Re: Blood and Iron

Capítulo 612

Re: Blood and Iron

A luz suave e dourada dos lustres refletia calorosamente sobre a mesa de carvalho polido que atravessava toda a extensão do salão de refeições da propriedade Zehntner.

Velas tremulavam em suportes ornamentados de latão, suas chamas dançando ao som do leve crepitar da lareira atrás de Bruno.

Heidi era a personificação da nobreza tranquilo, acomodada à sua direita, com o cabelo preso em um coque clássico, um sorriso suave brincando nos lábios enquanto passava uma cesta de pão de centeio escuro para Alya.

"Quase parece que estamos de volta a Berlim..." ela murmurou, mais para si do que para alguém. "Antes que o mundo exigisse tanto."

Bruno não respondeu imediatamente. Observou enquanto Erwin cortava o assado, distribuindo fatias de carne para cada prato com a precisão de um soldado que virou estadista.

"O mundo will always exigir," Bruno finalmente quebrou o silêncio, sua voz como pedregulho tranquilo. "Mas isso não significa que não possamos reservar nossas noites assim, só para nós."

Alya assentiu, a suavidade de seus traços russos se acentuando na luz das velas. Ela estendeu a mão para ajudar seu filho mais novo a ajustar os talheres, mas foi Erich, o mais velho dos netos, quem chamou a atenção de Bruno.

Ele já tinha se tornado homem há muito tempo, mas agora se comportava como um.

Com os ombros firmes, postura impecável, seu uniforme limpo e bem passado mesmo em uma refeição em família. Ele se parecida com Bruno de formas que iam além do sangue.

Havia peso no modo como ele mantinha o olhar, na forma como ouvia primeiro e só falava quando tinha motivo.

"Serviu bem na Espanha," Bruno disse sem rodeios, cortando o som do tilintar das taças.

Erich levantou a cabeça, indeciso se deveria responder de forma formal ou não.

"Ofereci o que foi preciso, senhor."

Bruno sorriu raramente. "Resposta adequada."

Alya colocou a mão no ombro do filho. "Ele voltou mudado. Mais silencioso."

"A guerra costuma fazer isso," disse Erwin, sua voz baixa. Relembrando a infância e como seu pai era sempre quando voltava de campanhas no exterior.

"Você voltou, porém," Heidi acrescentou suavemente, olhando para o neto. "Isso é o que importa mais."

Erich deu uma pequena reverência com a cabeça, os olhos desviando-se em direção à lareira. Havia algo que permanecia neles, talvez uma sombra, ou simplesmente uma lembrança.

O jantar seguiu com risos e histórias. Alya contou uma aventura de perseguir cabras em seu jardim de hortaliças.

Erwin retrucou com uma história de quase cair de um vagão militar durante uma tempestade de neve na Saxônia.

Heidi riu, e Bruno riu também, mais pelo calor do momento do que pelo humor em si.

Quando a sobremesa chegou, uma sachertorte com creme espesso, Bruno levantou seu copo, um doppelbock bávaro encorpado, bem alto.

"À paz, por mais que dure. E à família, que vale as guerras que travamos para protegê-la."

Eles brindaram.

E naquela noite, naquela mansão aninhada nas montanhas dos Alpes Tirolenses, o mundo lá fora parecia não existir. Não havia França. Nem América. Nem tempestade à vista.

Havia apenas a luz do fogo, a família, e a quieta, breve ilusão de que talvez toda a guerra tenham valido a pena.


A bruma subia em fitas fantasmagóricas do balneário de pedra ao fundo da mansão, enrolando-se no ar frio dos Alpes.

A neve cobria as árvores altas ao longe, e uma meia-lua brilhava acima dos picos escarpados, iluminando o vale tirolês em tons de prata.

Bruno recostou-se, os braços descansando na borda da banheira de pedra escavada na montanha, o peito nu, com o vapor grudando às antigas cicatrizes como medalhas desbotadas.

Uma garrafa de cerveja escura, meia-vazia, repousava na pedra próxima.

Heidi sentou-se do outro lado, com o cabelo preso, seu corpo esguio relaxado, mas atento.

Ela olhou para ele, não com a doçura da juventude, mas com o afeto íntimo e marcado pelo tempo que só a experiência pode conquistar.

"Posso ver nos seus olhos," ela disse suavemente. "Você já está lá."

Bruno demorou a responder, seu olhar distante, fixo em uma estrela que se recusava a piscar.

"Acho que essa será minha última guerra," afirmou após um longo silêncio.

Heidi fechou os olhos. "Boa."

Ele olhou para ela, um leve sorriso brincando na ponta da boca. "Não era o que você costumava dizer."

"Eu era mais jovem. E você também."

A água ondulou suavemente entre eles. Um vento passou pelas árvores, silencioso e respeitoso.

"Fiz tudo o que pude," Bruno murmurou. "Comprei nosso tempo, matei o século antes que ele nos matasse. E mesmo assim… o mundo insiste em desabar de novo."

Heidi se aproximou mais, o vapor se dobrando ao redor dela como um véu. "Então deixe que colapse sob os cuidados de outra pessoa. Você aguentou tempo suficiente, Bruno."

Ele deixou isso ficar. As palavras doeram porque pareciam verdade.

Ela estendeu a mão, os dedos traçando a cicatriz na face dele. A que ele ganhou na mensuração[1] quando era mais jovem.

"Estão prontos," ela sussurrou. "Erwin. Erich. Até os pequenos da Elsa, com o tempo. Você os criou bem. Criou um mundo."

Bruno respirou fundo. "Ainda olham para mim."

"Por orientação," Heidi disse. "Não por sacrifício."

Ele virou a cabeça, encontrando os olhos dela sob a luz da lua. "E se for preciso mais um sacrifício?"

"Então vou lamentar. Mas não vou perdoar." Sua voz não se quebrou, embora algo dentro dela tenha se despedaçado. "Não desta vez, Bruno. Você não pode morrer pelo mundo duas vezes."

Ele a olhou, seu olhar duro, mas amoroso. "Não sei se consigo parar."

"Sei. Mas quero que tente."

O vento voltou a mudar. Em algum lugar da mansão atrás deles, um relógio badalou uma hora.

Bruno se inclinou levemente para frente, apoiando as mãos na água. O peso dos impérios ainda se agarrava aos seus ombros.

"Se vier, eu fico. Mas se passar..."

"Você volta para casa," Heidi disse firme. "Volta para ficar. Essa é minha última ordem, Feldmarschall."

Bruno sorriu de leve. "Você agora tem hierarquia superior às minhas?"

"Sempre tive."

Ele riu baixinho, o som antigo e caloroso.

Então o silêncio voltou, interrompido apenas pelo vento, pelo sussurro do vapor e pelo distante grito de uma coruja perdida.

Naquele momento, sob o céu ancestral, a guerra esperava. Mas ainda não.

Nessa noite, pertencia à paz.

E a eles.

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