
Capítulo 686
Re: Blood and Iron
A sala de reuniões da Marinha em Whitehall estava cheia do cheiro de medo.
As paredes pareciam suar com a garoa que insistia em se agarrar a Londres naquela manhã; as janelas estavam cinzentas de neblina e vergonha ao mesmo tempo.
Ao redor da longa mesa, os principais almirantes da Grã-Bretanha sentavam-se como homens que saíram de um funeral, evitando os olhos uns dos outros, cada um sabendo que todas as ilusões que tinham sobre a guerra no mar já haviam sido despedaçadas no Canal.
O First Sea Lord clareou a garganta.
O som rouco parecia mais antigo do que sua idade.
"Senhores... perdemos a Frota do Canal."
Ninguém falou. As palavras pairaram como fumaça, pesadas e sufocantes.
Os relatórios estavam sobre as mesas, as listas de baixas chegavam de Portsmouth e Plymouth, cabos descreviam escorts destruídos e sobreviventes dispersos, mas ouvi-las em voz alta era como uma faca atravessando uma antiga cicatriz.
Finalmente, um almirante mais velho, com o rosto marcado pelo sal e pela idade, falou. Sua voz quebrou com algo entre raiva e desespero.
"Eles nos destruíram... completamente. Como se fosse 1914 de novo. A mesma maldita humilhação. Mira superior, doutrina superior, e os malditos aviões deles."
Ele rangeu os dentes. "Passamos vinte anos prometendo que isso nunca mais aconteceria. E agora estamos aqui."
A comparação não era exagero.
Em 1914, os alemães surpreenderam o mundo com artilharia de precisão e o uso audacioso de aviões-torpedo que se infiltraram sob a proteção da Marinha Real.
A Grã-Bretanha tinha convencido a si mesma de que o fantasma tinha sido enterrado na última guerra. Contudo, fantasmas, no entanto, lembram.
Outro almirante bateu na mesa; a madeira tremeu sob sua palma.
"Mira superior? Eles atingiram nossos navios com mísseis de além do alcance! Conseguimos um acerto em um único contratorpedeiro, e isso foi sorte, não habilidade."
Ele enterrou a cabeça nas mãos, o respirar ofegante carregado de vergonha.
"Por vinte anos construímos e reconstruímos, treinamos e re-treinamos, perseguindo o espectro do Reich. Achávamos que havíamos superado eles. Nossos novos porta-aviões, nossos couraçados modernizados, nossa doutrina de comboio e escolta…"
Sua mão cerrada.
"Tudo isso foi destruído em um único dia."
Um secretário digitava freneticamente, caneta riscando o papel com rapidez assustadora.
O silêncio na sala se intensificou até que o almirante Tovey, o mais jovem ali, mas não um novato, falou com a frieza fria do senso de realidade.
"Construímos nossa frota para a última guerra. Os alemães fizeram a deles para a próxima."
As cabeças se voltaram. O First Sea Lord fez um gesto. "Explique."
"Nosso serviço de inteligência nos enganou," disse Tovey.
"Observamos as operações deles no Pacífico: o Mar de Bismarck, bloqueios ao redor de Formosa, patrulhas pelas Índias Orientais. Catalogamos cruzadores pesados, cruzadores leves, esquadrilhas de contratorpedeiros. Concluímos: uma marinha de cruzadores, enxuta e de longo alcance. Dávamos a entender que esse era o futuro do Reich."
Deixou a frase pairar como fragmentos de estilhaços. "Mas e se não estivéssemos assistindo ao futuro? E se estivéssemos vendo o passado?"
O comentário caiu como fogo de morteiro. Um almirante murmurou: "Quer dizer..."
"Sim", respondeu Tovey com frieza.
"Aquele casco que catalogamos no Pacífico talvez fosse uma relíquia que eles ainda não tinham substituído. Confundimos restos com a ponta da lança. Enquanto isso, a verdadeira frota e a doutrina estavam sendo forjadas em casa, escondidas e não testadas até agora."
Um homem mais velho amaldiçoou.
"Então nos preparamos para lutar com uma geração de navios já obsoletos quando eles derrotaram os japoneses em '33?"
O First Sea Lord apagou uma cinza na bandeja e encarou a mesa.
"Somente as aeronaves deles... Meu Deus. Turbopropulsores mais rápidos que qualquer coisa que temos, com radar a bordo e armas guiadas; suas missões de artilharia tinham uma precisão que mal compreendemos. Nossos Hurricanes e Spitfires podem manter o controle do ar sobre Kent, mas no mar, suas aeronaves de ataque destruíram a gente. Nossos porta-aviões não conseguiam se defender. Olhando para trás, não tínhamos chance."
A ironia tinha um gosto amargo.
A Grã-Bretanha zombava dos "superportas-aviões" do Reich como uma vaidade; aqueles leviatãs, remanescentes nucleares cercados por contratorpedeiros de mísseis, submarinos em formato de lágrima e um céu cheio de caças turbopropulsores avançados, tinham transformado o Canal numa zona de caça.
O deboche virou medo.
Um vice-almirante inclinou-se para frente, com a voz rouca.
"Vocês percebem o que isso significa? Cada comboio, cada desembarque, cada tentativa de reforçar a França vai acontecer sob a sombra da aniquilação. Não podemos disputar suas rotas marítimas. Não podemos garantir as nossas. Se isso acontecer, até mesmo o Atlântico pode deixar de ser nosso."
A ideia congelou a sala.
Por séculos, a Marinha Real se orgulhava de ser dona dos mares.
Agora, esse título estava cheirando a ferro e ferrugem.
O almirante Cunningham, que estava em silêncio, falou com resignação dura.
"Em 1914, eles nos humilharam com precisão e inovação; o mundo aprendera que Britannia podia sangrar. Agora, eles fizeram pior: mostraram que Britannia pode se afogar. Não conseguimos construir novos navios rápido o suficiente, se sua base industrial for realmente tão avançada. Não conseguimos treiná-los melhor se eles já reescreveram as regras da guerra naval."
O First Sea Lord esfregou a testa.
"Então, o que fazemos? Abandonamos a França? Deixamos o Canal virar um lago alemão?"
Ninguém quis dizer a verdade: que a França já parecia condenada, e que a Grã-Bretanha talvez enfrentasse uma ameaça direta em breve, se o Reich decidisse virar sua nova marinha para as Ilhas.
Foi novamente Tovey quem rompeu a escuridão com razão.
Sua voz era baixa, dura, cheia de determinação.
"Nós nos adaptamos. Aprendemos. Sobrevivemos. Vai levar anos, mas temos que começar já: armas novas, doutrinas novas, inteligência mais profunda. É hora de os americanos, os Domínios e nossos outros aliados puxarem a orelha. Caso contrário..."
"…esta guerra já está perdida", completou o First Sea Lord, e a mesa tremeu com essa admissão.
Todos concordaram, alguns de forma resignada, outros de forma obstinada, cada um carregando a mesma sombra nos olhos.
Fora, a garoa de Londres pingava contra o vidro como um relógio: não marcava horas, mas mediam a sobrevivência.