Re: Blood and Iron

Capítulo 634

Re: Blood and Iron

O suave murmúrio de música distante ecoava do grande salão abaixo, abafado por vidro grosso e cortinas de veludo.

No terraço de pedra lá em cima, acima do iluminado Olympiastadion, o ar noturno era fresco e revigorante, carregado com o aroma de flores de verão em plena floração.

As luzes de Berlim se estendiam como um mar de estrelas, pisca-pisca de orgulho, um império brilhando ao calor de seu próprio triunfo.

Bruno permaneceu imóvel, com uma taça de vinho na mão, silhoueta contra a grandiosidade que ajudara a construir.

Ao seu lado, Erwin, já não mais o garoto entusiasmado que costumava perseguir instrutores de esgrima com uma espada de madeira, mas um homem endurecido pela indústria, pelas responsabilidades e, agora, pela preocupação de pai.

Erwin girava o vinho escuro na taça, com a voz baixa.

"Sabe… às vezes eu queria não ter saído da academia. Que você não tivesse permitido. Meu filho… vai lutar na próxima guerra. Não era esse o propósito de eu não ter servido? Para que algo assim não fosse necessário?"

Bruno deu uma longa gole, deixando o silêncio pairar.

"Seu filho fez a escolha dele," ele finalmente falou com calma. "Tentei dissuadi-lo. Mas ele sentiu o chamado do dever. Ele trocou sangue espanhol pelas medalhas no peito. E viveu para contar a história. Isso é mais do que muitos podem dizer."

Erwin franziu a testa, a taça tremendo levemente na mão. Virou-se para o pai.

"Então coloque-o atrás de uma mesa, pai. Dê a ele um cargo especial, deixe que cuide da logística ou da inteligência. Algo seguro. Algo que preserve a vida dele."

O olhar de Bruno se tornou firme. Sua voz não se elevou, mas carregava ferro.

"Entendo como você se sente, Erwin. De verdade, entendo."

"Como assim?" Erwin insistiu, não com desrespeito, mas de forma sincera. "Você nunca precisou temer que eu voltasse da guerra. Nunca teve que temer perder um filho."

Bruno arregalou a mandíbula. Sua resposta veio fria e pesada, como uma lâmina desembainhada.

"Eu já temi perder dez mil filhos, Erwin. E perdi muito mais do que isso. Cada homem que trabalhou sob meu comando, desde o início, era como um filho para mim. E vi mais deles morrerem do que consigo suportar na memória."

Ele se virou para encarar Erwin de frente agora, olhos afiados como aço.

"Acredite quando digo que entendo esse medo melhor do que qualquer um vivo. Mas não vou manchar a memória deles dando tratamento preferencial ao meu sangue. Eles não tiveram esse luxo. E assim, também não terá Erich."

Erwin não disse nada, apenas olhou para o horizonte enquanto as gêmeas do Olympiastadion começavam a tocar suavemente, anunciando o fim da terceira hora do gala.

A voz de Bruno suavizou só um pouco.

"Todos temos nosso dever. O seu é aqui, construindo o futuro. Indústria, infraestrutura, prosperidade. O meu e do Erich… é lá fora, mantendo os lobos afastados."

Mais um momento passou silencioso e solene entre eles. Então, Erwin assentiu lentamente.

"Só… não deixe que ele morra, pai..."

Bruno voltou seu olhar para o horizonte da cidade.

"Farei o que puder. Mas já parei de fazer promessas para fantasmas."


Na parte inferior, música e risos preenchiam o pavilhão da vila olímpica decorada.

Oficiais de todo o Reich e seus aliados interagia com dignitários estrangeiros, campeões olímpicos e a elite juvenil da Europa.

O clima era de comemoração, dourado de orgulho e vinho. As bandeiras do Reich balançavam suavemente na brisa sob tochas e lanternas elétricas elegantes.

No meio deles, estava Erich von Zehntner, Oberleutnant, rodeado por jovens oficiais e veteranos.

Alto, vestindo sua farda de desfile com precisão, levantou um canecão de cerveja espumante aos lábios enquanto outro brinde era feito à campanha na Espanha.

Cruz dourada no peito reluzia, conquistada não por favor, mas pelo esforço na batalha. Sua gola exibia insígnias novas, uma promoção a Oberleutnant.

Ninguém duvidou disso. Não depois do que ele fez na Espanha.

Ele ria facilmente, com confiança, parecendo a própria cópia jovem de Bruno, até a cicatriz de duelo quase invisível que curva do seu pômulo até a mandíbula.

Presente da mesma academia onde Bruno treinara um dia, e um distintivo de honra entre a elite.

Os olhos de Erich se dirigiram ao lado para o terraço onde seu pai e avô estavam.

Ele levantou o caneco em um gesto de saudação, um aceno silencioso, cheio de entendimento, para ambos, antes de voltar à conversa enquanto seus amigos explodiam em risadas novamente.

No terraço, Erwin observava a cena com orgulho e um pouco de desespero silencioso.

Bruno quebrou o silêncio, com a voz mais suave agora, mas firme como uma rocha.

"Mesmo que eu pedisse ao Erich que assumisse uma mesa, ele recusaria. Não abandonaria seus homens para lutar sem a presença dele. Não é o jeito dele."

O olhar de Bruno permaneceu na celebração que brilhava abaixo.

"Esse é o tipo de homem que você criou, Erwin."

Um longo silêncio se estendeu entre eles, carregado de verdades não ditas e peso de gerações.

A respiração de Erwin tremeu levemente ao responder.

"Que Deus tenha piedade dele… se o mundo não tiver."

Sorrindo de lado, Bruno revelou como uma lâmina ao ser retirada da bainha.

"Você deveria estar rezando pela misericórdia de Deus para quem conseguir matar o garoto," ele disse, com a tonalidade dura, como ferro. "Porque minha ira é quase tão grande quanto a dele… e muito mais fácil de ser acionada."

As palavras permaneceram ali, pesadas e reais, como um eco de reis antigos e deuses pagãos da guerra, de pais que enterraram filhos e destruíram reinos em retaliação.

Erwin o encarou, meio arrefecido, meio aliviado. Bruno não piscou.

O brilho dos fogos de artifício iluminou seus olhos, mas o fogo dentro deles era mais antigo, primordial, fervente, eterno.

Sem exagero, suas palavras eram verdadeiras. Desde o século anterior, quando começou a Grande Guerra, há vinte anos, Bruno acumulava armas de destruição em massa por dois motivos.

Um era como uma última esperança, para destruir o mundo com o Reich caso o orgulho de suas bandeiras fosse manchado.

E o outro, como retaliação contra qualquer nação que ousasse tocar na coisa mais preciosa que ele possui nesta vida.

Sua família…

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