
Capítulo 650
Re: Blood and Iron
FDR estava sentado no Gabinete do Primeiro-Ministro e Conselho Privado.
Mais precisamente, no escritório do Primeiro-Ministro do Canadá.
Depois de receber a notícia de seus enviados na Europa, que haviam falhado, de forma bastante espetacular, em garantir a neutralidade escandinava como algo além de neutra.
Roosevelt decidiu avançar para o norte.
Não por formalidade, nem para fazer uma demonstração de unidade diplomática.
Não. Essa era a atitude de um homem sem mais opções, buscando na parte de trás do baralho algo que ainda se assemelhasse a uma vantagem.
O Reich tinha consolidado o continente mais firmemente do que o esperado.
Mais firme do que qualquer um tinha avisado.
A França sangrava por dentro, pelos sabotadores internos. Enquanto lutava para acompanhar a superioridade da Alemanha.
Os holandeses haviam optado pela neutralidade superficial, mas já buscavam garantias de proteção do Reich.
Baixos Países, Bélgica incluída, já praticavam exercícios militares conjuntos com as forças armadas alemãs como medida preventiva contra possíveis ataques anglo-franceses.
E agora os nórdicos, impassíveis na sua calma fria de recusar, declararam que não interromperiam o comércio com o Reich, independentemente de haver guerra ou não.
O que sobrou?
Rússia? Ligada à Alemanha por sangue, fé e pátria.
Itália? Mais ou menos a mesma coisa?
Hungria? Embora o rei deles pudesse ter algumas queixas contra Bruno, estava disposto a apostar todas as fichas na Alemanha e seus aliados. Era um homem de pragmatismo, mais do que de vingança.
Restavam apenas nações fora do alcance da grandeza europeia.
Américas, Pacífico Sul e talvez algumas nações africanas, que pareciam menos favoráveis aos alemães do que aparentavam à superfície.
Ali, uma dominion com uma população de pouco mais de dez milhões se tornava a esperança mais promissora entre as opções atuais dos Aliados.
Um vizinho dos americanos, cujo exército era mais conhecido por seus casacos de inverno e folhas de bordo do que por alguma força aérea moderna e confiável.
Canadá.
Mas quem é que pode escolher?
E Franklin Delano Roosevelt não era tolo. Sabia que até uma declaração simbólica poderia mobilizar o que restava da Commonwealth, ou ao menos preservar a fachada diante dos eleitores americanos.
Se a situação chegasse a esse ponto.
Ele observou de frente para William Lyon Mackenzie King, que acabara de ouvir, com certa stoicidade, a proposta de seu visitante americano.
As mãos de King estavam cuidadosamente cruzadas sobre a mesa polida.
A expressão do homem era indecifrável, nem muito polida, nem fria demais. Apenas… ponderada. Reservada.
Um longo silêncio se estabeleceu entre eles, aquele tipo de silêncio que faz homens mais fracos preencherem o ambiente com resmungos nervosos.
Porém, FDR permaneceu quieto. Também sem piscar.
Finalmente, King deu uma leve recostada e quebrou o silêncio.
"Você veio longe, Franklin."
Roosevelt acenou com a cabeça. "Não tanto quanto a tempestade que se aproxima."
King fez um leve gesto de reconhecimento, mas seus olhos continuaram fixos, suas palavras cuidadosas.
"Você fala de guerra como se ela já tivesse começado."
"Ela começou," respondeu Roosevelt com voz baixa. "Só ainda não com balas."
"E você acha que o Canadá vai marchar ao seu ritmo?"
A questão não tinha hostilidade, mas também não tinha calor.
Roosevelt sorriu de leve, embora o sorriso não chegasse aos olhos. "Não penso em nada. É por isso que estou aqui. Para perguntar. De frente."
King olhou para suas anotações, a maior parte vazia, e depois colocou as mãos de novo sobre a mesa, planas.
"Vocês estão pedindo demais," disse. "E o que oferecem…?"
"Sobrevivência. Relevância." A voz de FDR ficou firme agora.
"O Reich venceu os últimos dez anos sem disparar um tiro. Eles sufocaram a Europa com comércio e tratados. Agora estão prontos para fazer o mesmo com tanques. Se esperarmos até a primeira cidade cair, já será tarde demais. O que estou oferecendo é um lugar na mesa antes que isso aconteça."
Os lábios de King se cerraram, não por ofensa, mas por consideração.
"Você fala em inevitabilidade, senhor presidente. Mas o que você pede é que escolhamos lados antes que o mundo declare guerra."
Os olhos de Roosevelt se estreitaram. "Você acha que Berlim não já escolheu? Que seus exércitos não estão já posicionados na fronteira, esperando a ordem?"
"Nós acho," afirmou King com ênfase deliberada, "que o Canadá não tem interesse em ser o primeiro a passar pelo paredão de trincheiras."
Roosevelt fez uma pausa, deixando essa afirmação ecoar.
"Não vim pedir que envie um milhão de homens para morrerem, William," disse. "Só para ficar do nosso lado. Para se declarar Aliado antes que as portas da guerra se abram. Seu Parlamento vai apoiá-lo. A Coroa não será contra você. A opinião pública? Ainda acredita em resistir à tirania, como em 14."
A mandíbula de King se tensionou ao ouvir a menção à Grande Guerra.
Por um momento, seus olhos se desviaram, quase imperceptivelmente, para a foto na estante ao lado da mesa.
Seu próprio pai, veterano do Parlamento.
Um homem cujos ideais não resistiram às lama e sangue de Ypres.
Nesta vida, franceses e britânicos foram profundamente envergonhados por sua derrota na Grande Guerra.
Os canadenses testemunharam os fracassos das Potências Aliadas.
Assim como a hesitação dos americanos em entrar na guerra na época.
Sob o presidente Hughes, os EUA ficaram completamente de fora do conflito.
E, embora Woodrow Wilson tenha feito campanha prometendo entrar na guerra em favor dos Aliados, Paris caiu antes mesmo do resultado das eleições nos EUA que decidiriam seu papel na guerra.
Canada nunca esqueceu isso, nem King. Daí sua desconfiança.
"Aquela foto na sua estante," disse em voz baixa. "Aposto que ela te contou muitas coisas. Sobre lealdade. Sacrifício. Traição."
O rosto de King permaneceu impassível, mas o clima na sala mudou.
Roosevelt prosseguiu.
"E eu sei o que está por trás do seu silêncio. Você acha que estamos atrasados de novo. Que vamos deixar vocês sangrarem por uma guerra que só apareceremos para enfrentar depois que a fumaça se dissipar. Como Hughes fez. Como Wilson tentou. Você acha que vamos continuar brincando de ser o rei aqui do outro lado do oceano."
King não negou.
"Não te culpo," Roosevelt disse com simplicidade.
"Falhamos com vocês uma vez. Todos vocês. França sangrou. a Grã-Bretanha quebrou. E seus meninos, seus meninos ficaram para morrer nas trincheiras por uma aliança que se desfez como papel molhado. Você não acha que sei dessa história? Meus assessores me alertaram antes mesmo de pisar no solo de vocês. Disseram: 'Os canadenses lembram. E não esquecem.'"
King olhou para cima, sua voz baixa e firme.
"E eles tinham razão."
Roosevelt assenti solenemente.
"Sim, tinham. Mas isto não é 1914. E eu não sou Hughes. Estou aqui porque sei quem vem. Porque já vi os relatórios. Porque os homens que destruíram o Império Japonês sem pestanejar estão se movendo para o oeste. E se você acha que eles vão parar nos Ardennes, está sonhando."
Ele deixou a frase pairs no ar por um momento.
"Vim para o norte não para implorar, mas para avisar vocês. Se não escolherem um lado agora, o lado será escolhido por vocês mais tarde. Não com parlamentos e discursos, mas com tanques. Com botas. Com tratados assinados na ponta de uma arma."
King estreitou um pouco os olhos, com as mãos entrelaçadas.
"E se eu escolher seu lado, Franklin? Que garantia eu tenho de que vocês não vão dar meia-volta novamente quando o preço ficar muito alto? Que vocês não vão deixar outra geração de canadenses morrer na Europa enquanto Washington delibera sobre sanções e discursos?"
"Você tem a minha palavra," respondeu Roosevelt de forma simples.
"Não estou interessado em homens," afirmou King com frieza. "Interesso-me por resultados."
Roosevelt não deixou-se abalar.
"Então terão resultados. Apoio militar. Acesso aos comboios do Atlântico. Inteligência compartilhada. Se ficarem conosco, vou garantir que sejam tratados não como uma colônia de um Império moribundo, mas como um parceiro soberano. Posso falar com seu Parlamento pessoalmente, se desejar. Mas preciso do compromisso de vocês. Agora. Antes que Berlim complete seu cerco ao tabuleiro de xadrez."
King demorou a falar. Seus olhos se perderam na janela gelada atrás de Roosevelt, enquanto a neve caía lentamente sobre os telhados de Ottawa.
"Eu assisti esse conflito terminar,"
disse King, quase para si mesmo.
"Vi o Império em que cresci se desmoronar. Vi os alemães desfilar por Paris como conquistadores romanos. A única coisa que os impediu de marchar até Whitehall foi o rei George solicitar a paz e abandonar os franceses para salvar sua própria pele. Você está me pedindo para arriscar tudo isso de novo. Não só pelo Canadá, mas por tudo que podemos nos tornar."
Roosevelt não respondeu. Ele não precisava.
Os olhos de King voltaram para ele agora, afiados, cautelosos, mas não frios.
"Vou levar ao Parlamento. Mas você precisa entender que o Canadá não é mais a mesma nação de vinte anos atrás. Não lutamos mais por alianças de homens velhos. Se formos lutar, será nos nossos termos, e somente por causas que valham uma boa luta."
Roosevelt acenou com a cabeça. "Então me dê a chance de fazer isso valer a pena."
King o estudou por um longo momento, até finalmente se levantar da cadeira.
"Prepararei o voto. Mas, Franklin, se a sua América vacilar, não enviarei nossos filhos para morrer por outra promessa vazia. Se formos à guerra, acabaremos com ela. E não recuaremos."
Roosevelt também se levantou, estendendo a mão. "Então vamos garantir que não percamos esta."
As mãos dos dois se encontraram no centro da sala. Sem câmeras. Sem cerimônia. Apenas a quieta gravidade de dois homens concordando em ficar à beira do abismo, e pular.