
Capítulo 676
Re: Blood and Iron
O rugido dos motores era ensurdecedor dentro do ventre do transporte.
As paredes de metal vibravam a cada rajada de turbulência, parafusos rangeram, o cheiro de óleo e ferro se misturava ao suor.
O Oberstleutnant Erich von Zehntner estava curvado sobre o rádio no veículo de comando blindado, preso ao chão da aeronave.
Suas mãos com luvas repousavam sobre os joelhos, mas seus nós de dedos estavam brancos mesmo assim.
Ao seu redor, ajudantes verificavam cintos, mapas, os fios delicados do sistema de comunicação.
Cada homem se movimentava com a precisão de quem já treinara mil vezes, mas sob a disciplina do treinamento Erich podia sentir a mesma ansiedade que apertava seu próprio estômago.
Eles tinham ensaiado isso milhares de vezes.
Exercícios conjuntos com os belgas. Deslocamentos simulados pelos campos do Reich.
Incontáveis horas praticando cada passo da doutrina aerotransportada até que a memória muscular substituísse o raciocínio.
Mas isso não era um exercício.
Não se tratava de uma campanha fictícia na Espanha, onde lutara ao lado de voluntários contra republicanos e sindicalistas, uma fase de teste para um jovem oficial sedento por combate.
Aquela havia sido uma guerra de fachada, um espetáculo secundário comparado a isto.
Isto era a Europa em chamas novamente.
Isto era a guerra de seu avô renascida.
Erich fechou os olhos por um momento.
Ainda podia ouvir a voz do avô, calma e firme como aço, ensinando a lição que repetira a vida toda: "O dever não espera você se sentir preparado. A vida é passageira, mas o dever é eterno."
Ele abriu-os novamente. Seus homens o observavam.
Eles não perguntaram se ele tinha medo.
Eles perguntaram, sem palavras, se seu comandante estava firme.
Ele assentiu uma vez, decidido.
"Verificação do sinal," disse. Sua voz sobrepôs-se ao zunido dos motores. "Confirmação da linha com o comando em Bruxelas. Confirmação da prontidão para o link de solo assim que desembarcarmos."
Um por um, retornaram os informes.
Aberto. Pronto. Luzes verdes em todos os painéis.
A voz do piloto atravessou o intercom as goelas.
"Zona de pouso em cinquenta minutos. Defesa antiaérea prevista. Levaremos vocês o mais próximo possível."
Erich exalou, lentamente, com controle. Ajustou o mapa sobre a mesa diante dele, os olhos traçando as ruas de Ypres.
Ele sabia o que os aguardava: uma cabeça de lança blindada francesa, já avançando na Bélgica, tentando transformar a cidade em um escudo contra o contra-ataque do Reich.
Seu batalhão desembarcaria atrás das linhas, cortando suprimentos e comunicações, provocando caos antes que a pesada artilharia do Exército Belga Royal enfrentasse o inimigo de frente.
Era doutrina escrita por seu avô há muito tempo: o martelo e o bigorna.
E agora Erich seria a bigorna.
Por um momento, permitiu-se pensar em casa.
Na mão de Erika no seu ombro ao deixar o palácio. Nos seus filhos dormindo, jovens demais para entender o peso que lhes caiu simplesmente pelo sangue.
Empurrou esses pensamentos para longe. Não havia espaço para sentimentalismo aqui.
O veículo de comando sacudiu-se ao atingir uma bolsa de turbulência.
Um jovem tenente amaldiçoou baixinho. Erich levantou o olhar abruptamente.
"Estável," disse, de forma seca. "Somos alemães. Não vacilamos. Enfrentamos a morte de frente… e acima de tudo cumprimos nosso dever...."
As palavras não eram para ele mesmo, mas acalmaram seus nervos de qualquer forma.
A luz vermelha acima da escotilha brilhava steady.
Cinquenta minutos. Quarenta e nove. Quarenta e oito.
Cada segundo que se esgotava rumo à primeira batalha de sua vida.
O avião trelicou novamente, desta vez com mais força. Lá em cima, os motores rugiam contra as correntes de ar que se deslocavam.
Um rangido metálico sacudiu o porão, som que fazia homens mais jovens apertarem ainda mais seus cintos.
Depois, vindo de pouco atrás, outro som crescente: não era turbulência, nem vento.
Trovões. Explosões ecoando lá embaixo.
"Defesa antiaérea," murmurou um dos ajudantes, com a voz tensa.
Erich sentiu também.
O ventre da aeronave vibrava com cada explosão de projéteis distantes no céu escuro abaixo deles.
Os franceses atiravam às cegas, suas armas pequenas, de alcance curto, incapazes de atingir essa altitude.
Mas cada estalo era um lembrete do que os aguardava lá embaixo.
Ele manteve o rosto inexpressivo. "Podem latir à vontade," disse seco. "Desde que não consigam morder."
Os homens riram nervosos, mas o som morreu rápido.
Ninguém ali acreditava que eram intocáveis. Nem quando as escotilhas se abriram.
A luz de contagem regressiva piscou, depois ficou estável.
Dez minutos.
O porão ficou com um silêncio diferente.
Não era o barulho dos treinamentos, nem o ranger dos parafusos, mas a quietude de homens percebendo que, ao abrir a escotilha, eles passariam do treinamento para a história.
Erich se inclinou para frente, apoiando as mãos no mapa uma última vez.
Ypres. A zona de pouso. As linhas francesas ao fundo.
A doutrina de seu avô era clara: atacar fundo, perturbar, cortar suprimentos, semear o caos. O martelo e a bigorna. Ele era a bigorna.
Seu peito apertou, não por dúvida, mas pelo peso da inevitabilidade.
A lâmpada acima da escotilha piscou verde.
As portas de carga rangeram ao se abrirem, inundando o porão com luz forte e o frio repentino do ar em alta altitude.
O rugido dos motores intensificou-se enquanto a aeronave se preparava para lançar seu aço e carne na loja de fogo abaixo.
"VÃO!"
O veículo de comando avançou, com os cintos soltos.
Um a um, bestas blindadas e suas tripulações rumaram em direção à escotilha aberta, seus paraquedas se desenrolando como flores brancas no céu.
Erich segurou o rádio, preparando-se enquanto o mundo parecia inclinar-se. A aeronave tremeu e caiu no vazio.
Por um instante, tudo ficou silencioso. A queda livre parecia quase pacífica.
Depois, o fogo antiaéreo abaixo estendeu seus dedos pretos, explodindo ao redor.
O casco blindado tremeu enquanto ondas de choque passavam por ele.
O ar cheirava a fumaça, pólvora, óleo queimado. Cada explosão ficava mais aguda, mais próxima, enquanto o chão se levantava.
Erich apertou o microfone do rádio, sua voz firme apesar do trovão.
"Segurem firme, homens!"
Sua voz quase quebrou, e ele se calou por um momento para se recompor.
Segurando-se nas palavras que seu avô lhe dizia quando era um adolescente implorando para ingressar na academia militar.
A morte vem para todos nós. Tudo que um homem pode fazer nesta vida é esperar pelo dia em que seu nome será chamado.
Mas, quando você está diante de uma fortificação de metralhadoras, e seus homens estão acossados.
Às vezes, a diferença entre a vida e a morte depende da vontade de agir.
Lembre-se disso, garoto, porque um dia você também enfrentará a morte quando ela vier buscar por você.
E quando ela vier… Você age.
Depois de respirar fundo e acalmar os nervos, Erich percebeu que o céu ainda queimava enquanto Ypres surgia para encontrá-los, um cemitério pronto para ser reescrito com o sangue de mais uma geração.