
Capítulo 665
Re: Blood and Iron
Os salões da Grande Propriedade de Tyrol estavam mais cheios do que há décadas.
Carros alinhavam-se na entrada, suas lanternas piscando na noite, enquanto os pneus estalavam contra a neve.
Os empregados circulavam apressados, conduzindo os visitantes pelo vestíbulo de mármore até o grande salão, onde lareiras enormes crepitavam em grandes lareiras e os estandartes da casa pendiam cobertos com tecido preto de luto.
A família tinha chegado.
Os oito irmãos de Bruno estavam reunidos novamente, curvados pelo tempo, mas ainda se comportando como homens que já foram orgulhosos filhos da Prússia.
Suas esposas se agrupavam ao lado deles, conversando em sussurros, enquanto seus filhos e netos enchiam as galerias, com rostos de curiosidade e solenidade.
Também estavam presentes os oito filhos de Bruno, Erwin, Eva, Elsa, os mais jovens, que recentemente haviam herdado sua parcela de responsabilidade.
Mesmo primos distantes e tios, aqueles que já o tinham virado as costas, estavam reunidos no salão.
Dezenas, talvez centenas, de parentes sanguíneos estavam sob o mesmo teto.
Pela primeira vez, em o que parecia uma vida inteira, a Casa de Zehntner estava completa.
Eles falavam do velho.
O patriarca.
Bruno von Zehntner, Sr.
"Ele viveu quase um século", murmurou um dos tios, sua voz ecoando pelo salão. "Desde a coroação do primeiro Kaiser até o reinado de seu neto. Poucos homens podem dizer o mesmo."
"Nunca se deixou amolecer", acrescentou outro. "Mesmo na velhice. Lembro-me de visitá-lo há cinco anos, seu aperto de mão ainda era de ferro. A língua, então, mais afiada ainda."
"E seu orgulho", comentou um primo.
"Ele costumava dizer que, por mais grandiosos que fossem os títulos do filho mais novo, tinha vivido para ver sua casa crescer pelo próprio mérito, não por bajulação ou corrupção. 'Por trabalho, por serviço, pelo sangue'. Essas eram suas palavras."
As conversas iam e vinham, risos de velhas memórias se misturando ao peso do luto.
Crianças agarradas às saias das mães, assistindo aos mais velhos rememorando.
Jovens homens se reuniam nos cantos, falando das batalhas que seus avós e bisavós tinham travado, tentando imaginar o mundo como fora.
As mulheres da família consolavam umas às outras, compartilhando histórias de casamentos, nascimentos, longos invernos suportados.
Enquanto isso, os empregados iam e vinham, bandejas de vinho e pão passando entre os presentes como sombras.
Porém, um homem faltava.
"Onde está Bruno?" perguntou finalmente um dos irmãos, com tom cortante. "O cabeça da casa, o Grão-Príncipe de Tyrol, ausente na homenagem ao próprio pai?"
Seguiu-se um silêncio pesado, a pergunta pairando no ar.
Heidi, de pé ao lado da lareira, virou o olhar para eles. Sua expressão era calma, quase cansada.
"Ele está preparando o funeral", respondeu simplesmente. "É só isso que vocês precisam saber."
Os familiares cochilavam entre si, trocando olhares. Conheciam os hábitos de Bruno, seu desprezo por reuniões lotadas, por palavras vazias e formalidades.
Mas também sabiam que sua dor era real, e que sua solidão era a única forma que ele aprendera para suportá-la.
Bruno estava sozinho em seu escritório, com a porta fechada, as lâmpadas acesas baixas.
A neve pressionava contra os vidros, e o silêncio do aposento era rompido apenas pelo arranhar da pena no pergaminho.
À sua frente, desenhos de um escudo, inicialmente rough, tornando-se mais precisos com cada traço.
Ele trabalhava com a mesma precisão que já usara para planejar uma batalha, para traçar um cerco, para dispor exércitos.
Somente que agora, o campo era a heráldica, não a guerra.
A águia coroada de Tyrol espalhava suas asas sobre a página, vermelha sobre prata, com a coroa dourada brilhando. Ao redor, ele esboçava uma guirlanda de trigo pesado, maduro, dourado.
No centro, um pequeno escudo carregava as armas antigas dos Zehntner: um feixe de trigo simples, concedido durante as guerras napoleônicas, quando seu avô foi elevado à nobreza Junker pela primeira vez.
A pena parou em sua mão. Seus olhos pálidos estudaram o desenho.
Não bastava que fosse bonito. Precisa comunicar. Precisa ter sentido.
Pensou no pai, no homem orgulhoso e teimoso que viveu entre imperadores, guerras e impérios.
Um homem que sobreviveu à esposa, aos amigos e quase aos próprios filhos.
O velho patriarca invocara a lei de última vontade na fase final, fundindo a casa Junker ao ramo princípe de Bruno, unificando-os em um só.
Foi por ele que Bruno criou este escudo.
A águia para Tyrol. O feixe de trigo para os Zehntner. A guirlanda para abundância e providência.
Um sorriso irônicoCurvou os lábios de Bruno enquanto ele apertava mais o trigo, como as guirlandas de faixas socialistas que vira erguidas nas ruas há décadas, faixas que ele próprio derrubara, com seus portadores sendo executados ou dispersos.
Ele tinha destruído o socialismo nesta vida. Derrubado sob o calcanhar da ordem e do ferro.
Por que, então, não pegar seus símbolos, suas imagens exaltadas da colheita e do trabalhador, e fazer deles seu próprio símbolo?
De colocar o trigo não nas mãos de hordas, mas na insígnia de uma casa principesca, num presente a seu pai, que havia superado a degeneração e garantido a ascensão da família.
Que os socialistas apodretem em suas covas.
Seus símbolos eram seus, por direito de conquista.
Esta guirlanda não era deles. Era dele. Do pai dele. Dos filhos dele. Um símbolo de prosperidade santificada pela providência divina, não pelas falsas promessas de agitadores.
Bruno recostou-se na cadeira, estudando o brasão.
Estava completo. Estava finalizado.
A Casa de Zehntner, o Grão-Princípio de Tyrol, uma única família, um só destino.
Sua mão pairou sobre o pergaminho, seguindo o contorno da coroa da águia.
Pensou novamente no pai, nos dias em que falava com firmeza, mas sem maldade, no dia em que entregou uma casa ao seu filho mais novo, invocando uma lei tão obscura que quase ninguém lembrava mais dela.
O último presente do velho, pensou Bruno. Fazer-nos um só.
Ele exalou, devagar e pesado.
Do lado de fora, conseguia ouvir, de leve, o murmúrio das vozes, risos que rompiam o luto, a casa reunida lembrando-se do patriarca.
Eles se questionariam sobre seu desaparecimento. Sussurrariam, questionariam, acusariam. Ele não se importava. Nunca viveu para a aprovação deles.
Mas, quando o funeral chegasse e o brasão fosse revelado, entenderiam.
Bruno mergulhou sua pena novamente, inscrevendo sob o escudo as palavras que o assombravam desde a juventude, as palavras que passara a crer com a certeza do ferro:
Por sangue, por labor, por dever… a providência resiste.
A tinta secou na página. O escritório voltou ao silêncio.
E no grande salão lá fora, a família prosseguia sua homenagem, sem imaginar que, no silêncio de sua solidão, Bruno estava forjando o símbolo que resistiria a todos eles.