
Capítulo 674
Re: Blood and Iron
O Palais Bourbon exalava cigarro, arrogância e orgulho.
No extremo da mesa, Charles de Gaulle movia suas longas mãos sobre um mapa, cujos cantos eram pesados por cinzeiros e copos meio vazios.
Um coronel se inclinou ansioso, apontando com um lápis.
"Operação bem-sucedida, general. A avançada alemã em Saarbrücken foi silenciada. Relatos indicam várias dezenas de baixas."
Uma onda de risadas percorreu a mesa. Um ministro murmurou: "Quem sabe agora os boches vão pensar duas vezes antes de reclamar por reparações."
Outro acrescentou: "Berlim vai mandar outra nota, sem dúvida. Reivindicações de desculpas, pedidos de ouro. Acham que podem envergonhar a França com papel. Que tentem."
De Gaulle apoiou-se na cadeira, exalando fumaça, os olhos brilhando.
"Um dia de trabalho bem feito, senhores. Mantenham a pressão constante. Cada explosão lembra a Berlim quem manda na fronteira."
De repente, as portas se abriram de sobressalto. Um ajudante pálido entrou, cambaleando, segurando um telegrama. Sua voz tremia.
"General… não era uma posição avançada. A operação—" Ele hesitou, olhando ao redor da sala.
De Gaulle falou rápidamente: "Fale claramente, homem."
O ajudante engoliu em seco. "Era um hospital. Próximo a Saarbrücken. Civis… mulheres, crianças. Os alemães já têm fotos."
A risada sumiu do ambiente. Os ministros trocaram olhares cautelosos. O coronel que havia se gabado poucos minutos antes ficou paralisado, a mão escorregando do lápis.
De Gaulle balançou a cabeça com desprezo. "Propaganda. Eles inventarão qualquer coisa. Fomos nós quem atacou seus soldados, nada mais."
Porém, o silêncio que se seguiu foi pesado, tenso. Todo homem naquela sala sabia: seja acidente ou não, Paris havia dado a Berlim uma arma mais afiada que o aço.
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Berlim ficara silenciosa.
Não era o silêncio da paz, mas o silêncio da raiva contida. Os corredores do Chancelaria estavam calados, cada funcionário e ajudante carregando o peso do que tinha sido relatado.
Bruno estava ao lado do Kaiser, com o telegrama na mão.
Seu rosto permanecia impassível, mas o ambiente parecia ficar mais frio enquanto ele lia.
"Um hospital," disse ele com monotonia. "Crianças entre os mortos."
O Kaiser bateu com a mão na mesa com força. "Monstros! Bárbaros! Nos chamam de açougueiros, mas eles bombardeiam os doentes?"
Um general cuspiu: "Chega de paciência, Reichsmarschall. Dar a ordem! Responder ao fogo com fogo!"
Bruno levantou uma mão, silencioso. Seus olhos pálidos cortaram a sala como lâminas.
"Não," disse ele. "Ainda não. Gostariam que reagíssemos. Eles desejam isso. Mas isto…" Ele tocou o telegrama com um dedo de luva.
"…isto é diferente. Soldados podem cair, é missão deles. Mas civis, indefesos, crianças? Isto não é guerra. É crime."
Fez contato direto com o Kaiser. Sua voz era calma, mas carregada de ferro.
"Majestade, devemos exigir justiça. Emitir um ultimato a Paris: Charles de Gaulle deve ser entregue a Berlim, para julgamento por crimes contra a humanidade."
Os generais explodiram. "Impossível!" gritou um. "Nunca vão entregá-lo!"
"Isso," disse Bruno friamente, "é o ponto."
O Kaiser o olhou, e lentamente assentiu. "Sim. Eles rejeitarão. E, nessa recusa, o mundo saberá quem iniciou essa guerra."
O ultimato saiu de Berlim em uma hora.
Seu teor era claro: entregar Charles de Gaulle a Berlim para responder pela chacina em Saarbrücken, ou aceitar total responsabilidade pelo crime.
A resposta francesa veio rapidamente, com orgulho e fúria: "A França não se submete ao Reich. A República não responde a tirano estrangeiro."
No Palais Bourbon, De Gaulle tinha bradado sobre honra, soberania e dignidade da França. Pela manhã, uma declaração formal de guerra foi publicada.
E em Berlim, Bruno entrou no Reichstag.
A câmara estava lotada, todos os assentos ocupados, logradouros repletos de jornalistas e dignitários.
O ar vibrava com expectativa, medo e raiva. No púlpito, Bruno colocou uma pasta preta. Lentamente, de forma deliberada, abriu-a e espalhou seu conteúdo sobre a mesa de madeira.
Fotografias.
Os gritos de choque vieram instantaneamente: camas destruídas, uma enfermaria reduzida a escombros, formas minúsculas envoltas em lençóis ensanguentados. Mulheres segurando filhos mortos. Enfermeiras soterradas em pedras.
Bruno permaneceu calado atrás deles. A sala se agitou, incapaz de desviar o olhar. Finalmente, ele ergueu o olhar.
"Durante meses," começou, a voz baixa, firme, cada sílaba calculada, "temos suportado a arrogância da França."
Ele fez uma pausa, seus olhos varreram o salão.
"Eles dispararam contra nossos soldados e chamaram de treino. Atacaram nossas posições e disseram que foi acidente. Derramaram sangue alemão e disseram que foi descuido. E ainda assim, suportamos. Quase cinco meses suportamos. Porque, por mais lamentável que seja, é dever de um soldado morrer por seu país. Isso se espera…."
Ele abaixou o olhar para as fotografias, depois olhou novamente para cima, aumentando a voz.
"Mas atacar um hospital? Matar mulheres e crianças, doentes e feridos? Isto não foi acidente. Não foi erro. É desumano. É demoníaco. E não toleraremos o diabo no Reich!"
A sala tremeu com gritos de fúria, mas a voz de Bruno cortou como trovão.
"Oferecemos paz. imploramos por razões. Exigimos apenas justiça pelos nossos mortos. E qual foi a resposta deles? zombaria. Insultos. Desafio. Quando exigimos justiça por Saarbrücken, eles cuspiam em nosso rosto e declararam guerra."
Ele bateu com a mão forte no púlpito, o som ecoando.
"Escutem-me agora. A França mostrou suas garras. Escolheu seu caminho. E eu juro a vocês, enquanto eu respirar, conduzirei essa guerra com a mesma determinação, a mesma retidão com que conduzi todas as campanhas da minha vida. E essa determinação é esta…"
Ele se inclinou para a frente, os olhos ardendo, a voz um rugido que sacudiu a sala:
"Lutar até o último homem! Com essa loucura, a França mostrou disposição de condenar o mundo inteiro à tragédia de outra Grande Guerra. E, como seu ditador parece decidido a destruir a Alemanha, mostrarei a ele quem, no fim, será destruído! Aos bons franceses, de quem só tenho minha esperança, meu amor e minhas orações, vocês devem ao criminoso Charles de Gaulle a responsabilidade por toda a crueldade que só pode surgir dessa insanidade. Em sua histeria, de Gaulle condenou a França a um destino que, de um jeito ou de outro, levará à morte da República!"
O Reichstag explodiu.
Homens se levantaram, golpes de punho, vozes uníssonas e retumbantes. Os espectadores gritaram de entusiasmo.
Repórteres Registravam freneticamente enquanto as palavras já entravam na história.
Em toda a Alemanha, rádios transmitiam o discurso.
Em Roma, Madri, Viena e Estocolmo, jornais republicaram sua promessa.
Em Londres, manchetes questionavam se a República tinha enlouquecido.
Em Washington, senadores sussurravam que talvez tivessem errado ao apoiar os Aliados.
E em Paris, as palavras caíram como um golpe de martelo.
De Gaulle tinha sua guerra.
Mas Bruno tinha sua causa.