Re: Blood and Iron

Capítulo 675

Re: Blood and Iron

Ypres repousava suavemente sob o quente brilho do sol de verão.

Essa cidade já foi palco das batalhas mais sangrentas do mundo.

A Grande Guerra deixou cicatrizes profundas no solo, cicatrizes que o tempo apenas conseguiu enterrando parcialmente.

Mas as pessoas perseveraram. Os soldados que sobreviveram resistiram.

Viviam. Lembravam.

E por mais de vinte anos, a vida voltou ao normal.

Hoje não foi diferente.

Crianças corriam pelas ruas estreitas, suas risadas ecoando nas paredes de pedra antigas.

Mães observavam das portas, conversando à toa, com xícaras de café na mão.

Homens caminhavam para seus trabalhos, queixando-se de costas cansadas, carregando o peso da sobrevivência, mantendo a cidade viva.

Era a vida na fronteira entre a Bélgica e a França.

Tranquila. Familiar. Fragilizada.

Então, ao longe, veio o trovão.

Motoristas. Dez, depois centenas, o som de colunas blindadas avançando em formação.

Acima, o zumbido dos hélices cortava o ar da manhã.

Primeiro, os moradores congelaram, incertos.

Só quando os alarmes tocaram é que o pânico tomou conta deles.

Crianças gritavam, mães apertavam os filhos nos braços, e homens abandonaram seus trabalhos com os tiros riscando o horizonte.

A Guarda de Fronteira Belga abriu fogo, desesperada em tentar conter a maré.

Policiais e soldados encheram as ruas, indicando às famílias que procurassem por porões e estações de trem.

Mas todos sabiam o que estava por vir.

Ypres estava prestes a se tornar um campo de batalha novamente.

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Longe, em Berlim, a Chancelaria do Reich permanecia silenciosa.

As lâmpadas queimavam baixa, lançando sombras longas sobre a mesa de mapas.

Fumaça de cigarro se enrolava no teto, formando espirais finos e inquietos.

Ajudantes ficavam imóveis, com canetas na mão, como se tivessem medo de perturbar o silêncio antes de Bruno falar.

Bruno estava em uniforme completo, com fitas brilhando sob a luz elétrica.

Ao seu lado, os maiores generais e almirantes da Alemanha aguardavam, com canetas paradas sobre o papel, olhos fixos no mapa.

Heinrich estava entre eles.

Foi o maior solteiro elegível do Reich, mas o tempo e a família o haviam suavizado.

Uma pequena barriga pressionava contra a túnica, lembrando dos jantares em casa, e não no campo de batalha.

Bruno percebeu, mas não disse nada. Agora não era hora de brincadeiras.

Ele olhava para o telegrama de Bruxelas.

Finalmente, sua voz quebrou o silêncio. Sua voz era de ferro.

"Os franceses aprenderam com seus erros. Sem declaração de guerra. Sem aviso prévio. Eles atacaram a Bélgica diretamente, ultrapassando nossas defesas na fronteira. Em 1914, marcharam para um moinho de carne. Desta vez, tentam outro caminho."

Os olhos pálidos de Bruno percorreram o mapa. "Infelizmente para eles, nós nos preparamos para isso há vinte anos."

Ele moveu as figuras que representam suas unidades para a posição no mapa que se estende sobre a mesa.

Sua mão estava firme, sua expressão, de granito.

"Desembarquem imediatamente os Fallschirm-Panzergrenadiere. Juntamente com o Exército Belga Real, eles deverão ser suficiente para interromper o avanço francês."

Ninguém contestou. Ninguém teve coragem.

Naquela época, a palavra de Bruno era mais que uma ordem… era lei.

Depois, Bruno deslocou as peças das fronteiras próprias para áreas marcadas como Borgonha, Alsácia-Lorena e Luxemburgo.

"Envie o Primeiro e o Terceiro Exércitos direto pelas nossas fronteiras rumo às terras francesas. Vamos manter o Segundo e o Quarto reservados por enquanto."

Depois, sua mão se moveu para os marcadores de bombardeiros e escoltas.

"Os franceses vão perceber o quão atrasados estão. Comecem ataques imediatos ao coração do território deles… cidades, fortificações, fábricas, ferrovias, aeródromos, portos e qualquer outro alvo que possa apoiar as forças militares… destrua-os."

Ele deixou as palavras pairarem no ar, o silêncio posterior mais ensurdecedor que a própria ordem.

Quando falou novamente, sua voz ficou mais fria, quase acadêmica.

"Não se trata de crueldade. É necessidade. A guerra é matemática. Se destruirmos a capacidade de combater deles nas primeiras semanas, encurtamos o conflito, poupamos vidas. Misericórdia não é moderação, misericórdia é vitória rápida."

Por fim, sua mão se moveu para a frota.

"Por enquanto, a Flotilha de Alto Mar vai atuar com interceptações e ataques de picada. Afundem qualquer embarcação suspeita de levar homens ou armas para a França. Estamos em guerra total agora. Contra a França, seus aliados e, se for preciso, o mundo."

A sala permaneceu em silêncio. Só a chuva contra as janelas ousava falar.

Heinrich ficou tenso. Lutou ao lado de Bruno desde 1900, mas ainda assim as palavras o assustaram.

Seus aliados, Rússia, Itália, Hungria, Espanha, Grécia, já tinham declarado apoio.

Mas a voz de Bruno carregava o peso da profecia: cedo ou tarde, o resto do mundo seria puxado para essa tempestade.

A chuva aumentou a intensidade, batendo contra as javanas num ritmo oco, ao som do decreto de Bruno.

Heinrich sentiu o antigo medo se armar no peito.

Já marchara para a guerra antes, ao lado de Bruno e Erich, jovens que se achavam invencíveis.

Lembrou-se da lama, do cheiro de gás, do constante registro de mortos.

Naquela época, acreditava que seria a guerra que acabaria todas as guerras. Mas estava enganado.

Agora, olhava para o mapa, para a marca que Bruno colocara sobre o regimento do próprio neto.

Heinrich sentiu a garganta se apertar.

Agradeceu a Deus por seus filhos ainda serem jovens e não estarem ainda a caminho dessa nova tempestade.

Mas essa esperança era envenenada por culpa. Outros não seriam poupados. A família de Bruno não seria poupada.

Olhou para seu amigo mais velho.

A expressão do Reichsmarschall não vacilou. Seus olhos claros nunca se desviaram do mapa.

Heinrich exalou, quase um sussurro.

"Então, que tudo comece."

Bruno não respondeu.

Ele apenas moveu mais um marcador, fixando seu olhar pálido na França, como se já visse ela em chamas.

A guerra tinha começado, e enquanto outros lamentavam a ideia de mandar mais uma geração para as garras da morte, Bruno não se lamentava… não, ele sabia exatamente quão destrutiva e cruel essa guerra seria.

E, mesmo assim, ordenou o envio de seu próprio neto para o conflito, sem hesitar.

Porque era seu dever. E o dever de um homem na vida vinha acima de tudo.

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