Re: Blood and Iron

Capítulo 669

Re: Blood and Iron

As neves do Tirol tinham derretido em rios que desciam das montanhas, alimentando os vales com a promessa da primavera.

Mas em Berlim, o ar não carregava nenhuma promessa, apenas o cheiro azedo da tensão. Relatórios chegavam diariamente da fronteira.

Canhões franceses “treinando” muito perto da fronteira, projéteis “escapando” para trincheiras alemãs, patrulhas abatidas na calada da noite.

Bruno estava sentado à longa mesa de carvalho do Estado-Maior, com o uniforme impecável, a expressão congelada, como se fosse uma pedra.

Ao seu redor, vozes se chocavam como sabres.

— Eles mataram vinte homens neste mês! — um general vociferou, com o punho batendo forte na mesa, fazendo as tintas tremerem.

— Quanto tempo vamos suportar essa pantomima? Nossos soldados têm que ficar parados enquanto os franceses os açoitam sob o pretexto de treinamentos? — acrescentou outro, com a voz carregada de fúria.

— Temos todo o direito de revidar à altura. Uma barragem na linha de frente silenciaria a arrogância deles — brincou um terceiro, com a voz afiada.

Bruno levantou a mão. As vozes se silenciaram.

Seus olhos pálidos varreram a sala, frios como gelo dos Alpes.

— É exatamente isso que eles querem — disse ele, com tom baixo, mas firme —.

— Querem que respondamos com violência. Que atravessemos a fronteira, para que possam pintar o Império como o agressor diante do mundo. Se lhes dermos esse prazer, não damos início a esta guerra; a perdemos antes de começar.

Bruno inspirou fundo. Não sabia o que o deixava mais irritado:

Se era a audácia com que os franceses atacavam o Reich sob falsas alegações,

ou o fato de não poder retaliar sem perder metade dos investimentos feitos nos últimos vinte anos para este conflito que se aproximava.

Ele apenas esfregou o nariz para se acalmar, exalando pesadamente, como se suas ideias escapassem junto com seu fôlego.

— Existem muitas nações que juraram neutralidade… E temos ainda mais alianças que dependem de uma defensiva. Se nos tornarmos os agressores, perderemos todas essas garantias. Não vou sacrificar vinte anos de esforço por causa de alguns dezenas de homens! Se respondermos na mesma moeda, todo o trabalho que fiz para garantir a vitória do Reich nesta guerra se perde —.

O Kaiser se inclinou para frente, com o bigode branco eriçado.

— E o que então, Bruno? Devemos ficar parados enquanto nossos homens sangram, dizendo às viúvas que foi por paciência? —

Bruno apertou a mandíbula.

Ele bateu uma vez na mesa com a mão encapada, cada palavra medida.

— As vidas deles serão recompensadas, Majestade, dez vezes, cem vezes, mil vezes. Quando chegar a hora, vamos inundar a fronteira francesa com seu próprio sangue, e nem o mais profundo túmulo será suficiente para conter tudo o que lhes damos —.

Silêncio tomou conta da sala. Até os generais mais belicistas ficaram observando-o, entre a fúria e a firmeza aterradora em sua voz.

— Mas não hoje — continuou Bruno —.

— Hoje, mostramos moderação. Hoje, exigimos negociações, reparações às famílias dos mártires, e a prova ao mundo de que eles são os que quebraram a paz. Quando a conta chegar, não seremos lembrados como bestas, mas como justiceiros —.

O olhar do Kaiser permaneceu sobre ele. A sala pesada de uma raiva não dita, mas ninguém teve coragem de desafiá-lo.

Bruno recostou-se na cadeira, a voz agora calma, quase cansada.

— Os lobos não atacam toda pedra que jogam. Esperam. Suportam. E, quando chega a hora, atacam — não por raiva, mas por certeza. Que os franceses joguem suas pequenas bombas. Desta vez, vou reduzir Paris a cinzas, e toda a história deles como povo, junto com isso, por esse insulto infantil —.

Os generais inclinaram as cabeças. A reunião foi encerrada.

Mas, ao sair da câmara, Bruno sabia que a paciência dos lobos tinha limites.

A cada semana, os franceses pressionavam mais. Mais cedo ou mais tarde, a tempestade explodiria.

E, quando isso acontecer, não haverá como segurar.

A sala esvaziou lentamente, os passos ecoando no mármore enquanto os generais saíam.

Suas vozes ainda sussurravam sobre sangue e vingança, mas logo as pesadas portas de carvalho se fecharam, e o silêncio tomou conta.

Apenas dois permaneciam.

O Kaiser ficava de pé ao lado das janelas altas, com as mãos entrelaçadas atrás das costas, contemplando a noite de Berlim.

As lâmpadas do lado de fora espalhavam luz pálida pela vidraça, iluminando seu rosto marcado pelas rugas, numa meia-sombra.

Bruno permaneceu na mesa, olhos fixos nos mapas espalhados na superfície. Por um tempo, nenhum dos dois falou.

Finalmente, Wilhelm quebrou o silêncio. Sua voz era baixa, pensativa, carregada de inquietação.

— Você realmente não vai acabar com Paris em cinzas, vai? —

Bruno levantou a cabeça, seu olhar pálido encontrando o do Kaiser.

Ele ficou em silêncio por um momento, levantou-se lentamente e cruzou a sala.

Seus passos eram suaves, deliberados, até que se posicionou ao lado de Wilhelm na janela.

— Eu tive uma oportunidade, uma única vez — disse Bruno, com voz baixa, quase distante. — Em 1916, ao final da guerra. Os franceses estavam destruídos. Eu acendi fogo na periferia de Paris, uma círculo de chama que poderia ter consumido toda a cidade —.

Ele fez uma pausa, refletindo na sua imagem na vidraça, fria e implacável.

— Mas me contive. Ofereci misericórdia a eles. — Seus lábios se apertaram numa linha fina.

— E misericórdia foi um erro. Eles aceitaram a paz que dei, e em vinte anos criaram uma lâmina apontada mais uma vez contra nossa garganta —.

As sobrancelhas do Kaiser se franziram. — Você fala como se não houvesse escolha. —

— Não há. — voltou Bruno, com tom mais firme —. Não sou homem de segundas chances. Dei uma oportunidade, e eles a desprezaram. Sabe o que Machiavelli escreveu? “Se uma injúria tiver que ser feita a alguém, que seja tão severa que sua vingança não precise ser temida.” —

Um longo silêncio se estabeleceu. Bruno olhava ao longe, talvez pensando em seus próprios fracassos.

— Eu deveria ter arrancado os olhos deles e cortado suas línguas em 1916. Em vez disso, deixei-os enxergar e falar. Agora, eles gritam por guerra de novo. Desta vez, não vou cometer o mesmo erro. Vou destruí-los de tal modo que, quando eu tiver partido, e meus filhos também, ninguém temerá uma quarta guerra com a França, porque não haverá mais França capaz de a guerrear —.

O Kaiser o observava em silêncio, a luz típica das lâmpadas piscando em seus olhos cansados.

Bruno baixou a voz mais uma vez, carregada com a fadiga da idade, mas firme na sua convicção de ferro.

— Meu tempo não é muito, Majestade. Não quero deixar um novo conflito para que meus filhos herdem. Melhor acabar com a França agora, de uma vez por todas, do que condenar a próxima geração ao ciclo de sofrimento que eu já vivi —.

Ele se virou, com o manto arrastando no chão de mármore.

Ao fundo, o Kaiser sussurrou, quase para si: “Assim morre a era da misericórdia…” —

Bruno não virou-se. — Misericórdia — disse ele — foi enterrada em 1916 —.

E então, desapareceu.

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