
Capítulo 654
Re: Blood and Iron
U-121 ficava escondida sob as ondas do Mar Ártico.
Groenlândia tinha se tornado mais do que uma rocha congelada; era uma cabeça de ponte.
O comércio fluía como sangue por suas veias entupidas de gelo, mas também fluía ferro.
A chamada Estação Conjunta de Pesquisa do Ártico tinha surgido com antenas de aço e posições de tiro ocultas, um segredo guardado apenas pelo silêncio e pela neve.
Os Aliados sabiam disso, mas não conseguiam provar. E assim, ao negar o pretexto para uma guerra, optaram pela provocação.
Destroyers canadenses começaram a fazer "inspeções". Assedios, intimidações veladas. Mas hoje, eles foram longe demais.
Hoje, o HMCS Ottawa cruzaria uma linha do fronte de onde não se volta atrás.
Ela flutuava orgulhosa na escuridão gelada, com os motores zumbindo como um leão à espera de atacar.
Seu bote branco deixava marcas no mar tranquilo, em direção a um cargueiro alemão deserto, parado na água, motores ociosos, tripulação obediente.
As armas do Ottawa já estavam carregadas. A inspeção era apenas encenação.
O capitão Malcolm R. Weatherby comandava no leme, binóculos empoleirados como uma coroa no topo do nariz.
"Sete gerações da minha família comandaram navios de Sua Majestade. Enfrentamos os franceses, os russos, até os yankees. Mas os alemães? Hah. Uma guerra de sorte e de repente eles acham que dominam os mares. Bem… não tão arrogantes agora, né?"
O jovem alferes ao lado dele assentia demais, com demasiada ansiedade.
"Foi isso que você disse, senhor. Com o senhor no comando, esses idiotas não ousariam—"
As palavras ficaram presa na garganta dele.
Weatherby arregalou os olhos. O rosto do rapaz tinha ficado pálido como osso. Boca aberta, olhos arregalados—olhando além dele.
Um calafrio mais frio que o vento do Ártico escorregou pela coluna de Weatherby. Ele se virou—
E viu.
Não uma esteira de rastros. Nem uma ondulação. Uma linha. Uma faixa luminosa no mar, brilhando de um verde fantasmagórico sob a superfície.
O plâncton bioluminescente tinha sido despertado, perturbado por algo que se movia muito mais rápido e muito mais profundo do que qualquer torpedo deveria.
Uma linha silenciosa, serpenteando por debaixo do navio alemão, indo direto para o Ottawa.
"SE PREPAREM PARA O IMPACTO!" Weatherby berrou, a voz tremendo com a força do comando e do medo.
Já era tarde demais.
A água sob o Ottawa explodiu, mas não com uma explosão comum.
Não houve bola de fogo. Nem trovão retumbante. Apenas um momento de silêncio absoluto, uma centelha de imobilidade sobrenatural.
Depois veio a implosão.
Um grito de metal rasgou o casco enquanto algo o atingia, não uma ogiva, mas uma agulha.
Um broca. Um projétil com urânio empobrecido, feito para perfurar, não explodir.
Uma broca. Um calibre com ponta de urânio empobrecido, moldado para atravessar, não para explodir.
O casco pressionou-se para dentro como papel. Costelas de aço se partiram. Então, dentro do ventre destruído do Ottawa, a segunda fase foi ativada.
Uma névoa de combustível e ar de alta pressão explodiu em todos os compartimentos tocados, porão de cargas, sala de máquinas, refeitório, beliches da tripulação. Sensores de oxigênio falharam. Luzes diminuíram seu brilho.
E então—
ignição.
O navio virou uma tumba de fogo criado pelo vácuo do interior.
Não uma chama na superfície, mas um pulso consumindo tudo, destruindo por dentro.
Uma explosão termobárica transformou o Ottawa em uma fornalha selada. Órgãos se liquefizaram. Globos oculares ferveram. Os homens não gritaram; se vaporizaram.
O puente explodiu para cima como uma lata chutada. O último pensamento de Weatherby não foi de honra, dever ou legado.
Foi:
"Que porra eles nos acertaram…?"
Um segundo depois, ele deixou de existir.
O Ottawa não afundou.
Ela foi destruída.
Sem sobreviventes. Sem caixa-preta. Sem casco para recuperar. Apenas ferragem queimada, escória de aço retorcida, pedaços de estrutura rasgada e uma bóia queimada com as letras desbotadas: HMCS OTTAWA.
Os seis homens a bordo do bote de abordagem encaravam tudo em silêncio, com horror mudo.
"O-que… o que diabos acabou de acontecer?"
A voz do alferes Carter perdeu a firmeza no meio da frase. Ninguém respondeu.
Nem o oficial responsável, o tenente-comandante Harper, um homem que servira na Marinha Real Canadian por quinze anos, conseguia parar de olhar boquiaberto.
Não havia trilha de torpedo. Nem periscópio. Nem sonares apitando.
Num instante, o Ottawa era seu escudo; no outro, explodira por dentro, partido como um peixe eviscerado.
"Cadê o fogo? Não há fogo! Não sobrou nada!" um dos marinheiros gaguejou, engolindo o ar frio e a incredulidade.
As mãos de Harper tremiam no rádio, pressionando o botão de chamada em desespero.
"Mayday, Mayday, aqui é a lancha Sierra-Dois. Ottawa foi destruída! Repito: Ottawa foi destruída, por uma força hostil desconhecida, solicito evacuação imediata!"
Mas não houve resposta.
Apenas estática.
O cargueiro alemão, tranquilamente à deriva nas proximidades, permanecia intacto.
Sem armas visíveis. Sem sinais de emergência.
Somente a tripulação observava em silêncio da popa, com as mãos nas costas, como se fossem acompanhantes de funeral no mar.
"Eles sabiam," Harper murmurou. "Eles sabiam, porra."
Então…
Um ronco distante, baixo.
Não era hélice. Era um som que não devia pertencer àquela era: profundo, suave, friamente mecânico.
E então surgiu através da névoa matinal.
Uma silhueta.
Elegante. Angular. Como uma lâmina deslizando sobre a água.
Uma embarcação de ataque rápido, com marcas alemãs quase invisíveis ao lado, em cinza de baixa visibilidade.
Mas isso não era um torpedo da Primeira Guerra Mundial. Era predador de uma linha do tempo diferente.
Os olhos de Harper se arregalaram.
"Jesus Cristo…"
A embarcação era menor que uma corveta. Mas tinha canhões automáticos navais de 76 mm na proa e na popa.
Incluía lançadores verticais de mísseis fechados e compartimentos de torpedos em tubo quádruplo que exalavam vapor como touro amacando o chão.
Havia também pylons de mísseis terra-ar adicionados para abater aeronaves inimigas que pudessem encontrar.
No convés, marinheiros em uniformes escuros, no estilo BDU, se moviam como uma engrenagem bem ajustada. O chapéu de marinheiro habitual foi substituído por capacetes de fibra aramida.
Um deles ficava na proa, encarando diretamente o bote.
Ele levantou um braço.
Depois, uma segunda embarcação aceleração saiu de trás da primeira.
Em seguida, uma terceira.
Eles se moveram de forma sincronizada, cercando o bote como lobos rodeando uma caça ferida. Sem luzes de aviso. Sem sirenes estridentes.
Apenas a ameaça.
O silêncio.
E a sensação crescente de estarem completamente superados.
"Nós… não estamos em guerra," um marinheiro sussurrou, como se dizer isso em voz alta fosse salvá-los.
"Eles não se importam," Harper respondeu vazio.
Acima, a névoa se abriu e a visão de aviões voando baixo apareceu. Vasculhavam com suas metralhadoras as embarcações abaixo.
E algo mais sob suas asas.
Embora fossem aviões a hélice, fechavam a distância mais rápido do que qualquer coisa que os Aliados tivessem produzido.
A tripulação do bote ficou paralisada.
Ninguém se mexeu. Ninguém teve coragem.
Então, uma voz cacarejou pelo rádio VHF, não na frequência deles, mas por um canal de substituição, com clareza e ameaça.
"Aqui é o Comando da Frota do Ártico do Reich. Sua embarcação violou águas territoriais dinamarquesas e atacou um navio civil. Vocês são considerados combatentes ilegais."
O sangue de Harper transformou-se em gelo.
"Vocês têm sessenta segundos para se render. Não receberão um segundo aviso."
Naquele silêncio, alguém soluçou.
E então, ao longe, uma periscópio emergiu.
U-121 apareceu na superfície.
Mas nem essa era a coisa mais assustadora.
A coisa mais aterrorizante era a percepção que se tinha de cada homem:
Isso não era uma troca de tiros.
Era uma armadilha.
E eles haviam acabado de acionar uma guerra.