
Capítulo 615
Re: Blood and Iron
O palácio de inverno fora de São Petersburgo estava calmo, mas não frio. Dentro do salão de jantar de teto alto, as lareiras queimavam com fogo lento e constante.
O tilintar de talheres contra porcelanas era o único som por um tempo, até que o czar, alto e de ombros largos, de casaco de oficial, colocou o garfo na placa.
"Recebi uma mensagem da Armada," disse o czar Alexei, com voz firme, sem desviar o olhar do prato. "O Imperador Pedro, o Grande, entrou na fase final de preparação. Ele se juntará à frota dentro do mês."
Do outro lado da mesa, sua esposa olhou para cima. Elsa. Elegante, reservada, com olhos azuis claros, frios e inexpressivos, a menos que alguém soubesse o que procurar. Ela bebeu um pouco do chá antes de responder.
"Então o Báltico não é mais um lago isolado," disse ela suavemente. "Isso faz três grupos pesados de superfície, entre Arkhangelsk, o Extremo Oriente e agora São Petersburgo."
"Três," concordou ele. "Mais a Frota do Mar Negro. E temos acesso pelo Bósforo, se chegar a esse ponto."
Elsa permitiu-se um aceno de cabeça. "Rei Andronikos deu sua palavra."
Alexei recostou-se um pouco, com a luz das velas ressaltando as linhas de seu maxilar. "Os gregos podem segurar Constantinopla agora, mas os turcos não vão esquecer. Se a França os envolver na guerra, ou se os britânicos insistirem demais—"
"Então nós lembramos quem treinou os fuzileiros helênicos," respondeu Elsa sem hesitar.
"E quem construiu seus estaleiros."
Um pequeno sorriso brotou nos lábios do czar.
"Você é mais parecida com seu pai do que admite."
Elsa ficou em silêncio por um tempo, cortando uma fatia de pato assado com precisão cirúrgica. "Meu pai não tolera fraqueza. Mas valoriza a força demonstrada com moderação. Aprendi as duas coisas."
O czar levantou sua taça de vinho da Crimeia e fez um gesto suave com ela. "E por causa disso, nossos programas conjuntos deram frutos. Sua Alemanha compartilhou mais do que eu esperava. E nós... temos escutado mais do que costumávamos."
A voz de Elsa permaneceu calma, mas seu olhar tornou-se mais afiado.
"Você escutou porque eu te disse que o mundo não vai esperar a Rússia se colocar em dia por conta própria."
"E você tinha razão." Seu tom não era amarga. Era firme. "Ainda estávamos sangrando pelo bolchevismo. Tínhamos aço, mas nenhuma doutrina. Soldados, mas sem visão. Isso mudou."
Ele colocou a taça de vinho de lado e se inclinou para frente, com os cotovelos sobre a mesa.
"Nossas brigadas mecanizadas completaram exercícios conjuntos com os bávaros. Nossos pilotos estão usando simuladores codificados em Berlim. Nossos oficiais vestem uniformes ao estilo alemão sob medalhas russas. Não somos mais o Urso que éramos, somos uma criatura totalmente diferente."
Elsa permitiu-se um leve sorriso. "Não um animal. Uma espada, forjada longamente, finalmente afiada."
Do lado de fora, a neve sussurrava suavemente contra as janelas. O silêncio voltou, mas desta vez foi pesado. Cheio de propósito.
A mão de Alexei fechou-se suavemente sobre a de Elsa.
"Se a guerra vier," disse ele, "não vamos seguir. Vamos atacar. Não como vassalos. Não como procuradores."
Ela olhou para ele sem piscar. "Mas como iguais."
E por um longo momento, nem czar nem czarina falaram. O fogo crepitou. Em algum lugar distante, uma campainha tocou a hora. A guerra ainda não havia começado.
Mas o tabuleiro estava armado, e o Urso já não dormia mais.
A Villa del Quirinale brilhava na luz dourada da tarde, seus tetos altos e colunas românicas ecoando risos corteses e o tilintar suave de taças.
No grande salão, diplomatas de meia dúzia de nações estavam reclinados ao longo de mesas polidas, sob afrescos mais antigos que muitos de seus países.
Mas, na cabeça da sala, sob o grande brasão de Savóia, a verdadeira conversa acontecia.
Não em proclamações, mas em olhares, gestos e palavras cuidadosamente medidas.
O Príncipe Herdeiro Humberto II de Savóia, alto, com a graça natural de alguém criado para cerimônias, levantou um brinde.
"À amizade entre nações," disse ele. "À união do velho mundo, refundada."
Seu olhar deslizou suavemente na direção da mulher ao seu lado. Jovem, composta, com os mesmos olhos inconfundíveis do pai.
Anna von Zehntner, Grande Princesa de Tirol por nascimento. Princesa da Itália por casamento. E agora, discretamente visível sob seu vestido sob medida, visivelmente grávida.
Quando ela sorriu, o ambiente silenciou.
"À paz," acrescentou ela suavemente. "E à força de preservá-la."
Aplausos seguiram-se, silenciosos e reverentes, como se a própria corte entendesse a importância de suas palavras.
Mais tarde, depois que os nobres se retiraram para música e vinho, os verdadeiros protagonistas se reuniram no salão de mármore além dos jardins.
Lamparinas de óleo tremulavam contra bustos de bronze de antigos imperadores.
O rei Vítor Emanuel III deitou-se em uma poltrona alta de madeira florentina, já idoso, mas de olhos aguçados. Em frente, seu filho com Anna ao seu lado.
"Os alemães sangraram pelo equilíbrio do qual todos agora nos beneficiamos," disse Humberto, com voz baixa mas clara. "E nós... pouco fizemos. Na Grande Guerra, mudamos de lado. Agora, a história devolve os débitos."
Vítor V de forma cuidadosa. "Então, vamos equilibrar."
Anna colocou uma mão na barriga quase inconscientemente. "E criemos filhos que não precisem herdar vergonha."
O rei olhou para ela, filha de um homem que um dia não confiava, agora parte da família.
"Você fala como seu pai."
"Falo como sua aluna," ela respondeu suavemente. "E como mãe de uma futura Savóia."
Um momento passou.
"A frota está em expansão," acrescentou Vítor V. "Seis novos cruzadores, sistemas de controle de fogo alemães, e nossos estaleiros funcionando dia e noite. Convidamos observadores prussianos para Nápoles na próxima manobra conjunta."
"E nossas divisões alpinas?" perguntou Humberto.
"Treinando com assessores tiroleses," respondeu Vítor V. "Filhos mais jovens do antigo elenco. Profissionais. Silenciosos. Cruéis quando necessário."
Humberto voltou sua atenção para Anna novamente. "E você tem certeza de que seu pai nos vê como… iguais?"
Anna inclinou a cabeça, com um sorriso irônico e conhecedor. "Ele me enviou, não foi?"
O rei sorriu suavemente. "Chutou a bola."
Ele relaxou na cadeira e olhou para as portas abertas, onde a música sussurrava pelo jardim.
"Os Novos Poderes Centrais…" refletiu. "Alemanha, Rússia, Grécia… e agora a Itália. Uma vez, não importávamos. Desta vez, não vamos permitir que nos ignorem."
Anna se aproximou mais da janela, observando a cidade estrelada além. "Desta vez, o velho mundo se levanta junto."
Trás dela, Vítor colocou uma mão suavemente sobre a dela.
Do lado de fora, sinos começaram a tocar pelos telhados. Roma, antiga e inexorável, estava pronta.
Era noite em Budapeste, e as chamas dos estaleiros do Danúbio piscavam pelo rio como brasas de um império moribundo.
O rei Artur Arz de Straußenburg permanecia sozinho na sala de guerra abovedada do Castelo de Buda.
Leões dourados da Hungria brilhavam no teto acima dele, mas ele não levantou o olhar.
Seus olhos estavam no mapa antigo, manchado e desbotado, daqueles que oficiais já sangraram para criar.
Ainda mostrava a Grande Hungria, antes da guerra, antes de Trianon, antes da traição.
Antes de Berlim.
O silêncio foi rompido apenas pelo tique-taque do relógio de parede e pelo murmúrio baixo da tempestade que se formava lá fora.
Uma batida na porta.
"Entre."
Seu chefe de gabinete entrou com um telegrama dobrado.
"De Paris... de Gaulle parece estar desesperado. Ele exige saber sua posição... Para a grande questão que ainda persiste…"
Arthur pegou a mensagem, mas não a leu. Em vez disso, a jogou na lareira. Sem dar segunda olhada, o papel foi tragado rapidamente pelas chamas.
Ele caminhou lentamente até a janela alta que dava para a Colina do Castelo, uma mão apoiada no peitoril.
"Agora todos percebem," disse ele. "O mundo está mudando. A guerra não está chegando. Ela já começou. Ainda não admitiram."
Seu staff permaneceu em silêncio.
Ele virou-se.
"A Alemanha lutará. Assim como a França. Os Bálcãs vão queimar… novamente. Os gregos controlam Constantinopla. Os russos renascem. A Espanha está se recuperando de uma ferida aberta…"
Ele voltou à mesa, com a mão enluvada arrastando-se pelos territórios dos Cárpatos no mapa.
"E nós," rangerou, "estamos sozinhos."
Ninguém falou.
Ele fixou o olhar em Transilvânia. Em Kluj, Oradea, Târgu Mureș — sua cidade natal.
"Eles tomaram nossa terra e a entregaram a pastores," resmungou. "E agora me pedem para ajoelhar e agradecer a favor."
Ele fechou o punho sobre a região.
"Mas não sou um tolo."
Pausa.
"Se esperarmos, a Romênia se juntará à Alemanha. Prometerá neutralidade. Talvez até alguma palavra. Mas quando os tanques avançarem para o leste, estarão do lado vencedor, e levarão o resto do leste com eles."
Ele se voltou para seu ajudante.
"Envie uma mensagem para Berlim."
O ajudante hesitou.
"Devo... redigi-la diplomaticamente?"
Arthur sorriu de forma sombria.
"Faça isso. Mas deixe claro: a Hungria entra no Novo Pacto Central. Honraremos nossos compromissos. Nossa marinha nada vale. Mas nosso aço flui. Nossas divisões estão forjadas e testadas em batalha. E enterramos nossos bolcheviques no Danúbio há anos."
O ajudante fez uma reverência e saiu.
Sozinho novamente, Arthur olhou de volta para a janela.
"Eles não vão confiar em mim," murmurou. "Mas vão precisar de mim. E isso basta."
Ele voltou para o mapa e, com um movimento deliberado, desenhou uma linha vermelha com caneta de graxa na fronteira romena.
"Eles vão entrar em pânico," disse suavemente. "Vão correr para Paris ou Londres. Deixe-os."
Ele sorriu de canto de boca.
"E quando fizerem isso, eu vou recuperar o que nunca devia ter sido entregue."
O vento uivava contra o vidro. Em algum lugar do continente, mensagens já se moviam por fios criptografados, carregadas por mensageiros de casaco preto, sob títulos como URGENTE.
O rei da Hungria estava escolhendo lados.
E desta vez, ele não seria o parceiro menor.