Re: Blood and Iron

Capítulo 614

Re: Blood and Iron

A mesa imperial do café da manhã era, por design, uma rotina modesta para os padrões reais.

Lençóis brancos, pratos de porcelana, pães recém-assados, ovos mexidos ao suporte de prata — tudo bastante discreto para sugerir tradição, não excessos.

As grandes janelas do Palácio de Bellevue inundavam a salão de jantar com uma luz pálida de primavera.

Do lado de fora, o Tiergarten brilhava com o orvalho, e uma brisa suave agitava os murros com a promessa de um verão precoce.

Eva sentava-se ao lado do marido, príncipe Wilhelm, cujo casaco do uniforme repousava sobre a cadeira ao lado dele.

No outro lado da mesa, o próprio Kaiser, Wilhelm II, já mais velho, de bigode branco e um pouco mais lento nos movimentos, mas com a mesma inteligência afiada. [1]

E ao lado de Eva, seu filho mais velho, o jovem Bruno, balançava as pernas sob a cadeira, olhos alternando entre a torrada com manteiga e o jornal da manhã que o Kaiser tinha acabado de desenrolar com um estalo ruidoso.

"Então!" — berrou Wilhelm II com um entusiasmo teatral, ajustando seus óculos de leitura — "Parece que os americanos estão fazendo as malas em Manila! E os franceses, ainda discutindo se devem culpar De Gaulle ou a própria estupidez deles!" Ele deu uma risada baixa e divertida. — "Começa a parecer que essas repúblicas não têm mais estômago algum."

O príncipe Wilhelm deu um meio-sorriso enquanto passava uma garrafa de café na direção do avô. — "Talvez estejam apenas com uma indigestão. Engoliram muitas mentiras ultimamente."

"Ha!" — o Kaiser deu uma tapinha leve no apoio de braço — "Mentiras, é? E quem, eu me pergunto, continua a alimentá-las com tanta constância?"

Eva, inicialmente, não disse nada. Ela pegou sua xícara de chá, deu um gole, e então se inclinou um pouco na direção do marido, sussurrando com um sorriso malicioso:

"Ora... tenho quase certeza de quem poderia estar por trás de tudo isso."

Wilhelm olhou de relance para ela, levantando a sobrancelha, captando o brilho em seus olhos.

"Ah?" — murmurou inocentemente.

Ela inclinou a cabeça suavemente, ainda sorrindo. — "Os documentos escandalosos, as mudanças editoriais globais, a erosão da confiança nas instituições democráticas… É quase como se alguém tivesse um jogo de longo prazo em mente desde a guerra com o Japão... Ou talvez até mais tempo. Alguém com uma rede de mídia inteira silenciosamente conectada em toda a capital, de Buenos Aires a Estocolmo."

O sorriso de Wilhelm se ampliou, os lábios apertados para conter o riso. — "Você pensa demais do seu pai, minha querida."

Ela recostou-se e sussurrou atrás da xícara: — "Não. Acho que o conheço exatamente na medida em que ele quer que eu o conheça."

Ao redor da mesa, o Kaiser colocou o jornal de lado e o batucou com um Knuckle.

"Posso dizer isto: a pequena peça de redenção do seu pai por Erich von Humboldt foi cronometrada como o sino de uma catedral. O mundo já estava irado. Tudo o que ele precisou foi de uma desculpa para olhar para o oeste."

Pequeno Bruno levantou a cabeça. — "O avô, o chefe do bisavô?"

Todos fizeram uma pausa. Eva piscou surpresa.

"Por que você pergunta isso, querido?"

O garoto encolheu os ombros. — "Porque todo mundo escuta ele. Até você. Até o tio Erwin. Não é isso que as pessoas fazem com seus chefes?"

Wilhelm deu uma risada, bagunçando o cabelo do filho. — "Não, pequenino. Seu bisavô não tem chefes. Ele tem fardos."

Wilhelm II assentiu solenemente. — "Um bom imperador conhece essa diferença."

Eva estendeu a mão por cima da mesa e tocou suavemente a mão do filho. — "Um dia, você vai entender. Ser poderoso não significa estar livre."

O menino parecer confuso, mas assentiu como se tivesse entendido de qualquer modo.

O Kaiser recostou-se, alcançando o creme.

"Vou dar um crédito ao Bruno," — disse ele, referindo-se ao pai de Eva agora — "Ele transformou a guerra de propaganda em uma arma de diplomacia de Estado. Todos pensávamos que a próxima guerra seria com tanques. Ele já está pela metade vencendo com sussurros."

Wilhelm completou, com secura: — "E assinando editoriais."

"Editorais, chantagem, cartas privadas, escândalos cuidadosamente programados…" — Eva fez girar a colher na xícara. — "Ele sempre dizia que balas vencem batalhas, mas ideias vencem guerras."

O Kaiser olhou para ela com um olhar desconfiado. — "De verdade?"

Ela sorriu suavemente. — "Quando tinha doze anos. Ele me disse que a caneta não era mais poderosa que a espada… era só mais silenciosa, e mais difícil de rastrear. Acho que o termo que ele usou foi operações psicológicas. Para quebrar a vontade dos inimigos sem lutar."

Wilhelm II soltou uma risada alta. — "Meu Deus… que coisa para se dizer a uma criança."

Eva apenas tomou mais um gole de chá, com o rosto sereno.

Depois, olhou novamente para o jornal. As manchetes não eram só sobre Espanha ou as Filipinas. Eram sobre os tumultos em Paris. Audiências no Congresso em Washington. Vazamentos na imprensa em Londres. Uma tempestade após a outra, nenhuma diretamente conectada, mas todas levando de volta a uma perda gradual de confiança.

Ninguém tinha visto a mão de Bruno. Essa era a questão.

O Kaiser se inclinou mais uma vez para Bruno. — "E o que você quer ser quando crescer?"

O menino pensou por um momento e respondeu simplesmente:

"Um construtor."

Wilhelm levantou uma sobrancelha. — "Construtor do quê?"

O garoto olhou para cima.

"De coisas que duram."

A mesa ficou em silêncio por um longo momento.

Eva sorriu lentamente e olhou para o filho.

"Assim como seu avô."

E do outro lado da mesa, o Kaiser assentiu uma vez, dobrando o jornal e colocando de lado com uma reverência incomum.

"Então, que construa com sabedoria, menino. Pois o mundo que seu bisavô construiu precisará de muros para suportar a tempestade que vem aí."


O fogo tinha se transformado em brasas.

Eva passou em frente ao espelho, desamarrando as últimas tranças, seu robe de seda tocando seus tornozelos.

Wilhelm já estava na cama, com a camisa desabotoada, os óculos ao lado da lâmpada. Seus olhos a seguiam através da luz quente do candeeiro.

"Você acha que ele vai sobreviver?" — perguntou baixinho.

Ela não respondeu de imediato. Apenas fechou o último grampo na gaveta e encarou seu reflexo.

"O pai sempre sobrevive, aliás… Ele é o Reichsmarschall agora. Você realmente acha que seu avô vai mandá-lo para a linha de frente?" — finalmente disse.

Wilhelm sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos. — "Ele está se preparando como quem não pretende voltar para casa. Acho até que deseja encontrar uma forma de ir para a linha de frente. Encontrar seu fim na batalha, como as lendas antigas."

Eva se virou lentamente dele, atravessando o quarto, escapando sob os lençóis ao lado dele.

"Ele está cansado," — sussurrou, apoiando a cabeça no ombro dele — "Mas cansaço não significa derrota."

Ele passou a mão sobre o braço dela. — "Você realmente acha que o mundo está pronto para o que vem depois dele?"

"Não," — ela respondeu — "Mas nós estamos. Você e eu. Temos que estar."

Ficaram em silêncio por um tempo, apenas ouvindo o suave tique-taque do relógio de viagem.

Ela falou novamente, quase num sussurro:

"Minha mãe uma vez me disse: o maior presente que um pai pode dar é um mundo em que seus filhos possam viver. Papa tenta nos dar isso… mesmo que custe a vida dele."

Wilhelm assentiu uma vez.

"Então, carregamos a tocha."

Ele a beijou na testa.

E, por um momento, enquanto o sono se apoderava, a guerra lá fora ficou em segundo plano, restando apenas a herança.

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