
Capítulo 649
Re: Blood and Iron
O ar matinado estava fresco e com geada quando a delegação aliada desembarcou no aeroporto de Kastrup, em Copenhague.
Uma comitiva de Guardas Reais dinamarqueses aguardava em silêncio estoico. Sem banda. Sem desfile. Apenas uma cerimônia enxuta, eficiente. Polida. Minimalista. Impassível.
À frente da delegação, estava o Embaixador Charles Montgomery-Hughes, do Reino Unido, ladeado por seu colega americano, o Enviado Especial Harold Wexler, e pelo Contra-Almirante Jean-Luc Chareau, da Marinha Francesa.
Logo atrás, assessores cochichavam sobre pastas de informes enquanto entravam na carruagem que os aguardava.
"Tá frio demais pra uma recepção real,"murmurou Wexler.
"É a Dinamarca," respondeu Chareau com um ênfase de quem não liga pra drama. "Nunca foram muito de teatrinho."
"Precisarão de mais do que polidez se quiserem manter suas portas abertas quando tudo isso começar," disse baixo Montgomery-Hughes.
A câmara do conselho real tinha sido reorganizada para uma mesa redonda. Sem longas mesas diplomáticas, sem uma hierarquia clara. Uma mensagem silenciosa na própria disposição.
O Rei Christian X entrou com passo deliberado, ao seu lado o Príncipe Herdeiro Frederico, e os Ministros das Relações Exteriores da Noruega e Suécia já estavam sentados.
O enviado da Finlândia chegou por último, intencionalmente atrasado, mas sem faltar respeito.
Montgomery-Hughes foi o primeiro a falar.
"Vossas Majestades, Senhores Ministros… peço desculpas pela nossa urgência, mas as circunstâncias exigem clareza. Os ventos sobre o Canal mudaram. Se o Reich avançar para o oeste, precisamos saber onde fica o Norte."
A expressão de Christian não mudou. As mãos de Frederico estavam cuidadosamente cruzadas no colo.
"A Grã-Bretanha sempre prezou nossa neutralidade," disse o Rei de forma equilibrada. "Certamente vocês compreendem seu valor até hoje."
Wexler inclinou-se para frente. "Neutralidade tem seu lugar. Mas quando a tirania bater à porta, o silêncio se torna cumplicidade. Os Estados Unidos não pedem armas, apenas garantias."
"Vocês pedem sabotagem econômica," respondeu friamente o enviado finlandês. "Embargos que arrastarão nossas economias marítimas para uma guerra antes de um tiro ser disparado."
"Certamente vocês percebem no que a Alemanha está se tornando," acrescentou Chareau, quase implorando. "Eles irão puxar o mundo de novo para o fogo."
O Ministro de Relações Exteriores da Suécia levantou uma sobrancelha. "Fraude fogo agora? Essa é nova."
Uma quietude caiu na mesa. Frederico quebrou o silêncio.
"A Dinamarca não romperá seus tratados atuais. Não cortaremos o comércio com Berlim. Nem com Washington. Nem com Londres. Não somos ferramentas para serem apontadas. Nossos portos permanecem abertos."
"Mesmo que a Alemanha invada a Bélgica?" interrompeu Montgomery-Hughes.
Frederico não piscou. Na verdade, seus lábios se curvaram numa zombaria cruel enquanto bebia um gole de chá.
"É engraçado vocês tocarem nesse ponto, se a memória não me trai, foi a França quem invadiu a Bélgica em 1914, e os alemães quem vieram em defesa deles. É assim que Paris decidiu framing os recentes exercícios militares conjuntos na Flandres?"
Wexler recostou-se, processando visivelmente a repercussão daquelas palavras.
"Vocês falam como se o Reich já tivesse comprado vocês," acusou Chareau.
"Não," respondeu Christian com uma calma definitiva. "Mas eles nos trataram como iguais."
Outra pausa pesada.
Montgomery-Hughes estreitou os olhos. "Então vocês estão se unindo. Os nórdicos. Como um bloco."
"Estamos reafirmando um princípio," respondeu o ministro sueco. "A paz não é passiva. Às vezes, ela é garantida por clareza."
"E se a guerra vier à sua porta?"
Frederico levantou-se. "Então defenderemos nossa porta. Mas não pegaremos seus rifles para lutar contra seus fantasmas."
Olhou direto para Wexler.
"E podem dizer a Washington: navios de carga americanos continuarão atracando aqui. Assim como os alemães. E qualquer um que venha em paz."
"E se impusermos sanções?"
"Então vocês perderão o acesso à última zona de transporte estável no norte da Europa. E seus inimigos não."
Do lado de fora, enquanto os enviados partiam em um silêncio tenso, a geada começava a derreter sob o pálido sol dinamarquês. Ainda fazia frio. Mas não cortava mais tanto.
Wexler acendeu um cigarro com dedos trêmulos.
"Eles fizeram sua escolha."
Montgomery-Hughes ajustou as luvas.
"Não. Eles fizeram questão de deixar claro que não temos boas opções."
O silêncio no terraço tinha dentes.
Wexler, sempre otimista, levantou a mão. "Nem tudo está perdido," disse com cuidado. "Pelos oceanos Pacífico e Atlântico, ainda podemos encontrar armas para nossa causa."
Chareau debochou. "E o quê? Contrabandear essas armas pelos portos noruegueses? Esperar que o Sião não reclame como os demais?"
"Eles não recuaram," retrucou Wexler. "Tailândia está apenas cautelosa. Estratégica. Está se modernizando rápido. Ainda há uma janela, pequena, talvez, mas aberta."
Montgomery-Hughes recostou-se na cadeira.
"Você acha que Banguecoque escolherá Washington ao invés de Berlim? Quando as linhas férreas do Kaiser já estão sendo mapeadas de Hanói a Rangoon?"
"É mais complicado do que parece," respondeu Wexler. "As Filipinas estão à beira da independência. Estão inquietas. a Indonésia está pronta para acender fogo se dermos as garantias certas. Até a Austrália e a Nova Zelândia começam a questionar a sabedoria da neutralidade. Há descontentamento crescente. Basta tocá-lo."
Os olhos de Chareau estreitaram. "Tocá-lo? Como você tocou o México na última guerra? Quanto tempo durou aquela guerra? Não foram os alemães quem resolveram tudo para vocês no final?"
Wexler contraiu o maxilar. "Isso é diferente…."
O embaixador britânico colocou seu copo com um som deliberado. "Esse que é o ponto, Harold. Não estamos mais lidando com uma Europa fragmentada. Estamos lidando com algo… completo. Algo planejado."
Aquietou-se novamente.
Quem quebrou o silêncio foi Chareau.
"Mesmo que desencadeemos rebeliões nas Índias, ou mobilizemos os ANZACs, leva tempo. Navios. Tropas. E Berlim não vai esperar. Estão fechando rotas comerciais mais rápido do que podemos redigir contre-propostas."
Wexler assentiu tristemente. "Ainda assim, não está tudo perdido."
"Não está tudo perdido," repetiu Montgomery-Hughes, com a voz baixa. "Mas estamos ficando sem opções."
A lareira crepitava. Lá fora, um sino tocou onze horas.
"O Tsar ainda está vivo," ofereceu Wexler de forma fraca. "Alexei é jovem, mas é um ator racional."
"Racional o bastante para lembrar quem salvou sua coroa," respondeu Chareau. "O Reich colocou no trono. Pagou pela coroação dele. Construiu seus trilhos, rearmou sua marinha, casou seus primos."
"Ele não é bobo," disse Wexler. "Sabe que se envolver com a Alemanha, vira vassalo."
"Os acordos tecnológicos em que estão envolvidos dizem o contrário… Alexei não é tolo, não ganha nada mudando de lado. É casado com uma Leoa do Tirol, pelo amor de Deus," murmurou Chareau.
Montgomery-Hughes levantou lentamente, pegando o casaco. "Precisamos mudar de estratégia. África. América do Sul. Oceania. Onde o Reich ainda não colocou sua bandeira ou comprou o silêncio dos reis."
"E a Dinamarca?" perguntou Wexler, mais suave agora. "Perdemos eles hoje."
O embaixador britânico olhou para as janelas, onde lanternas distantes ainda piscavam no pátio do palácio.
"Nós não os perdemos. Eles nunca foram nossos. Nós é que fomos cegos demais para perceber."
Ele parou na porta, ajustando a bufanda.
"Enviem mensagem para Ottawa. Para Canberra. Para Deli, se alguém ainda escuta. O mundo pode estar diminuindo… mas só precisamos de uma brecha. Uma fresta. Uma razão para Berlim se esticar demais."
Chareau entrou junto. "E se eles não fizerem?"
Montgomery-Hughes não se virou. "Então sangramos. E rezamos para que os americanos sejam o bastante para nos ajudar nesta hora."
Eles partiram, com os casacos puxados ao máximo, os passos ecoando no mármore. Wexler ficou um momento a mais, os olhos na lareira tremeluzente, antes de pegar um caderno de anotações do bolso e escrever seus pensamentos.
O sussurro suave da chuva nas janelas do palácio era o único som que acompanhava o tilintar da lareira.
Sophie von Hohenberg sentou-se perto da lareira, penteando silenciosamente seus longos cabelos.
A luz revelou o suave contorno de seu rosto e o brilho prateado dos grampos de cabelo.
No terraço, silhuetada contra o céu escuro, Josef von Zehntner inclinou-se para a frente, com as mãos na grade, a testa franzida.
"Você também ouviu," disse Sophie, sem olhar para cima.
Josef não respondeu imediatamente.
"Vozes no corredor. Botas, não chinelos," acrescentou, deixando a escova. "Christian está chegando."
De fato, poucos momentos depois, um toque discreto na porta veio.
Josef recuou para dentro do cômodo, acenando para os guardas que deixassem o convidado entrar.
O Rei Christian X da Dinamarca, alto mesmo sem o uniforme cerimonial, entrou com uma expressão preocupada e sem retidão de entourage.
"Desculpem-me," disse o rei baixinho, olhando para Sophie. "Pelo horário."
"Você é sempre bem-vindo," respondeu Sophie, levantando-se. "Mas desconfio que não seja uma visita social."
O rei deu um aceno cansado. Seus olhos se voltaram para Josef.
"Receberam a notícia mal."
Josef virou para servir dois cálices de vinho, oferecendo um silenciosamente ao monarca.
"Qual deles?"
"Todos," respondeu Christian. "O britânico foi o primeiro a falar, o americano fingiu surpresa, e o francês parecia pronto para sair na hora. Mas ninguém elevou a voz. E é isso que me preocupa."
"Era o que esperavam," respondeu Josef. "Só esperavam que você piscasse."
"Eu não piscava."
"Muito bem."
Christian bebeu um gole, segurando o copo entre os dedos. "Montgomery-Hughes disse algo ameaçador. Chamou nossa posição… de míope."
"Isso parece o jeito de dizer 'vamos lembrar disso', do Reino Unido."
"Exatamente," disse o rei. "Temo que não aceitem a neutralidade como resposta."
Josef o encarou firmemente. "Então que testem essa resposta."
Avançou com tom calmo, mas firme.
"Como eu disse ontem à noite, e repito agora: se os Aliados tentarem cruzar o Norte, armar o Báltico, prender o comércio, explorar sua soberania, o aço alemão os enfrentará. E a força russa irá contorná-los."
Christian parecia desconfiado. "Mas chegarão a tempo?"
"Já estão aqui, em espírito. Uma chamada wireless de Copenhagen, e os regimentos estarão em movimento até o amanhecer. Vocês não estão sozinhos."
O rei suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos e curtos. "Seu pai sempre foi um homem de certezas. Você fala muito parecido com ele."
Josef sorriu de leve. "Ele me ensinou a falar só quando a decisão já estivesse tomada."
Naquele instante, Sophie levantou-se e colocou uma mão suave no braço do marido.
"E ele não faz ameaças vazias. Assim como as legiões que o apoiam."
Christian virou-se em direção à lareira. "Nunca imaginei que veria o dia em que a paz da Dinamarca repousaria sobre promessas prussianas e a determinação Romanov."
"E no entanto, aqui estamos," disse Josef calmamente. "O mundo virou de cabeça para baixo."
Ficaram em silêncio por um momento, a luz da lareira projetando três sombras no chão de parquete.
Por fim, o rei colocou o copo na mesa. "Vou informar o Conselho. Não vamos ceder."
"Boa," disse Josef. "É tudo o que Berlim precisa ouvir."
"E Moscou?" perguntou Christian ao sair, na porta.
Resposta de Josef veio sem hesitar.
"Estão de perto de olho. Sabem que o inverno começa no Norte. Se a guerra chegar, não poupará fiordes ou ilhas. E eles não esperarão ela chegar às fronteiras."
Christian assentiu mais uma vez e saiu, os passos sumindo no corredor de mármore ao lado.
Ao fechar a porta, Sophie respirou fundo. "Ele tem razão para estar nervoso."
"Eu também," murmurou Josef, enchendo outro copo de vinho.
"Mas você soou tão convencido."
"Estava," respondeu, vivendo lentamente o gole. "Agora, estou só comprometido."
Sophie sorriu de leve. "Assim seu pai falaria."
Josef não respondeu. Caminhou de volta para o terraço, vinho na mão, olhando para a escuridão chuvosa, onde o mar reluzia como aço.