Re: Blood and Iron

Capítulo 670

Re: Blood and Iron

A fogueira crepitava baixinho na lareira, lançando um brilho acolhedor sobre o escritório envidraçado.

Fora, as ruas de Berlim estavam úmidas com a chuva da primavera, mas lá dentro, o ar carregava a pesada história.

Bruno apoiava-se na bengala, observando o homem sentado em frente a ele, Henri d'Orléans, Conde de Paris.

Mesmo no exílio, envelhecido e cansado, Henri ainda tinha a postura de um rei.

Ele visitara a Tiroli com frequência, vira de perto o poder que Bruno comandava.

Ele não se iludia.

Sabia o que vinha pela frente.

"Você leu os relatórios", disse Bruno. Sua voz era baixa, firme.

"Cabanas francesas aterrissando em nossos postos fronteiriços. Patrulhas sendo abatidas sob a desculpa de 'acidentes de treino'. Meus homens morrem, e Paris ignora dizendo que é apenas tropeço."

O maxilar de Henri se apertou. Sua resposta foi rápida, decidida.

"De Gaulle faz a França sangrar por orgulho próprio. Já condenei suas ações antes, e farei isso de novo. O que ele faz em nome da República desonra nossa nação e envergonha nossos antepassados."

Os lábios de Bruno formaram a menor linha de sorriso, quase uma sombra. "Bom. Isso deve ser ouvido pelo mundo, não de mim, mas do próprio sangue da França."

Henri inclinou a cabeça. Já esperava por isso. Mas então seu olhar se aguçou, e seu tom se tornou cauteloso.

"Fala abertamente de vingança, Bruno. Já vi sua ira quando provocada. Não quero citar nomes, mas nem consigo imaginar que tipo de louco De Gaulle deve ser para tentar provocar alguém como você você…"

A voz de Henri vacilou, mesmo sem querer.

"Diga-me claramente, Bruno… você pretende aniquilar a França? Erradicá-la da história?"

O olhar de Bruno fixou-se nele, pálido e implacável.

Ele não falou inicialmente, e naquele silêncio Henri lembrou das histórias: Belgrado envenenada até desaparecer, Osaka incinerada por mísseis, Monróvia recebendo sentença de morte de cima.

A fogueira estalou na lareira, e Bruno apenas observou, sem piscar.

Depois ele se inclinou para frente, sua voz baixa, medida, quase confessional.

"Sabe como me chamam, Henri? Massacre. Flagelo. Um homem sem consciência. E eles estão certos, pelo menos do ponto de vista deles."

O olhar dele se tornou ainda mais frio enquanto prosseguia, quase como se o próprio diabo tivesse surgido em seus olhos.

"Mas diga-me: como homens que medem o tempo em anos, décadas, podem presunçosamente me julgar? Eu não penso em anos. Penso em séculos. Na duração das nações. Na sobrevivência da civilização."

Sua mão fechou-se lentamente em um punho, apoiada na mesa.

"O que é a vida de milhões, comparada a centenas de milhões? Ou bilhões ainda por nascer? Você acha que eu me importo com Paris se destruí-la poupa o mundo de mais cem anos de carnificina? Você acha que desejo ser chamado de carrasco, quando a alternativa é deixar meus filhos e os seus se sufocarem em mais uma guerra depois que eu tiver partido?"

O Conde engoliu em seco, a luz do fogo refletindo em seus olhos.

O tom de Bruno caiu para um sussurro, mais frio do que a chuva batendo nas janelas.

"Farei o que for preciso, Henri. E se a França precisar ser destruída para que o mundo nunca mais sangre como sangrou, ela será destruída sem hesitação. Mas não derramo sangue sem um motivo justo… E é aí que você entra, meu velho amigo."

Bruno serviu-se de uma bebida, e fez o mesmo para Henri. Silenciosamente, indicou que o homem bebesse antes que ele próprio o fizesse.

E assim que Henri tomou do copo, apenas então Bruno continuou.

"Eu poderia reduzir a França a cinzas e reconstruir sobre suas ruínas. Como a Gália foi forjada a partir dos escombros da Roma gaulesa. Ou… Você pode assumir o seu lugar legítimo no trono dela."

Henri colocou o copo lentamente na mesa. Sua voz foi firme, mas a mão tremia levemente no cristal.

"E quanto custaria esse trono, Bruno? Conheço você o suficiente para saber que nada que você dá vem sem uma corrente junto."

Os lábios de Bruno formaram uma expressão mais fria do que um sorriso.

Ele recostou-se na cadeira, a luz do fogo realçando os ângulos do rosto.

"Não é uma corrente, Henri. É um vínculoo. Sua filha, Élisabeth, tem aproximadamente a mesma idade dos meus netos. Nosso sangue talvez não seja tão antigo quanto o seu, mas é temperado por aço e guerra. Se sua casa se juntar à minha, se sua coroa repousar numa cabeça unida por sangue a Berlim, então a França perdura. Presa, sim, mas viva. Honrada, em seu lugar."

Os olhos de Henri se estreitaram. "E se eu recusar?"

O olhar de Bruno cortou o silêncio como uma lâmina.

"Então você já tem sua resposta. A França vira memória. Falada da mesma forma que Gália. O tema da conquista de César, a ruína de um povo que esqueceu que misericórdia é feita uma única vez."

O Conde expirou lentamente, como se os séculos de sua linhagem pressionassem seu peito ao mesmo tempo.

Olhou para o fogo e viu não só os fantasmas de seus antepassados, mas também a sombra de uma Alemanha que já esmagara nações maiores que a dele próprio.

Finalmente, assentiu.

"Uma coroa é melhor do que cinzas. Se meu sangue precisar se curvar para sobreviver, que se curve. A França se ajoelhará, e lembrará que existe só por sua mão."

Bruno levantou seu copo e, pela primeira vez naquela noite, uma leve tonalidade de calor tocou sua voz.

"Então está decidido. A França terá seu rei. Mas será um rei a serviço do Reich."

As taças se encontraram, e o brilho da lareira projetou suas sombras longas pelas paredes do escritório.

Fora, a chuva sussurrava nas ruas de Berlim, mas lá dentro, a história mudava seu peso.

Bruno não ofereceu uma coroa, apenas uma coleira em forma de uma, e Henri a aceitou em silêncio, como um homem que sabia que não havia outro caminho.

Naquele momento, foi selado um pacto, não de iguais, mas de mestre e protegido.

Se a vontade de Bruno prevalecesse, a França não se levantaria novamente como antes.

Ela se levantaria acorrentada, eternamente ligada ao calcanhar do Reich.

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