
Capítulo 666
Re: Blood and Iron
As campainhas de Berlim soaram intensamente, seus ecos espalhando-se pelo ar gelado.
As ruas permaneciam em silêncio sob bandeiras negras e brancases, penduradas em todas as fachadas e torres.
Os cidadãos alinhavam-se silenciosos nas avenidas, com chapéus na mão, enquanto a procissão passava.
Primeiro vinham os regimentos do Reich, seus botas ressoando em uníssono sobre os paralelepípedos congelados, baionetas reluzindo sob o sol de inverno.
Logo atrás, desfilavam carruagens cobertas com tecidos de luto, carregando coroas de pinho e laurel, ofertas de guildas, regimentos e províncias.
No centro de tudo, o féretro: preto, puxado por seis cavalos brancos, com o caixão coberto pela bandeira da Prússia, coroada pela Cruz de Ferro, com as medalhas de uma vida repousando sobre a urna.
E seguindo, passo a passo, os chefes de impérios.
O Kaiser Wilhelm II caminhava com rigidez, sua idade revelada, acompanhado de sua família ao seu lado.
Ao seu lado, marchava o Czar Alexandre da Rússia, alto e sério, com a esposa Elsa no braço, olhando fixamente para frente, o rosto pálido, mas imperturbável.
Logo atrás, o Rei da Itália e seus familiares, os Arquiduques da Áustria, os Duques da Baviera e Saxônia, os Príncipes de Württemberg, Mecklenburg e Baden. As grandes casas da Alemanha e além, unidos em luto.
E, por fim, vinha a própria Casa Zehntner.
Bruno liderava o cortejo, trajado com toda a nobreza, ostentando cada honra conquistada no peito e no ombro.
O Grão-Príncipe do Tirol, o Reichsmarschall, o Leão dos Alpes.
Porém, seu rosto carregava uma expressão de pesar, seus olhos sombreado pela memória.
Ao seu lado, caminharam Heidi, vestida de preto, com a postura firme.
Logo atrás, vinham seus filhos, e depois os irmãos, sobrinhos, primas, primos, uma maré de sangue reunida pelo luto.
A procissão avançou por Unter den Linden, passando pela multidão, pelas portas da catedral onde também repousaram reis.
O caixão foi levado para dentro, enquanto a música solene de órgãos preenchia o espaço das abóbadas.
Velas tremulavam contra colunas de mármore. No ar, o perfume de incenso pairava.
A congregação ocupava todos os bancos, nobres de ombro a ombro, uniformes brilhando, vestidos pretos sussurrando enquanto se ajoelhavam.
O próprio Kaiser inclinou a cabeça, e o Czar fez o sinal da cruz em silêncio.
Quando finalmente as orações foram feitas, os hinos entoados e o caixão abaixado diante do altar, todos voltaram o olhar para Bruno.
Ele deu um passo à frente, cada movimento calculado, seus botas ressoando no mármore como trovão no silêncio.
Em suas mãos, carregava uma grande bandeira, seu cetim pesado, suas cores vibrantes.
Virou-se lentamente e, com um movimento deliberado, a desenrolou diante de todos.
Suspiros percorreram o salão.
Por cima, flameava a águia coroada do Tirol, vermelha sobre prata, com asas abertas em majestade.
Ao redor, uma guirlanda dourada de trigo circundava o escudo, seus caules atados com fita vermelha, branca e vermelha, do Tirol.
E no peito da águia, sobre um escudo menor, os antigos brasões dos Zehntner, o humilde feixe de trigo, símbolo de suas raízes Junker.
O passado e o presente, unidos num só.
A voz de Bruno ressoou, firme e pesada:
"Meu pai não nasceu para a grandeza. Ele nasceu para servir. Um Junker prussiano da nova nobreza, criado não por séculos de privilégios, mas pelo dever, pela fé e pelo labuta. Viu imperadores serem coroados e imperadores serem sepultados."
Sua voz se espalhou pelo salão, não amplificada por microfone, mas pelo peso e a força natural de um homem cheio de dor… e orgulho.
"Viveu guerras e triunfos, paz e perdas. Enterrou a própria esposa, amigos, e ainda assim resistiu. Construiu com as mãos, liderou com a vontade, e ensinou aos filhos que honra não é uma palavra, mas um fardo a se carregar."
Ele fez uma pausa, seu olhar percorrendo a assembleia, o Kaiser, o Czar, o Rei, o Príncipe, e depois os rostos de seus próprios parentes.
"Meu pai me deu mais que a vida. Ele me deu um nome, que levei à batalha, que carreguei quando o dever me chamou a campos ensangüentados e incandescentes. E me deu uma casa, não enorme, não antiga, mas firme."
O olhar de Bruno, cabisbaixo e sério, ardia com fogo, enquanto ele se erguia com orgulho. Uma expressão amarga se desenhava nos lábios dele.
A máscara de estoicismo que usava se quebrava a cada palavra dita.
"Por sua mão, ela resistiu. Pela sua fé, permaneceu firme. Pela sua sabedoria, não passou ao primogênito, mas ao que pudesse carregá-la adiante. Assim, uniu nossa linhagem, das raízes Junker ao honor princípe, do humilde trigo ao águia do Tirol."
Ergueu a bandeira ao alto, a heráldica refletindo a luz das velas.
"Este é o presente de meu pai, e meu presente a ele. A casa fez-se uma só. O velho e o novo, o humilde e o grandioso, ligados pela providência. O trigo das nossas origens, a águia do nosso futuro. Um símbolo da prosperidade do Tirol, da graça de Deus, de uma família que perdurará além do túmulo."
Sua voz ficou mais forte, reverberando na catedral.
"A vida do meu pai foi marcada por sacrifícios. Sacrifício pela família. Sacrifício pela fé. Sacrifício pela Pátria. E, acima de tudo, amor. Amor por sua esposa. Amor por seus filhos. Amor pelo Kaiser. Amor pelo Deus a quem serviu até seu último suspiro. Se uma vida dessas não é digna de honra, então nenhuma vida é. Se um homem assim não é lembrado, então nenhum de nós merece ser lembrado."
Bruno abaixou lentamente a bandeira, fincando seu mastro no chão de pedra diante do altar.
Ele inclinou a cabeça, sua voz baixa, mas que ainda assim carregava peso:
"Descanse agora, pai. Sua missão acabou. Sua carga foi carregada. E o que você construiu permanecerá."
A sala ficou em silêncio, o peso de suas palavras imergindo cada alma ali presente.
Depois, lentamente, o órgão voltou a tocar, subindo como uma maré, e a congregação se levantou como um só corpo.
Kaiser, Czar, Rei e povo comum baixaram suas cabeças em memória de Bruno von Zehntner, Sr.
E, naquele momento, a casa que ele fundou tornou-se eterna.