Re: Blood and Iron

Capítulo 651

Re: Blood and Iron

A guerra ainda não havia começado.

Não oficialmente. Nem oficialmente. Nem no papel.

Mas para quem tivesse um mínimo de visão estratégica, parecia que já tinha começado.

Em Wellington, uma leve garoa insistia nas janelas da residência do Primeiro-Ministro, riscando o vidro como lágrimas em porcelana.

O céu estava cinzento, não tempestuoso, apenas carregado. Apressado. Observando.

Como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração.

O Primeiro-Ministro Walter Nash serviu seu segundo copo de whisky.

O homem sentado à sua frente, Joseph Lyons, aceitou o primeiro sem resistência, embora ainda não tivesse bebido.

O Primeiro-Ministro australiano não era um homem facilmente abalado.

Nem por brigas internas, nem por protestos sindicais, nem pelo atrito interminável entre Canberra e Londres.

Mas hoje… hoje ele parecia distraído.

Nash quebrou o silêncio finalmente.

"O Canadá deu um passo," disse ele.

Lyons assentiu uma vez. "Li a mensagem antes de embarcar. Voto da maioria. Sem compromisso formal com o conflito, mas agora estão de braços dados com Roosevelt."

"De forma discreta no começo," murmurou Nash. "Depois, mais alto. É assim que essas coisas acontecem."

O fogo crepitava atrás deles, numa lareira antiga de uma casa do governo construída na época em que o Império ainda ditava a arquitetura colonial de mármore e tijolo.

Nessa vida, as forças do ANZAC (1) tinham sido praticamente enviadas como reforço para a máquina de moer carne de Ypres.

Gallipoli não aconteceu... Não nesta vida, pois os otomanos lutaram ao lado dos britânicos, consequência da interferência de Bruno na linha do tempo.

Por causa disso, o nome ANZAC não carregava glória. Apenas perdas.

Os jovens da Austrália e Nova Zelândia eram lembrados como pouco mais do que carne de canhão, consumidos pelo Front Ocidental.

Ambos estavam totalmente conscientes da natureza brutal da guerra.

Seja pelo impacto direto de participar da carnificina, ou por terem sido destruídos pelas suas consequências.

Lyons falou primeiro.

"Você acha que eles têm coragem de fazer de novo?"

"O Canadá?" Nash levantou uma sobrancelha. "Difícil dizer. Mas os EUA sim. Ou pelo menos Roosevelt. Dá pra ouvir nos discursos dele, ele quer essa guerra. Quer sua chance de consertar a última. E o Canadá é a primeira pedra no caminho."

Lyons finalmente levantou o copo, segurando-o perto do rosto, sem beber.

"O Império está rachado," disse seco. "Não sumiu, mas está cansado. A Grã-Bretanha não pode mais forçar nossa mão como antes. E eles já sabem disso."

"Mas isso não os impedirá de tentar," respondeu Nash.

Um longo silêncio se instaurou entre eles.

O whisky permaneceu intocado.

"Eles virão até nós depois," disse Lyons.

"Já vieram," admitiu Nash.

Ele foi olhar com atenção.

O Primeiro-Ministro da Nova Zelândia colocou o copo numa mesinha lateral e entregou um dossiê leve. Não militar, diplomático.

"Chegou semana passada. Não de Londres, mas de Paris. Por um intermediário canadense. Querem começar conversas exploratórias. Só por precaução."

Lyons não abriu, não precisou.

"Esperam que o Reich ataque?"

"Oficialmente, sim…” Nash respondeu. “O problema é que ambos sabemos que, se alguém for disparar primeiro, serão os malditos franceses. De Gaulle, Roosevelt, MacDonald… barões da guerra, esses sim!"

Lyons sussurrou baixinho, em tom cauteloso, quase temeroso de que as próprias paredes pudessem entregá-los.

"Cuidado… palavras assim podem ser consideradas traição."

Porém, Nash já não se importava em ser cordial.

Ele bufou, virou os olhos e sua voz tinha uma pitada de ceticismo misturado com cansaço.

"Se dizer a verdade virou traição, que Deus tenha misericórdia de todos nós."

Ele se inclinou para frente, apoiando as mãos entre os joelhos.

Seu tom ficou mais baixo, mais sério.

"Dessa vez, Joe, não é como antes. Os alemães aproveitaram o tempo da vitória para fortalecer alianças. Áustria-Hungria caiu, e em seu lugar, os Habsburgos se curvaram, enquanto os húngaros forjaram seu próprio império com sangue e ferro."

Lyons ficou em silêncio estranho enquanto Nash prosseguia.

"A Rússia fica quieta… mas, se a inteligência não falha, sua força militar só fica atrás do Reich. Eles vêm se preparando, treinando. Exercitando-se na neve da Sibéria, nas florestas da Carelia. Se a guerra estourar entre Alemanha e França, verá milhões atravessando os Ardennes, com aço suficiente pra cobrir toda a Europa. E os Aliados? E então?"

Ele balançou a cabeça, quase rindo de amargura.

"Os americanos convenceram o Canadá a assinar sua própria sentença de morte. E agora, estamos aqui, nas últimas regiões de calma do mundo."

Lyons finalmente abriu o arquivo.

Uma única página.

Sem exigências.

Sem ultimatos.

Apenas… perguntas. Propostas. possibilidades.

"Parece que ninguém mais faz questão de fingir que vai diminuir a escalada," murmurou. "O que aconteceu com a diplomacia?"

Nash deu um sorriso sem humor. "Afogou-se entre o Atlântico e o Pacífico."

Outra pausa.

"Vão nos obrigar a escolher," disse Lyons suavemente. "Como da última vez."

"E se não fizeremos?"

"Vão nos chamar de covardes."

Nash balançou a cabeça. "Não. Vão nos chamar de irrelevantes."

Aquela palavra pesou no ar muito mais do que qualquer insulto.

Por um tempo, nenhum dos dois falou.

Uma árvore na lareira estalou ao ser movida.

Eventualmente, Nash levantou-se e atravessou a sala até um bufê.

Serviu um copo de água, dessa vez, e contemplou o porto ao longe, escondido em névoa e garoa.

"Você viu o estado de Singapura," disse.

"Os britânicos injetam ouro lá como se fosse o suficiente para segurar a linha por conta própria. Mas já não têm mais homens, nem máquinas. Não mais."

"Espalham a esperança de que enviaremos ambos," Murmurou Lyons.

"Esperam que fingamos que ainda é 1914."

Lyons deu uma risada cansada. "Não é."

"Não," concordou Nash. "Não é."

Aquela vez, o silêncio foi mais pesado.

Mais definitivo.

Ninguém precisou dizer o que ambos já sabiam.

Se a guerra vier, quando vier, Austrália e Nova Zelândia não serão mais vassalos.

Nem automaticamente.

A decisão caberá a eles.

E o peso dessa escolha… pode dividir o continente ao meio.

Lyons finalmente se levantou e foi até a janela ao lado de seu adversário.

"A opinião pública não apoia outra guerra," disse claramente. "A menos que uma bala atinja Darwin ou Christchurch. Eles não farão nada por França de novo."

"Não devemos dever nada aos franceses," respondeu Nash. "Mas devemos às nossas crianças um mundo que não esteja em chamas."

Lyons o olhou por um momento, depois assentiu lentamente.

"Então melhor vermos como segurar uma mangueira," disse, "antes que alguém jogue fogo."

Comentários