
Capítulo 692
Re: Blood and Iron
Paris já tinha sentido medo antes.
Já tremeu sob os canhões prussianos em 1870, já chorou sob as botas alemãs em 1916, e já passou fome atrás de barricadas mais de uma vez na guerra civil que se seguiu.
Mas isto…
Era diferente.
Não havia sirenes. Nem discursos. Nem grandes desfiles de resistência.
Apenas o barulho de passos, milhões deles, marchando para leste, oeste, para qualquer lugar menos aqui.
As estradas que saíam de Paris estavam congestionadas de pessoas.
Carrinhos, bicicletas, carrinhos de bebê, carroças, todos abarrotados de pertences apressadamente empacotados.
Mamães chorando silenciosamente enquanto seguravam seus filhos.
Pais olhando fixamente à frente, com os olhos vidrados, tentando não deixar transparecer o pânico.
Os ricos fugindo de carro, os pobres a pé, e os destroçados se arrastando para frente como zumbis.
Acima deles, o céu estava limpo. Pouco mais que isso.
Essa era a parte que mais assustava as pessoas.
Não havia ataques aéreos. Nem bombardeios. Nem trovões distantes da guerra.
Somente o eco assombroso do ultimato de Bruno von Zehntner tocando nas rádios contrabandeadas e torres de transmissão pirata que os militares ainda não haviam derrubado:
"Vocês têm setenta e duas horas para fugir…"
"Não morram com seu tirano…"
"Este é seu último momento…"
Na Rue de Vaugirard, onde antes os cafés fervilhavam com política e poesia, dois jovens conscritos sentaram-se em caixotes virados do lado fora diante de uma padaria fechada.
Um deles, mal vinte anos, ainda usava o boné de formatura como se tivesse algo a provar.
O outro jogara o dele na sarjeta.
Eles fumavam silenciosamente, observando a saída em massa.
"Ainda acha que o De Gaulle tem um plano?" o primeiro murmurou.
O outro deu de ombros.
"Se tem, que seja mais que palavras. Porque desde que Lyon caiu não vi um único Spitfire, nem um maldito tanque."
O primeiro soldado cuspiu. "Dizem que os alemães estão blefando. Dizem que ninguém ousaria fazer isso."
"E se não for?"
Uma pausa. Depois, mais baixo: "Você viu o que fizeram a Belgrado. a Osaka, a Monróvia?"
Nenhum deles falou por longos minutos.
Até que, do outro lado da rua, um sargento de milícia gritou com um grupo de voluntários que começava a discutir.
"Vocês covardes falando em desertar? Querem fugir como o rebanho?"
Um dos voluntários mais velhos, um carpinteiro dos subúrbios, manteve-se firme.
"Se é pra salvar a pele, sim. Tenho duas filhas. Já estão longe daqui. Por que diabos ainda estou aqui?"
"Porque se todos fugirmos, não sobra mais França!"
Outra voz entrou amarga: "E se ficarmos, tudo o que restará é sal nas cinzas…"
No coração de Montparnasse, um tenente-coronel do exército regular estava à frente do mapa dentro de um posto de comando improvisado.
Ele observava as defesas da cidade, ainda intactas, ainda tecnicamente funcionais.
Seus oficiais sussurravam, com expressões sombrias.
Ele ouvia os rumores como todos os outros.
Metade das unidades nos arrondissements exteriores já tinham abandonado o posto.
Algumas eram vistas indo para o sul, em direção a Vichy.
Outras simplesmente desapareceram, uniformes jogados fora, rifles lançados no Sena.
Ainda pior, o abastecimento tinha parado.
Sem combustível. Sem munição. Sem comida.
Apenas ordens de De Gaulle:
Manter Paris. Custe o que custar.
E, abaixo, uma linha secundária:
Bloquear todas as transmissões estrangeiras.
Já era tarde. O povo já tinha ouvido. Já tinha partido.
Ao anoitecer, as ruas outrora orgulhosas estavam vazias.
Fogueiras ardendo de lojas saqueadas.
Panfletos de De Gaulle haviam sido arrancados, queimados ou cobertos por graffiti: "Bourreau de la France!" — Carrasco da França.
No silêncio, poucos que ainda ficavam se reuniam em apartamentos e vielas, debatendo se seguiam a saída em massa… ou se resistiam.
Alguns falavam de honra.
Outros, de dever.
Mas a maioria… de sobrevivência.
Um padre tocou as últimas badaladas de Saint-Sulpice, não para convocar os fiéis, mas para avisar.
"Três dias, dizia o alemão. Três dias antes de Paris se tornar mito."
Nas profundezas da École Militaire, atrás de portas de concreto e corredores protegidos por sacos de areia, Charles de Gaulle segurava a borda da mesa de operações até os nós dos dedos ficarem brancos.
A sala era escura, as luzes piscavam de tempos em tempos devido ao racionamento de energia.
Do lado de fora, o ar pesado tinha odor de concreto úmido e poeira.
O gerador zumbia como uma sinfonia fúnebre distante, e os rádios estavam silenciados.
Esperando o pior…
Ele tinha convocado todos os oficiais de equipe disponíveis para a sala de guerra.
Apenas nove apareceram.
Nove.
Onde estavam os outros?
O general Fournier, normalmente o primeiro a chegar, tinha "ficado doente." O carro do general Bellec "quebrou." O general Duclerc… ninguém sabia.
Desaparecidos. Todos eles. Como ratos fugindo de um navio afundando.
E os que haviam vindo, os que ainda estavam lá, nem olhavam mais nos seus olhos.
Não mais cumprimentavam como soldados.
Olham como estranhos, assistindo a um homem que lentamente se afoga sob o peso de suas próprias ilusões.
"Vamos resistir em Paris", disse De Gaulle com firmeza, mas a voz vacilou na última sílaba.
Ninguém respondeu.
Um ajudante trouxe uma mensagem. Parecia pálido demais. Demais.
"Abandonaram Saint-Denis, senhor", disse baixinho. "O 12º de Moblização. Não deram explicações. Simplesmente partiram."
"Deserção", sussurrou De Gaulle. "Covardes."
Outra voz: "Levaram também os caminhões de combustível."
Isso deixou o silêncio ainda mais frio.
Depois, um sussurro vindo de trás.
Uma conversa suave, que não era destinada a ele, mas que os ouvidos de De Gaulle estavam agudos como navalhas agora.
"…Dizem que há uma recompensa."
"Um milhão de marks, ouvi dizer."
"Não, ouro. Não papel. Moeda de ouro."
"Morra ou viva?"
As palavras o atingiram como estilhaços.
Recompensa?
Ele se endireitou lentamente, com o rosto pálido, coração acelerado.
"O que você disse?" perguntou com afinco, aproximando-se deles.
Os oficiais ficaram em silêncio.
"Você disse, o que exatamente sobre uma recompensa?"
Sem resposta.
Ele olhou ao redor, de rosto a face. De repente, todos pareciam suspeitos.
Estavam suando? Ficando próximos demais das saídas? Um deles tinha a mão muito perto do seu casaco.
"O que vocês sabem?" De Gaulle gritou, avançando em direção ao coronel Valette.
Valette recuou, surpreso. "Eu não sei nada, senhor. São apenas rumores. Da rua. Propaganda."
Mas a semente já tinha sido plantada na mente de De Gaulle.
"Bruno," ele sussurrou. "Aquele bastardo…"
Claro. O Leão do Tirol. Reichsmarschall Bruno von Zehntner. O homem mais rico da Europa, talvez do mundo.
Uma recompensa? Não lhe custaria nada. Poderia comprar uma cidade e nem notar que o ouro tinha sumido.
Nem precisava consultar o Reichstag. Não precisava de permissão de Berlim. Porque ele mesmo era Berlim.
De Gaulle recuou cambaleante, respirando fundo.
"Eles vêm por mim…" murmurou. "Vão me matar por isso. Meus próprios homens…"
Sua mente deu voltas. Quem mais sabia? Foi anunciado? Quanto? Era só pela cabeça dele ou também pela da família? Alguém já tinha entregado?
Ele já não confiava em ninguém.
Gritou ao seu ajudante: "Quero nova segurança. Triplique a troca de patrulha. Detectores de metal em todos os corredores. Em todos os corredores!"
"Mas, senhor…"
"Cale a boca! Ninguém entra neste bunker sem autorização total! Ninguém!"
Seus homens trocaram olhares novamente, desta vez nem se esforçando para disfarçar.
E ele viu. A expressão.
A expressão de resignação silenciosa.
Eles já estavam pensando nisso. Nele.
E o relógio…
Tictac.
Tak.
Tictac.
Ele olhou para a parede. Faltavam setenta e uma horas.
Setenta e uma horas antes de Paris deixar de existir.
Antes que ele deixe de existir.