
Capítulo 643
Re: Blood and Iron
Berlim se movia com um ritmo próprio, os trens rugiam como artérias de aço, ministros transitavam pelos halls de mármore, e sob a grande cúpula do Reichstag, Eva von Zehntner se sentava em contemplação tranquila de mapas que poderiam decidir o destino de milhões.
Ela vestia um vestido elegante nas cores da Casa Zehntner, feito sob medida, não por ostentação, mas para mostrar que era filha do pai.
Na sua frente, o príncipe Wilhelm, seu marido, e neto do Kaiser, examinava cabos diplomáticos, com as sobrancelhas franzidas, o uniforme impecável.
Ele parecia um verdadeiro príncipe prussiano. Mas ao lado de Eva, parecia um soldado diante de uma tempestade.
"De Gaulle está pressionando novamente", Murmurou Wilhelm, deslizando a última comunicação diplomática sobre a mesa.
"Patrulhas francesas perto de Namur, exercícios de artilharia em Metz. Eles não estão nem disfarçando mais. Os Países Baixos estão em pânico."
Eva não precisava ler. Ela já tinha lido. Duas vezes.
"Só a Bélgica aumentou as ordens de armas em trinta por cento neste trimestre", ela afirmou. "Principalmente armas leves anti-carro e munições. Estão rearmando o mais rápido que podem, sem assustar a própria população."
"Os holandeses também", acrescentou Wilhelm. "Mas mais discretamente. Rádios, reservas de combustível, acúmulo de mantimentos... Querem que estamos por perto, mas não dentro."
"E a França deixou claro", disse Eva, cruzando as mãos, "que qualquer presença militar na Bélgica, mesmo para treinar seus guardas de fronteira, será vista como um casus belli."
Wilhelm bufou. "De Gaulle está fazendo bravata. Ele sabe que destruiríamos Paris antes do segundo copo de Bordeaux."
"Esse não é o ponto." A voz de Eva era calma, precisa, mais cirúrgica do que repreensiva.
"Os franceses contam com a nossa contenção. Acham que o pai não arriscaria outra guerra por uma incursão menor, que ele está demasiado focado no sul, na Mittelafrika."
Wilhelm olhou pela janela, onde a sombra de uma ave de patrulha Zeppelin passava sobre a cidade como um presságio lento e oculto.
"E eles estão certos?" perguntou ele, em voz baixa.
"Não", respondeu Eva. "Eles não estão. Mas também são estúpidos."
Ela se levantou e foi até o painel de projeções, acionando-o. Imagens de satélite, cortesia do recém-estabelecido comando orbital do Reich, e da rede de satélites.
Durante o último ano, a Alemanha lançou dezenas — talvez centenas — de satélites ao espaço.
Num ritmo que causou preocupação significativa entre outras nações.
Porém, a tecnologia alemã estava muito avançada para que países como França, Estados Unidos e Grã-Bretanha entendessem exatamente com o que estavam lidando.
A Alemanha, mais precisamente Bruno, mentia descaradamente para a comunidade internacional, afirmando que esses satélites eram para pesquisa de espaço profundo, para entender o universo ao redor deles.
Porém, Bruno estava mais interessado no que acontecia na Terra do que lá no infinito.
Esses não eram sondas, mas satélites militares. Tudo — reconhecimento, comunicação e até posicionamento global. Agora, isso era uma capacidade do Reich.
Por causa disso, conseguiam detectar facilmente movimentos de tropas francesas, fortificações nos Ardennos e cargas de trilhos fazendo o deslocamento para leste.
Eva mostrou as imagens copiadas sobre a mesa, com um suspiro pesado.
Depois, sobreposições de artérias econômicas do Reich: carvão belga, eletrônicos holandeses, plataformas de petróleo do Mar do Norte agora conectadas aos depósitos de combustível naval de Hamburgo.
"Acham que o Reich ainda é o antigo império", continuou Eva, "um monólito com medo de pressionar demais os vizinhos. Mas eles se esquecem, essa não é a época de Metternich. Meu pai acabou com ela com fogo."
Wilhelm olhava para ela com uma mistura de admiração e cautela, a mesma expressão que muitos já tinham dado ao pai de Eva.
"Então, o que dizemos a Bruxelas?"
Eva virou, com os olhos afiados.
"Dizemos que honraremos nossas garantias, nossa soberania intacta. Mas qualquer ameaça aos Países Baixos é uma ameaça ao nosso comércio, à nossa segurança e ao nosso orgulho. Eles não são nossos vassalos… mas estão sob nossa proteção."
"E Haia?"
"A mesma coisa."
"E a França?"
Eva sorriu, fria e composta.
"A França pode continuar traçando linhas na areia. Mas quando a maré subir… as linhas desaparecerão."
O sol do fim da tarde filtrava-se pelas janelas drapeadas, lançando um brilho laranja opaco sobre a longa mesa de carvalho.
O gabinete reunido em plenário, ministros da defesa, Relações Exteriores, Inteligência e Fazenda, todos com pastas fechadas e expressões cerradas.
O general Charles de Gaulle estava na cabeceira, com os olhos fixos no mapa pregado na parede do fundo.
Cada marca confirmava deslocamentos navais alemães, portos comerciais silenciados e anomalias no radar perto do Canal da Mancha.
As fronteiras da França estavam acesas como a borda de um cigarro ligado, brilhando, pronto para queimar.
"Ignoraram o ultimato", disse o ministro das Relações Exteriores, Bérenger, com a voz seca. "A Bélgica abrigava conselheiros alemães sob o pretexto de 'cooperação logística'. Ainda não há tropas estacionadas, mas o rastro é inegável. Berlim nem sequer nos deu o mínimo de cortesia de uma resposta."
De Gaulle não se moveu. As pontas dos dedos estavam encostadas em sua boca, imóveis.
"Estão blefando", disse o almirante Drouet, chefe da Marinha Francesa. "Ou… tratam isso como um blefe. E por que não deveriam?"
Silêncio tomou conta da sala. Todos entendiam o que ele quis dizer. França tinha alertado a Alemanha para não atuar nos Países Baixos.
A Alemanha respondeu fazendo exatamente isso, sem discurso, sem anúncio, sem diplomacia performática.
"Desmontaram a rebelião na Mittelafrika em quatro dias", continuou Drouet. "Quatro. Não com uma campanha prolongada, nem com tanques. Com bombardeiros de altitude, munições cluster termobáricas e auxiliares locais no chão. Nem deu tempo de uma cobertura na imprensa se virar. Quando os jornais realmente notaram, Monrovia virou crateras."
"Não temos meios de interceptar suas plataformas de alta altitude", disse o general Lanrezac, da força aérea, derrotado. "Nossos melhores caças não chegam até elas. Nosso radar não consegue vê-las. Estamos praticamente cegos."
"Mas, certamente, os americanos—" começou um ministro.
"Os americanos estão com medo", interrompeu De Gaulle de finalmente se virar. Sua voz cortou como um chicote, refinada e furiosa. "Viram o que aconteceu na Libéria. Viram o que aconteceu quando o Reich decidiu exibir sua Frota de Alto Mar. Eles estão segurando a paz com as unhas, porque sabem que o Reich quer que eles continuem assim."
Um silêncio lento e gelado se instalou.
De Gaulle se inclinou sobre a mesa, com as mãos apoiadas, a voz baixa e firme.
"Não se trata mais de trocar tanques por tanques. Bruno von Zehntner jogou fora as velhas regras. Ele não negocia. Não faz pose. Não avisa. Fala com fogo. E, neste momento, não temos nada que possa queimar com mais intensidade."
Ele levantou o rosto.
"Vamos ganhar tempo. Vamos construir o que for preciso. Protegendo nossos céus. Endurecendo nossos corações. Porque, saiba, a guerra está chegando. E, se não estamos prontos para matar deuses, seremos escravos de um."