
Capítulo 639
Re: Blood and Iron
A cidade suava sob seu sol eterno, com um brilho dourado e uma sensação de lentidão na tarde quente.
Dentro do prédio fortificado do consulado americano, bem acima do tumulto na rua, quatro homens estavam sentados em uma longa sala de reuniões com paredes de madeira, ventiladores de teto zumbindo acima.
O coronel Frank Holloway, do OSS, folheava uma série de despachos codificados.
Seu uniforme estava folgado, desfiado e manchado com a poeira da África Ocidental de uma semana.
Mas seus olhos eram afiados, demasiadamente afiados para um homem que se dizia "assessor civil".
"Os alemães não estão recuando," ele murmurou. "Estão fazendo o que sempre fazem. Sorrindo com uma mão estendida, enquanto a outra enche uma revista."
Um cidadão liberiano, agora na folha de pagamento americana como um ativo de inteligência, contorcia-se nervosamente na cadeira. "As unidades Werwolf estão sendo reforçadas, senhor. Mais blindados chegaram a Lunsar na semana passada. Blindados pesados. A população já começa a sussurrar que esse 'conselho de transição' é só uma máscara nova para o antigo Reich."
Um dos profissionais de logística infiltrados da CIA, Greene, jovem, convicto e bastante barulhento, encostou-se na cadeira.
"Então, vamos atacar de novo. A operação do comboio há duas semanas foi um sucesso. Só dois daqueles filhos da mãe conseguiram sair da selva. Um deles se explodiu só para evitar a captura."
Frank resmungou. "E ele levou vários dos nossos com ele… Os alemães têm orgulho. Sempre tiveram. Prefeririam morrer levando outros junto, a se render... Isso virou um verdadeiro problema."
Houve um silêncio. O único som era o ritmo lento do ventilador e o zumbido dos vendedores de rua ao longe.
Fora, crianças jogavam futebol descalças nos becos. Mulheres vendiam rapadura e mangas.
Uma voz de pregador ecoava distante, gritando em Krio sobre fogo e salvação.
Então surgiu um novo som.
Um murmurinho distante, baixo, rítmico, vibrando dentro das paredes. Uma das vidraças começou a tremer.
Greene parou, levantando o olhar. "O que é isso?"
O operative local permaneceu em pé lentamente e caminhou até a janela. Esfregou os olhos contra o sol, depois congelou.
"Algo está errado," ele disse em voz baixa.
Frank se juntou a ele. No extremo oeste da cidade, logo acima da selva costeira, uma forma escura se formava no céu. Várias formas. Não, dezenas.
"Não há rotas de voo aprovadas hoje," Greene murmurou, já alcançando o rádio.
Mas era tarde demais.
A primeira bomba caiu a cinco quilômetros de distância, além da usina de açúcar. Uma coluna de fogo surgiu no horizonte, como um vulcão rasgando a terra.
A próxima atingiu o aeroporto. Depois os cais. E, por fim, a estação de energia da cidade.
A voz de Frank ficou presa na garganta. "Jesus Cristo."
Dezenas de Fernbombers sobrevoavam gritando. Aeronaves turboélice de alta altitude, projetadas para ataques estratégicos.
Os motores rugiam como trovão. As silhuetas deles eram espectrais, brilhando através da atmosfera superior.
Porém, suas cargas eram reais.
Centenas delas.
Incendiários. Explosivos de alta potência. Bombas de fragmentação termobáricas.
O céu se abriu.
As bombas não caíram em linha reta. Desceram em um padrão, em espiral inward.
De fora para dentro, como uma corda cada vez mais apertada.
A casa segura do OSS tremeu. Vidros se estilhaçaram. Livros caíram das estantes. Rádios pararam de funcionar. Em algum lugar do complexo, um gerador explodiu.
Greene correu pelo corredor. "Para o abrigo, agora—!"
Mas a energia foi cortada antes que ele chegasse à porta. E então veio uma nova explosão, bem mais perto.
Através da janela quebrada, Frank assistia em silêncio atônito enquanto um mercado na rua desaparecia em chamas.
Civis gritando corriam em todas as direções. Membros e corpos viravam para o céu como bonecas descartadas. O cheiro de carne assada e combustível o atingia como uma onda.
Outra onda de bombas caía, mais próxima agora. Telhados desabavam. O hospital de campanha desaparecia entre os escombros. Carcaças flamejantes colidiam contra a rua.
E ainda assim, os bombardeiros continuavam vindo.
Frank cambaleou para trás, segurando a moldura da janela para se equilibrar. A cidade tinha desaparecido.
Bairros inteiros viraram poeira. Ruas se partiram como falhas geológicas. Incêndios se espalhavam com velocidade incomum, rastejando por tijolos, madeira e pele como napalm líquido.
Um destacamento da polícia liberiana, mal treinado, dispersou-se em pânico enquanto seus quartéis eram achincalhados.
Uma catedral próxima, uma imitação gótica da fé europeia no solo africano, desmoronou como areia.
Frank sentiu os joelhos fraquejarem.
Não era um ataque comum.
Era uma mensagem.
Uma punição.
Ele pegou o rádio e girou o dial. Nada além de estática. Todo o espectro estava sabotado.
"Frank!" Greene gritou do corredor. "Frank, eles—"
A estrutura tremeu violentamente. Telhas do teto desabaram. Uma viga suporte se partiu e caiu sobre a mesa de reuniões. Greene desapareceu entre fumaça e escombros.
Frank rastejou até a porta, tossindo, com os ouvidos zunindo e o rosto coberto de fuligem. Viu pessoas gritando no pátio, com chamas lambendo suas roupas, olhos arregalados de pavor animal.
A próxima explosão veio logo atrás dele. A parede rachou. Luz e calor entraram, uma onda de fúria branca-alaranjada.
Frank cambaleou para frente, ensanguentado, zonzo. Chegou aos degraus externos, mancando em direção ao portão do consulado, arrastando um pé como um cadáver tentando ainda se erguer.
Olhou para o céu e viu outra formação de bombardeiros. Uma segunda onda.
E atrás deles?
Uma terceira onda….
O próprio céu pertencia à Alemanha.
Frank caiu de joelhos. Gritos de crianças, o uivo de homens e mulheres queimando, o estalo apocalíptico de fogo e aço—
Ele sussurrou, para ninguém em particular:
"Deus nos ajude…."
A lareira crepitava suavemente, mas a sala estava fria. Paredes de pedra, vigas de madeira escura e lustres de ferro antigo davam ao estudo a solemnidade de uma catedral.
Uma única janela oferecia vista às montanhas nevadas, mas Bruno não olhava para elas.
Ele observava o céu.
Uma projeção do tamanho de uma parede brilhava na extremidade oposta do escritório, com imagens de satélite montadas em camadas granularmente ilegíveis de infravermelho.
A cidade de Monrovia, outrora viva, agora parecia um terreno cheio de crateras.
Bloco por bloco, setor por setor, a capital costeira tinha sido apagada.
A poeira ainda subia dos restos esqueléticos do distrito governamental.
Sobre sua mesa, uma pilha de telegramas recentes, cada um condenando.
Protestos do Ministério da Commonwealth contra atrocidades.
Requisição da República Francesa por um tribunal de crimes de guerra.
Enviado americano chamando a Alemanha de "ameaça ao mundo civilizado".
Bruno nem olhou para eles.
A declaração que redigira há três dias, antes mesmo dos bombardeiros partirem de Tirol, repousava dobrada sob um peso de papel prateado.
Ele já tinha decorado tudo. As frases não eram elegantes nem diplomáticas. A história não precisaria da ilusão de decoro. Precisaria da certeza de aço.
Mas nesta noite?
Nesta noite, não era para a história.
Bruno recostou-se na velha poltrona de couro. Seu ranger era o único som além do suave tilintar de sua caneca na mesa.
Ele levantou a cerveja, ainda fria, e deu um longo gole. A espuma tocou seu lábio superior como um sussurro.
Então, seu sorriso se alargou.
Falou alto, não para ninguém, só para si mesmo:
"Quando gasei Belgrado, o mundo ficou silencioso de horror.
O peso de minhas ações falou por si... Quando queimei quatro cidades japonesas até o chão, disseram que era um mal necessário para acabar com uma guerra que já durava tempo demais. Agora… agora eles empinam o peito e protestam contra Monrovia?"
Ele riu uma vez, com arrogância.
"Hipocrisia… teu nome é Democracia."
"Eles não dão a mínima para Monrovia. Ou para as pessoas que morreram lá. Eles só se importam que ousei responder à sua provocação com força esmagadora. Depois de quase quarenta anos assim, você pensaria que já seriam capazes de entender meu caráter."
A luz do fogo piscava em seu rosto, projetando longas sombras sobre os mapas de guerra antigos atrás dele, África, Europa, Atlântico.
Seus olhos não piscavam. Permaneciam fixos nas ruínas fumegantes de uma capital a milhares de quilômetros de distância, agora silenciosa.
Ele deu outro gole.
E então, começou a ensaiar silenciosamente sua declaração pública… Não para mudar o que aconteceu, mas para garantir que o mundo se lembrasse de quem tinha feito isso.