Re: Blood and Iron

Capítulo 606

Re: Blood and Iron

As catacumbas exalavam mofo e pólvora gasta. Velas tremulavam em nichos escavados há séculos por frades, agora iluminando homens de uniformes rasgados e mulheres com rifles pendurados às costas.

Chamavam-se Katipunan ng Dugo at Laya, a Irmandade de Sangue e Liberdade.

No centro da câmara, estava o Comandante Isko "Tigre" Manlapig, uma figura magra, com cicatrizes de machete atravessando a face.

Ele foi um dia professor em Tarlac. Agora, era um profeta do fogo.

"Eles negociam com os Amerikanos como porcos no mercado," ele rosnou. "Marasigan sorri em Manila enquanto nossos camaradas apodrecem em sepulturas rasas. Falam de eleições, eleições! Enquanto nossa nação ainda está ocupada!"

Um murmúrio de repulsa ecoou pela câmara.

A comandante Delia Ramos, segunda na hierarquia após Tigre, avançou. "Temos olheiros no Front Cívico. Até eles estão com medo de nós. Esse medo é poder. Podemos usá-lo."

Um jovem guerreiro, talvez nem mais que dezesseis anos, gritou da retaguarda. "Então, vamos matar os americanos? Emboscar o próximo comboio?"

Tigre levantou a mão, não para silenciá-lo, mas para marcar o momento. "Não. Não apenas soldados. Não apenas comboios. Vamos atacar quando e onde for suficiente para destruir a confiança deles em Paz de Roosevelt. Antes que as assinaturas toquem na tinta. Antes que a transição se transforme numa prisão da qual não poderemos fugir."

Ele puxou uma mensagem de telegrama gasta do bolso.

"Roosevelt chega a Cavite em duas semanas. Marasigan vai recebê-lo. Jornalistas. Generais. Delegate. Toda a ilusão de unidade."

Ele soltou o papel no braseiro. Envolveu-se em chamas.

"Vamos fazer de Cavite o Sarajevo deles."


Do outro lado do mundo, o ar alpino era fresco e carregado de flores da primavera, mas o escritório permanecia frio e sombreado.

Bruno estava próximo às janelas altas, com um copo de conhaque austríaco na mão.

Seu operador telegráfico, veterano da Divisão de Ferro, fazia o decryption do último despacho recebido na porta.

Bruno não se levantou. Só estendeu dois dedos. O despacho foi colocado ali sem uma palavra.

Ele leu uma vez.

Depois, outra.

"Liderança do Katipunan vota por sabotar a visita de Roosevelt a Cavite," ele falou em voz alta, quase de forma preguiçosa. "Moderados de Marasigan desconhecem. Intelligence indica que uma tentativa de assassinato de alto perfil é provável."

Um silêncio se estabeleceu entre ele e o velho operador de rádio.

Bruno deixou o papel sobre uma bandeja e recostou na cadeira, bebendo lentamente do copo.

"Não faça nada," ele finalizou.

O oficial piscou. "Senhor?"

A postura de Bruno era firme, calada, mas quase divertida.

"Os americanos passaram anos matando pelo Luzon e Mindoro para manter viva uma colônia moribunda. E agora, justo quando pensam que compraram paz..." Ele girou o líquido âmbar no copo.

"...o destino intervém."

Seu olhar se perdeu nas montanhas envoltas em névoa lá fora, bem acima do mundo dos homens.

"Churchill foi morto por nacionalistas na Grande Guerra. Porque a Inglaterra estava perdendo tão feio que o povo exigiu retirada. Agora, Roosevelt pode muito bem sofrer um destino semelhante. Uma coluna a menos para sustentar a casa podre do império liberal."

O oficial hesitou. "Se tiverem sucesso, isso não pode aumentar o risco de escalada?"

Bruno sorriu de leve. "Isso traz clareza."

Ele levantou o copo novamente, olhando através dele como se visse o próprio tempo.

"Passei a vida assistindo o mundo apodrecer por dentro. Agora? Agora, as irmãs do destino decidiram cortá-lo na minha frente."

Uma rajada de vento tirolesa agitou as cortinas.

Bruno não disse mais nada.

E o mundo continuou.


Enquanto um projeto perverso acontecia no Pacífico Sul. E Bruno parecia decidido a deixar o destino seguir seu curso, como nunca antes na vida.

O sino tocou exatamente quando o crepúsculo tingia a cidade de ouro e cinza. Erika von Humboldt estava ao lado da janela da sala, com a agulha de tricô congelada na risca do ponto.

Ela adotou o sobrenome de seu falecido pai. E chegou a processar a família dele por reconhecimento.

Com a ajuda de Bruno, conseguiu e virou membro oficial da dinastia.

No entanto, ainda estava só, salvo pela mãe viúva.

Sua certidão de nascimento era legítima, pois Erich ainda não tinha se casado totalmente com Louise na época da morte dele.

Mas, com bastante poder e dinheiro, tudo era possível, inclusive falsificar uma certidão de casamento adequada.

Não era incomum, na época da Grande Guerra, que jovens nobres se casassem pouco antes de serem enviados ao campo de batalha.

Outro sino tocou. Mais alto. Mais firme.

A jovem olhou na direção da porta.

Ela se levantou com um suspiro.


Na porta, estava um jovem alto, trajando uniforme de campanha, túnica verde-esmeralda impecável, com uma aiguillette dourada refletindo a última luz do sol.

Seu boné estava dobrado sob um braço, revelando cabelos loiros curtos, penteados para trás. Uma sabre reluzente pendia à sua cintura, e no peito brilhava a incomparável medalha *Spanische Tapferkeitsmedaille mit Schwertern und Diamanten*, a mais alta condecoração da Espanha, presente do próprio rei Alfonso.

Abaixo dela, um broche de ferimento preto e prata reluzia como uma cicatriz transformada em medalha de honra.

Erich von Zehntner.

"Minha senhora," ele disse, reverente, para Louise, mãe de Erika, que abriu a porta antes que a jovem pudesse.

Ela estreitou os olhos, ergueu o queixo. A semelhança era impossível de ignorar.

Ele parecia com ele... Como o homem que tinha matado seu amado.

"O que deseja?" ela perguntou de forma direta.

Erich não hesitou. "Conversar com Erika. E com você, se permitir."

Ela se endireitou. "Você é o neto dele."

"Sei."

"E usa as medalhas dele."

"São minhas, senhora," ele disse silenciosamente. "Ganhas na Espanha. Eu Sangro como meu avô, como seu marido. O nome que carrego… Não escolhi."

Ela hesitou. O menino tinha coragem, talvez demais. Do tipo que leva homens à morte. Como...

"Mãe?" uma voz surgiu das escadas.

Louise se virou. Erika ficava na correria atrás dela, vestindo um vestido de seda pálido, com uma mão segurando uma agulha de tricô, o cabelo meio destrançado em uma trança que parecia feita às pressas.

"Você sabia que ele viria?"

"Pedi que viesse," Erika respondeu, avançando, com a voz firme.

"Você...? Sem me avisar?"

"Estamos escrevendo um ao outro há mais de um ano," ela disse suavemente, olhando nos olhos de Erich.

"Desde antes de ele ir para a Espanha."

A respiração de Louise travou.

"Ele me escreveu de Salamanca. De Zaragoza. Até dos hospitais de campanha depois de levar um tiro no ombro."

Erika se voltou para a mãe. "Ele nunca pediu pena. Contou a verdade. O que viu. O que temia que acontecesse."

Erich avançou, mas parou na borda da sala.

"Jurei que voltaria para ela se estivesse vivo," disse. "E voltei."

Erika tentou pegar a mão da mãe. "Quero me casar com ele."

Silêncio.

Nem de raiva. Nem de choro.

Apenas um silêncio que enche uma casa quando fantasmas voltam, não como aparições, mas como meninos que sobreviveram enquanto outros não.

Louise desviou o olhar da janela. Não se sentou. Não desabou. Simplesmente olhou além de Erich, além das medalhas, além do uniforme.

"Amar o neto do homem que matou seu pai," ela disse com frieza, "é impensável!"

"Eu entendo."

Erika ia expressar seus pensamentos plenamente quando Louise a interrompeu com outro suspiro.

"Mas... a morte de Erich foi escolha dele... E o papel de Bruno foi uma misericórdia para ele… para nós..."

Erich baixou a cabeça. Sabia bem a história da morte de Erich von Humboldt, do que seu avô fez.

Do preço que a vitória exigiu. Não tinha palavras que não tivessem sido ditas mil vezes.

"Não perdoo Bruno," disse Louise, com palavras como pedra.

"Nunca vou perdoar..." Seus words ficaram suspensos.

"Mas se meu marido estivesse aqui…" ela fez uma pausa, olhando para Erika, "...ele teria aprovado..."

Uma longa respiração.

Depois, passou por Erich delicadamente, tocou o ombro da filha e saiu silenciosamente.

A porta da sala se fechou com um clique.

Erika correu para os braços de Erich, que deixou o boné cair no chão.

"Achava que tinha te perdido em Aragão," ela sussurrou, encostando a testa no peito dele.

"Nunca quis morrer lá," ele murmurou, "antes de te ver de novo."

Do lado de fora, as badaladas da igreja de Viena começaram a marcar a hora.

Dentro, pela primeira vez em duas décadas, a casa voltou a ser quente.

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