Re: Blood and Iron

Capítulo 630

Re: Blood and Iron

Os motores zumbiam como uma canção de ninar sob seus pés, profundos, uniformes e inabaláveis.

A 9.144 metros de altitude, o mundo lá embaixo deixava de importar. Desertos, oceanos, fronteiras, tudo desaparecia sob um manto de nuvens, como se o próprio mundo tentasse esquecer suas divisões.

Bruno estava reclinado na cabine traseira de sua aeronave pessoal, com as pernas cruzadas, os dedos delicadamente around um copo de cristal com conhaque envelhecido de forma refinada.

Um toca-discos embutido na parede da cabine sussurrava o Cameo de Siegfried, de Wagner, pelas caixas de som luxuosas. Sem ajudantes. Sem Conselho de Guerra. Sem crises. Apenas ele e o céu.

Deixou a cabeça descansar contra o encosto de couro polido, com os olhos semi cerrados, e suspirou.

Sessenta.

Quase sessenta.

Ele faria sessenta em, não menos do que quatro anos.

Não havia percebido isso até esta viagem, a consciência crescente, quase sufocante, de que os anos agora estavam acelerando.

Onde antes se sentia como uma força imensa forjada na juventude, agora sentia uma erosão sutil nos ossos. Não fraqueza, não, ainda não.

Mas um aviso. Como rachaduras finas na armadura de uma grande estátua.

Quão rápido tudo havia mudado.

Pensou nos homens que havia sepultado, não apenas soldados, mas amigos, camaradas, e até inimigos cujos mortes haviam gravado capítulos inteiros de sua alma.

Para cada tratado assinado, houve uma batalha que não apareceu em mapas. Para cada linha redesenhada em um continente, mil vidas foram apagadas para marcar o traço na sangue.

E para cada trono estabilizado, ele retirava o pino de uma nova granada, em algum outro lugar, bem longe, fora do alcance. Essa era a noção do preço da ordem. O peso de uma coroa feita de ferro e cinzas.

Nunca mentiu para si mesmo sobre o custo. Somente outros faziam isso.

O mundo estava mudando, sim. Mas tinha sangrado para fazer isso. Sangrou para que fosse assim.

Ao olhar pela janela, saboreando uma taça de vinho, refletiu sobre a vida que vivera antes desta.

Aquela em que morrera aproximadamente na mesma idade que tem agora.

Amargurada, solitária, assassinada nas ruas de uma cidade que não lembrava mais sua própria origem.

Uma nação que já não refletia o povo que a construiu.

Nessa vida, esforçou-se para evitar que essa realidade acontecesse.

Para impedir a ira e a loucura de gerações passadas que mergulharam o mundo no caos.

E, ao fazer isso, o mundo se reformulou ao toque de seus dedos. Mais rápido do que jamais poderia imaginar. Ferrovias cruzaram desertos.

Impérios que resistiram por séculos foram destruídos como porcelana. Velhos reis agora eram seus pares. E nações que zombavam dele antes, agora buscavam alianças com humilhação.

E ainda…

Ele se perguntava quanto tempo teria ainda para moldar seu destino.

Ele bebe seu conhaque lentamente; o calor se espalha no peito como fogo numa lareira.

A ideia da morte deixou de assustá-lo há muito tempo. Desde Hamburgo. Desde que acordara num corpo mais jovem em um mundo mais frio.

Não, a morte não era o medo.

O que assustava era a obsolescência.

Assistiu às nuvens passarem sob ele, um tapete branco desenrolando-se em direção à Europa. O sol começava a se pôr por trás delas, lançando raios derretidos ao longo da ponta da asa.

Essa seria sua última guerra. Sentia isso no sangue.

Não porque o mundo encontraria paz, não, sempre haveria luta, mas porque teria dado o último de sua força para vencê-la.

Esse próximo colapso seria definitivo, para o mundo liberal, e para o homem que tinha sobrevivido tanto aos inimigos quanto aos sonhos.

Sua atenção foi para a cadeira vazia à sua frente. Heidi teria adorado essa vista.

Ela sempre preferiu ver o mundo de cima. Dizia que fazia a mesmice dos políticos parecer formigas brigando por migalhas. Ele sorriu suavemente à lembrança.

Sinto saudades dela.

Também sentia a falta dos filhos, embora estivessem se tornando suas próprias lendas agora.

Fez seu dever, criou-os para sobreviver a um mundo que não foi feito para os frágeis. Mas que tipo de mundo eles herdariam após a próxima tempestade?

Bruno exalou, o hálito formando névoa na borda do copo de vidro gelado. Girou o conhaque suavemente.

"Mais dez anos", murmurou para si mesmo. "Só isso quero."

Mais dez anos para terminar o mundo que está construindo. Mais dez anos para consolidar a paz, ou a ordem, que virá após o caos.

Mais dez anos para garantir que, quando finalmente largar a espada, não haja necessidade de outro pegá-la.

O interfone apitou. A voz do piloto veio calma e controlada.

"Herr von Zehntner, estamos entrando no espaço aéreo italiano. O tempo estimado até Tirol é de pouco mais de duas horas."

Bruno pressionou o botão do interfone com o polegar.

"Muito bem. Mantenha a altitude. E informe à Torre de Controle que não desembarcarei imediatamente... posso ficar a bordo para descansar após o pouso."

"Entendido, senhor."

Ele se recostou novamente, fechando os olhos por um instante. Do lado de fora, o entardecer escurecia.

Em algum lugar lá embaixo, os Alpes começavam a pegar os últimos raios do sol, seus picos cobertos de neve brilhando como as espinhas de gigantes adormecidos.

Questionou-se se ainda estariam lá daqui a um século.

Nações surgem e desaparecem como marés. Bandeiras mudam. Cidades queimam e são reconstruídas com nomes novos. Mas as montanhas permanecem. Não têm lealdade. Nem bandeira.

Um dia, até Berlim pode se tornar pó. Tirol, também.

E tudo o que construiu, as alianças, as vitórias, a filosofia de vontade de ferro e ordem disciplinada, pode ser substituído por algo mais suave, mais frágil.

Seria isso progresso? Ou um colapso disfarçado de paz?

Não tinha mais certeza.

Alguém ainda lembraria seu nome?

Recordariam as guerras que travou, os reis que quebrou, os impérios que ergueu?

Ou ele se tornaria apenas mais um entre tantos? Um título, um espectro, uma lição?

Acabou seu drinque e colocou o copo na bandeja de prata ao seu lado. A cabine escureceu automaticamente, passando para um tom noturno frio. O silêncio voltou.

Não era paz — Bruno não era tolo o bastante para fingir que a tinha encontrado, mas o silêncio era suficiente.

Pelo menos por enquanto.

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