Re: Blood and Iron

Capítulo 653

Re: Blood and Iron

O ano passou, não em silêncio, mas em uma respiração lenta e deliberada.

A primavera descongelou as últimas manchas de sangue do conflito em Mittelafrika.

O verão trouxe desfiles por Roma e Berlim, enquanto o outono viu novas linhas de aço sendo colocadas pelos Bálcãs, como ossos forjados novamente.

E então veio o inverno.

O inverno envolveu o mundo em silêncio, mas não em paz.

Cobriu as trincheiras sendo escavadas novamente na Finlândia.

Escondeu as silhuetas dos navios mercantes navegando para o norte, rumo à Groenlândia, sob bandeiras falsas.

Amorteceu os passos dos soldados treinando em fortalezas nas montanhas, de Carpatia ao Cáucaso.

Até os diplomatas ficaram calados, exaustos de um ano de sussurros, ameaças e neutralidade cuidadosamente coreografada.

As fronteiras permaneciam, mas a crença na sua permanência não.

Todos sabiam o que estava por vir.

Neve nova fazia barulho sob as botas deles, limpa, intocada, exceto pela trilha serpenteante que haviam aberto pelos jardins congelados.

Bruno vestia um longo sobretudo preto forrado com pelagem de lobo tirolês, com as mãos com luvas entrelaçadas atrás das costas.

Seu hálito saía em nuvens tranquilas, cada passo deliberado, cada palavra lenta.

Ao lado dele, mais baixo em estatura e passo, caminhava Victor Emmanuel III, rei da Itália.

Seu sobretudo militar carregava-se rígido no corpo, ajustado de forma perfeita, mas claramente cerimonial.

O monarca observava as picos cobertos de neve ao redor do vale, como antigos guardiões.

— Você ainda tem neve na alma, Bruno — disse o rei com um meio-sorriso. — Agora vejo por que seu povo aguenta tão bem o inverno.

Bruno deu uma risadinha silenciosa.

— Com certeza você está brincando? Será que o mundo já esqueceu que minha casa tem origem na Prússia?

Eles fizeram uma pausa em um mirante de mármore, onde as montanhas se dissolviam na névoa distante. Lá embaixo, luzes tênues da vila se piscavam como velas na neblina.

Muito além, as torres de Innsbruck perfuravam a escuridão.

Victor Emmanuel respirou fundo, cruzando as mãos com luvas na grade do mirante.

— Vim aqui para agradecer. Não como soberano, mas como homem. A Itália estava à deriva. Dividida, sem fé, perdida. Foi o seu apoio que nos deu força de novo, suas linhas férreas, seus engenheiros, seu conselho silencioso.

Bruno virou um pouco o corpo, oferecendo apenas um sorriso breve.

— Não dei à Itália nada que ela já não tivesse, Sua Majestade. Só lembrei ela do que ela era.

O rei italiano virou a cabeça brevemente.

— Destino — murmurou. — Você nos devolveu o sentido do nosso destino.

Houve um instante de silêncio. Um grito de uma águia ecoou das falésias.

Os olhos de Bruno não desviararam do horizonte.

— Os Aliados vão chamá-lo de militarismo. Mas eles confundem orgulho com agressividade. Esquecem o que a humilhação alimenta nos homens.

— E ainda se esquecem — disse Victor Emmanuel, agora com mais firmeza na voz.

Bruno assentiu com a cabeça.

— Que continuem assim. Quanto mais postura e hesitação eles demonstrarem, mais fortes ficaremos. A indústria prospera na quietude. As alianças se aprofundam no frio.

Ele bateu uma vez com a luva na grade coberta de neve, como para reforçar um ponto.

— Que continuem olhando para o Reno. A próxima guerra deles não começará lá.

O rei inclinou a cabeça. — Então onde?

Bruno sorriu, mas não disse nada.

Somente o vento respondeu.


Alguns meses depois, chegou o dia.

O mar era um espelho de onda negra sob o sol baixo do Ártico, quebrado apenas pelo lento movimento dos blocos de gelo e pelas silhuetas distantes de arrastões de pesca grudados à costa.

Da ponte do Freyja, um quebra-gelo civil alemão equipado com bandeira da Alemanha, o rádio operador olhou para cima ao piscar a luz de transmissão vermelha.

Novamente, ele não precisou perguntar. A mesma transmissão já tinha sido feita duas vezes.

— Nave não identificada operando em águas disputadas do Ártico — estalou a mensagem em inglês canadense monotônico.

— Ordenados a desviar de rota e se preparar para inspeção de embarque sob os protocolos do Tratado do Atlântico Norte.

O capitão Meissner abaixou os binóculos, cerrando a mandíbula.

O destróier canadense que se levantava a um quilômetro à direita, bem na direção da proa, não escondia suas intenções agora.

Ele atravessava as águas geladas com propósito, casco cinza brilhando com geada, os canhões ligeiramente inclinados para não apontar, mas também não afastados.

— Registre isso — murmurou. — Terceira perseguição nesta semana.

O jovem tenente ao lado, desconfortável, perguntou: — Ordens, capitão?

Meissner sorriu sem humor. — As ordens são de transportar minério de Nuuk para Bergen. Não deixarei que algum cano de guerra colonial dite minha rota.

Com uma mão tranquila, acionou o transmissor.

— Aqui é o Freyja, uma embarcação de transporte civil registrada na Dinamarca e protegida pelo Reich. Estamos dentro dos corredores LEGALMENTE definidos para o transporte na Dinamarca, sob tratado bilateral. Se atirarem em nós, estarão cometendo um ato de guerra.

Silêncio.

Então:

— Essa é uma afirmação bastante ousada, Freyja. Para um navio tão longe de Kiel.

O capitão Meissner desligou o receptor. — Seu idiota.

Por trás deles, a tripulação se mexeu desconfortável enquanto o navio canadense lentamente ajustava sua rota, cruzando o caminho do Freyja.


No interior de aço frio do bunker das operações costeiras alemãs, um Oberleutnant alemão fixou a última foto no quadro de cortiça.

Quatro fotos, quatro encontros diferentes. Todos com o mesmo padrão: navios canadenses perto das águas dinamarquesas, interceptando transportes alemães desarmados. Nenhum tinha atirado ainda.

Mas a última imagem mostrava algo novo: uma lancha canadense de abordagem na água, se aproximando de uma embarcação de patrulha dinamarquesa.

O Generalleutnant Kessler, comandante do Ártico do Reich, encostou na bengala e olhou para o quadro por um longo momento. Finalmente:

— Estão testando a gente.

— E a Dinamarca — acrescentou Richter — tentando ver se Copenhague vai tremer. Ou se Berlim vai.

Kessler exalou pelo nariz. — Acham que por ser Groenlândia ninguém vai se importar. Que o mundo chamará isso de mal-entendido.

Olhou para o relatório criptografado na sua mesa, que chegou naquela manhã de Tirol, com o selo de Bruno. A mensagem era curta. Uma única frase:

— Deixe que pensem assim.

Kessler sorriu de forma sombria.

— Sinalize a frota. Nada de engajamentos… mas envie a U-121 para seguir a próxima equipe de abordagem. Se atacarem outro navio, afunde a lancha.

— E se eles contra-atacarem?

A voz de Kessler foi plana. — Então, vamos parar de fingir que estamos em paz.

Os canadenses fizeram sua jogada de blefe, e os alemães jogaram suas cartas.

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