão morrer em acidentes. Febres. Erros inadvertidos. Suas famílias vão lamentar, mas seus homens não vão levantar-se. A República vai apodrecer pela cabeça para baixo."

Um dossiê escorregou pela mesa: um major do Estado-Maior, uma das vozes mais vociferantes por "treinamento" na fronteira. Bruno folheou o arquivo, cerrando a mandíbula.

"Ricina. Insípida, sem cheiro. Ele vai tossir, suar e perecer em poucos dias. Chamarão de febre, e ninguém questionará."

Os oficiais anotaram, seus canetas riscando como insetos.

Bruno observava-os, sua voz calma, quase cansada.

"Não serei provocado a entrar em guerra nos termos deles. Nem pelos generais, nem pelo parlamento. Eles querem nos fazer sangrar lentamente até que actuemos com fúria. Muito bem. Então, que eles sangrem em vez disso, um por um, em silêncio, até não sobrar mais ninguém para assinar as ordens."

Ele fechou o dossiê com força, o som ecoando na câmara.

"Comecem imediatamente. E lembrem-se: ninguém deve saber do que falamos aqui."

Os homens se levantaram, prestando continência.

A sala esvaziou-se, deixando Bruno sozinho com a lâmpada tremeluzente e as fotografias desvanecendo de homens já marcados para a morte.

Ele serviu-se de um copo de água, não de vinho, e olhou para seu reflexo na superfície.

Acidentes, febres, acidentes de carro, as ferramentas da paciência de um império.

E quando o último general francês tombar no túmulo, Berlim ainda estaria de silêncio.

Mas Paris sentiria o peso dos fantasmas.


A chuva caía forte na estrada estreita enquanto o carro do coronel Marchand atravessava o campo.

O motorista bradava contra a lama, as rodas escorregando enquanto os faróis cortavam as paredes de água.

Então, um estalo agudo, como um pneu estourando. O carro cambaleou, escorregou de lado e bateu com estrondo numa parede de pedras.

Quando os camponeses correram de suas cabanas com lanternas, o crânio do coronel já estava rachado contra o painel do carro.

Eles cochicharam sobre azar, sobre o tempo perigoso.

Ninguém pensou em questionar por que um pneu tão novo tinha explodido tão violentamente.


O general Dupont erguia sua taça de vinho na festa, suas bochechas vermelhas pelo elogio de oficiais mais jovens.

Ele ria alto, levantava a taça, bebia fundo, e de repente vacilou.

A mão tremeu, fazendo o copo quebrar no chão.

Os convidados correram até ele, enquanto ele segurava o peito, rosto roxo, ofegando como um peixe fora d’água.

Um médico foi chamado, mas já era tarde.

Diziam que ele sempre tinha comido demais, fumado demais.

Um coração ruim. Nada mais.

Ninguém se lembrou do servo silencioso que tinha servido seu vinho e desaparecido na noite.


A major do Estado-Maior Rousseau reclamava de uma tosse há semanas.

Agora ele ardia de febre, suando pelos lençóis, olhos vítreos, o corpo tomado por convulsões.

Os médicos juntaram-se, balançando a cabeça. "Gripe", disseram. "Talvez pneumonia."

Sua família chorava enquanto sua respiração se tornava ofegante, até cessar.

O relatório oficial culpou a doença.

Ninguém rastreou a origem do pó sem gosto que misturaram ao café da manhã dias antes.


Os relatórios chegavam em cabos bem organizados, codificados.

Bruno os leu sozinho em seu escritório, a chuva batendo forte contra as janelas.

Três homens mortos, e com eles, três vozes de provocação silenciadas para sempre.

Ele colocou os papéis de lado, olhos frios, e pegou o próximo arquivo, cujo selo dizia apenas uma palavra:

Contr-espionagem

Bruno aproximou-o, o couro de suas luvas rangendo ao desatar o fecho.

Dentro, fotos em estado de granulação, duras à luz do lampião: homens arrastados de rios, rostos pálidos e inchados; destroços retorcidos numa estrada de montanha; um edifício carbonizado reduzido a cinzas.

Relatórios presos a cada uma detalhando seus crimes, tentativas de infiltração, esquemas de suborno, mensagens codificadas passadas por tavernas e embaixadas.

Todos silenciados, não por execuções abertas, mas por "acidentes."

Um relatório descrevia um mensageiro francês encontrado na Itália, supostamente tendo caído durante uma escalada.

Outro detalhava uma "vazamento de gás" numa pensão em Berlim, que consumira três agentes estrangeiros numa chama à meia-noite.

Cada morte atribuída ao acaso, cada espionagem apagada como se o próprio mundo estivesse contra eles.

Bruno recostou-se, colocou uma dose de vinho, e bebeu lentamente.

O vermelho intenso refletia sob a luz do lampião enquanto ele estudava as fotografias.

Seus olhos pálidos permaneciam, frios e divertidos, até que finalmente falou alto, para as sombras, para o silêncio, talvez até para Deus.

"Se De Gaulle pensou que eu ficaria sentado quieto, virando a face, então ele é um tolo. Já deixei claro minha posição várias vezes. Mas esses idiotas continuam achando que podem pisar na cauda de um leão sem que ele os despedaçe por isso."

Um sorriso sarcástico surgiu nos cantos de seus lábios.

Ele fechou o dossiê, colocou-o no topo da pilha e o golpeou uma vez com o flat de sua mão.

O leão tinha sido paciente. O leão tinha resistido.

Mas quem confunde paciência com fraqueza aprenderia o que é sangrar sob suas garras.

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