Re: Blood and Iron

Capítulo 652

Re: Blood and Iron

O som de tiros ecoou pelos terrenos do palácio tirolês.

Tiros automáticos, rajadas precisas e controladas.

Algo que nenhuma outra propriedade nobiliárquica esperaria ouvir numa noite de terça-feira tranquila. Mas aqui, era rotina.

Bruno, que viveu toda a sua vida como soldado, nunca deixou sua determinação enfraquecer.

Ele treinava constantemente, em armas de fogo, explosivos, medicina de campo, táticas de pequenas unidades, até mesmo simulações de guerra.

Mantinha suas artes marciais em dia. Ainda treinava. Ainda praticava com a lâmina.

Depois de como sua última vida terminou, ele nunca mais permitiu complacência. Não de novo.

Hoje em dia, ele estava sempre armado.

Mesmo debaixo de trajes sociais e uniformes, usava colete antibalístico, proteção de 360 graus para o torso.

Elegante, ajustado ao corpo. Tecnologia de ponta, uma mistura de fibras de aramida e compósitos cerâmicos, uma inovação retirada de fragmentos de memória, lições de um mundo que já se foi.

A armadura desaparecia debaixo de seu uniforme de combate. O novo BDU com corte moderno. Camuflagem blumentarn, que tinha substituído o antigo padrão de espelhos entre a maioria dos soldados alemães.

Bruno ajustou sua postura, mirou e acertou várias cápsulas de 8mm kurz no peito do alvo com precisão.

Depois, pressionou o botão de recuperação. A silhueta deu meia-volta em direção a ele, revelando colocação precisa de tiro na região central do corpo. Ele sorriu de lado.

Com mãos treinadas, ejetou o carregador vazio, puxou várias vezes a empunhadura para verificar possíveis malfuncionamentos e inspecionou o carregador da arma.

Estava limpa.

Colocou a arma na mesa, removeu os protetores de ouvido e óculos de proteção, e respirou fundo.

Perto dele, estava seu neto, Erich, de braços cruzados, expressão ligeiramente desdenhosa.

"Sorte de iniciante…"

Bruno riu, jogando o alvo de papel para ele.

"Quer dizer? Claro que as coisas mudaram. Os móveis, o gatilho, a ergonomia… mas a alma desta espingarda é a mesma que ajudei a desenhar há décadas."

Ele parou, olhando em direção às distantes montanhas dos Alpes.

"Putz... antes mesmo de ser oficialmente adotada, eu carregava o protótipo. Você tinha que ver a cara daqueles franceses…"

Ele parou.

Algo mudou atrás dos olhos dele. Uma lembrança se encaixou.

Marie-Adélaïde.

Ele não pensava nela há anos.

Ela veio buscando segurança enquanto a França se desintegrava em guerra civil.

O Kaiser ofereceu isso e, ao fazê-lo, anexou um território que já fora parte da Alemanha.

Bruno foi a lâmina que fez isso acontecer.

Ela lhe entregou o coração. E ele o quebrou.

O destino dela continuava como uma dor silenciosa. A história oficial era limpa: Bruno, o libertador, salvador de Luxemburgo. A verdade… só alguns sabiam.

Erich percebeu a mudança. Aquilo no olhar. Já tinha visto isso outras vezes refletido no próprio espelho.

"Senhor… tem algo mais aí, não é? Você perdeu alguém durante o cerco?"

Bruno se virou para ele, meio sorrindo, meio amargurado.

"Perdi. Mas não do jeito que você pensa. Você não entenderia."

Ele suspirou, afastando o pensamento com um movimento da mão, o olhar perdendo-se no horizonte ao noroeste.

"Agora, carregue essa maldita espingarda. Restam duas horas até o pôr do sol e você ainda precisa passar no teste de três armas, Oberstleutnant."

Erich endireitou-se e fez a saudação.

"Jawohl."

Pegou a espingarda, encaixou um carregador novo com força e começou a disparar. Primeiro em modo semi-auto, tiros controlados em pares. Depois, rajadas curtas em modo total.

Depois do primeiro carregador, ele suspirou, reloading enquanto murmurava.

"Vai fazer eu fazer tudo isso mesmo, hein?"

Bruno sorriu de lado, dando-lhe uma palmada nas costas com força suficiente para desequilibrar sua postura.

"Você merece, garotão. Você é um soldado do Reich, meu neto. E isso significa que deve estar à altura do mais alto padrão. Um dia, isso vai salvar sua vida. Então, vai lá e atira. Errar um só tiro e vou te arrastar pra cova esta noite."

Erich não discutiu. Respirou fundo, concentrando-se. Agora cada disparo atingia o centro do alvo ou a cabeça.

Bruno pode estar envelhecendo, mas ainda era temível o suficiente para que Erich não quisese descobrir quão forte o velho ainda podia bater.

Quando terminaram, Erich havia passado em todas as qualificações necessárias para manter seu status de oficial aerotransportado.

Naquela noite, a equipe da cozinha preparou uma refeição gigante. Sua esposa, mãe e avó ajudaram na cozinha.

A sala de jantar vibrava com conversas suaves, o tilintar de utensílios e o calor das velas refletindo na madeira polida e no prata.

A mesa longa estava cheia de pratos com caça assada, legumes da estação e pão fresco assado pela equipe naquela manhã.

As crianças riam no canto mais distante, seus netos mais novos desafiando uns aos outros a provar o raiz-forte, enquanto os mais velhos conversavam baixinho sobre escola, treinamentos, o mundo além do Tirol.

Bruno estava sentado à cabeceira da mesa, com um prato modesto, o apetite diminuído não pela idade, mas pelos pensamentos.

Heidi sentada à sua direita, elegante, cortando uma fatia de carne para a neta com a mesma graça silenciosa que sempre teve.

Seus filhos e netos preenchiam o ambiente como galhos de uma árvore que cresceu forte, contra todas as probabilidades.

A conversa passava por ele como ondas, vozes familiares falando de torneios de esgrima, redações escolares e o ombro dolorido de Erich pelos treinos.

Bruno sorriu levemente, oferecendo alguma brincadeira ou aceno ocasional, mas seus pensamentos se perdiam.

Para um palácio muito menor do que este.

Para uma mulher de pele quase alva e olhos carregados de tristeza.

Marie-Adélaïde.

Ele não pensava nela há anos, mas algo no ar de pólvora do campo de tiro, ou talvez na pergunta de Erich, trouxe isso à tona.

Ele se questionou, não pela primeira vez, se ela havia encontrado paz nesta linha do tempo.

Se seu fim fora mais suave. Se, talvez, ela tivesse se casado com alguém que viu seu coração, e não apenas sua coroa.

Ou se, como muitos fantasmas daquela era cruel, seu destino fora selado no instante em que o Reich bateu à porta.

Ele afastou esse pensamento, forçando um sorriso enquanto uma das crianças gritava seu nome.

"Vovô! Você não está comendo!"

Bruno riu, pegando o garfo.

"Só estou pensativo, minha criança. Nada para se preocupar."

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