Re: Blood and Iron

Capítulo 693

Re: Blood and Iron

O som de tiros agora era diferente.

Calculado. Intencional.

Não mais o frenesi da guerra, nem a cacofonia da resistência, mas a fria inevitabilidade do acerto de contas.

Dezoito horas haviam se passado desde que Berlim emitiu seu último ultimato às Forças Armadas francesas.

Restavam seis.

Fora do Hôtel de Matignon, que estava barricadado, onde De Gaulle e seus aliados leais se entrincheiraram atrás de sacos de areia e aço, os homens da 12ª Divisão de Infantaria Blindada, ou o que sobrara deles, formavam uma fila que já não enfrentava o inimigo.

Enfrentavam seus próprios.

"Capitão, isso é loucura," disse o Tenente Baudin, segurando seu rifle Mas 49 como um homem que segura um símbolo de família prestes a se quebregar.

"Menos de uma semana, foi o tempo que os alemães precisaram para chegar a Paris. E agora, que proveito isso tem?"

O Capitão Marchand não respondeu de imediato.

Simplesmente olhou em direção ao palácio, onde o tricolor ainda pendia, pálido e molhado de chuva, sobre um edifício que logo poderia ser um escombro.

"Ele não vai se render," disse finalmente Marchand. "Todos nós sabemos disso. Ele vai levar toda a cidade com ele."

Um silêncio se instaurou entre eles, que parecia peso de culpa.

Depois, vieram os murmúrios. No começo, baixo. Depois, mais alto.

Militantes. Reservistas. Até oficiais da Gendarmaria, que outrora haviam jurado lealdade eterna à República.

"Chega."

"Já estamos cansados de morrer por ele."

"Isso não é patriotismo. Isso é suicídio."

E, de algum lugar na multidão, alguém gritou:

"Levá-lo vivo."

Espalhou-se como fogo em madeira seca.

Dentro da sala de guerra, os sons de traição cresciam em volume.

Explosões. Armas pequenas. Vozes francesas gritando nomes franceses.

Não alemães.

De Gaulle permanecia na ponta da longa mesa de carvalho, mãos tremendo.

Ao seu redor, os últimos oficiais da Quinta República, aqueles que ainda estavam respirando ou que não haviam desertado de vez, olhavam para ele não com reverência, mas com desespero.

"General..." A voz do Coronel Lafitte falhou. "Eles não são o inimigo. Somos nós. Seus próprios homens."

De Gaulle virou o olhar para as janelas, onde as chamas dançavam além dos muros do pátio.

Sabia que era o fim.

Sabia do jeito que um homem à beira da morte sabe que seu tempo acabou, mesmo sem que lhe digam.

"Talvez," disse em voz baixa, "este seja o preço do princípio."


Outra explosão. Mais perto agora.

Depois, o estrondo de uma barricada desmoronando.

"Ainda dá para se render, senhor," disse o General Reynaud, olhos arregalados, suplicantes.

"Eles não vão executá-lo. Podemos negociar condições. Devemos."

O rosto de De Gaulle torceu-se em uma expressão entre sorriso e careta de dor.

"Negociar? Com eles?"

"Não... se eu me entregar, eles vão me pendurar como um cão. Em frente às câmeras. Para o mundo ver. Eu serei a humilhação final da França."

Ele caminhou lentamente até a ponta oposta da sala, onde seu casaco e a pistola no coldre jazia numa cadeira, intocados desde o amanhecer.

Os gritos nos corredores ficavam mais próximos.

Agora, sapatos, não bombas.

Então, virou-se para enfrentá-los, seus últimos fiéis.

Sua voz, pela última vez, carregava a mesma certeza encardida que uma vez reuniu milhões.

"Senhores... o fato de vocês estarem aqui para me defender até o fim... significa que talvez a França e sua República ressurgirão. Foi a maior honra da minha vida estar ao seu lado."

Ele alcançou o coldre.

Ninguém tentou impedi-lo.

Não houve cerimônia no disparo.

Apenas um clarão.

Um estalo.

E o silêncio.

Quando a porta finalmente se abriu de repente, os soldados encontraram apenas as brasas do sonho que já tinha acabado horas antes.

A República estava morta.

Mas a França... ainda poderia viver.


A bandeira branca foi hasteada ao amanhecer.

Uma faixa caseira, rasgada de uma cortina de hospital, tremulava fraca ao vento matinal, cujo significado era inconfundível.

Até 07h43, o que restava do Exército francês havia deposto as armas.

A ordem foi dada com tons secos, em frequências abertas, sem orgulho e sem protesto.

"Aqui fala o Comandante Leclerc. De Gaulle morreu. Nós nos rendemos. Repito... nos rendemos."

Nenhum indicativo de chamadas.

Nenhuma frase cifrada.

Apenas o último suspiro de uma guerra que já tinha morrido na noite anterior.

Eram colunas, de aço e fuligem.

Do leste, o 3º Exército alemão avançava pelos bairros destruídos como lobos retornando a uma toca há muito abandonada.

Seus tanques E-50 ruíam pelos avenidas ainda manchadas de sangue e ladeadas por APCs queimados.

Do leste, o 2º Regimento de Blindados de Guardas russos avançava com brutal elegância.

Suas próprias versões produzidas localmente do tanque E-50 se moviam em formação, flanqueadas por infantaria, com capacetes brilhando sob o céu cinzento de Paris.

No ar, esquadrilhas de caças turboélice voavam em formação padrão.

Não haveria resistência final.

Nenhuma carga romântica de suicídio.

A guerra tinha acabado.

No Place de la Concorde, os últimos oficiais franceses permaneciam em formação.

Sem fanfarras.

Sem bandeiras.

Apenas uniformes manchados de suor, cinza e vergonha.

O Marechal de Campo alemão Heinrich von Koch desceu do veículo militar blindado.

Ele avançou enquanto o comandante francês Leclerc oferecia sua pistola em silêncio.

Ele pegou, ejetou o carregador, puxou a coronha, travou a trava e entregou ao seu ajudante próximo.

Por trás dele, o General soviético Sokolov se aproximou, retirando as luvas com a expressão de quem desarma uma mina terrestre.

"Que o registro fique: hoje começa a ocupação de Paris, mas a morte da sua República aconteceu ontem," disse, com perfeito francês.

Leclerc não respondeu.

Mas o olhar nos olhos dele dizia tudo: cansado, destruído, aliviado.

Quem sabe agora a ferida parasse de sangrar.

As ruas cheias de soldados, alemães e russos à mesma medida.

Posto por posto, cruzamento por cruzamento, Paris foi dividida com eficiência mecânica.

A Torre Eiffel estava coberta por andaimes temporários, metade de sua estrutura superior queimada pelo fogo.

Notre-Dame permanecia marcada, mas intacta.

Apenas as pessoas, os parisienses que ainda não haviam fugido, permaneciam incertos.

Silenciosos. Observando.

Alguns choraram.

Alguns amaldiçoaram.

Outros simplesmente encararam as bandeiras estrangeiras agora hasteadas onde antes a República reivindicava seu direito de nascimento.

E, acima de tudo, no vento amargo, os corvos circulavam.

Observando. Esperando.

A história escreveria sobre conquista.

Mas aqueles que a viveram se lembrariam do silêncio.

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