Re: Blood and Iron

Capítulo 633

Re: Blood and Iron

A Vila Olímpica naquela noite reluzia como um segundo Berlim sob as estrelas, uma maravilha de engenharia imperial, onde cada avenida era iluminada não por chamas nem carvão, mas por torres de luz pura.

Música flutuava de bandas de metais polidos, orquestras tocavam entre pavilhões, e fontes dançavam ao ritmo do triunfo.

Atletas se misturavam à realeza, generais e dignitários em uma grande celebração da vontade humana feita matéria.

Bruno estava à beira da praça central, com um copo na mão, observando silenciosamente a festa se desenrolar.

Ele via delegações de nações distantes admirando o ar limpo e vibrante, livre da poluição que ainda sufocava Londres e Nova York.

Viu painéis solares integrados aos telhados, estátuas de bronze de atletas que brilhavam por dentro, e pessoas de todos os idiomas murmurando a mesma palavra:

"Impossível."

Ele sorriu.

"Aproveitando-se, pai?" veio uma voz familiar.

Ele se virou. Lá estava ela, Eva, radiante em um vestido de seda branca com bordados de ouro, com sua postura nobre inconfundível.

A princesa do Reich alemão, esposa do príncipe Guilherme, o neto amado do Kaiser. Seus olhos azul gelo brilhavam com o mesmo inteligência afiada e graça astuta que ele conhecia desde criança.

"Diria que estaria mentindo se dissesse que não estou," ele respondeu, oferecendo seu braço. "Mas, para ser sincero, prefiro este momento muito mais do que os discursos e eventos formais."

Eva deu uma risadinha e segurou seu braço. "E, mesmo assim… você sempre consegue se superar a cada vez. Berlim chega a ficar sem fôlego."

Juntos, caminharam lentamente pela praça, acenando cordialmente a atletas e convidados que passavam.

"Você lembra," ela disse, olhando para ele, "da primeira Olimpíada que organizamos? A de 1918?"

"Como poderia esquecer?" Bruno respondeu. "Você e eu… no palco. Esgrima."

"De saia!" ela riu. "Eu tinha nem mesmo dezoito anos. Disseram que era feio. Que uma jovem não tinha lugar no esporte."

"E, mesmo assim," Bruno sorriu, "você desviou meu ataque tão rápido que quase chorei no palco. Depois daquilo, o mundo mudou."

Ela sorriu com calor e orgulho. "Você me contou depois, 'Elegância não é fraqueza. Graça é uma arma por si só.' Carrego isso comigo até hoje."

Eles pararam ao lado de uma grande piscina de reflexão, cujo surface refletia a águia dourada do Reich.

"Essa geração de meninas… elas praticam esgrima, ginástica, tiro com arco, dressage… por sua causa," Bruno disse. "Porque você provou que todas estavam erradas."

Os olhos de Eva suavizaram, nublados com memória e orgulho. "Porque conseguimos, pai."


Enquanto permaneciam perto da piscina de reflexão, desfrutando do brilho dourado das luzes e das lembranças, um pequeno grupo de delegados internacionais se aproximou.

Com crachás diplomáticos nas lapelas sob medida, câmeras penduradas em tiras de couro, seus sorrisos oscilando entre admiração e reverência.

Um, um homem alto com sotaque americano e bochechas coradas pelo vinho recente, acenou educadamente com a cabeça.

"Desculpe a interrupção, príncipe von Zehntner… Vossa Alteza," ele cumprimentou Eva com sincera deferência. "Mas nos permitiria a honra de tirar uma foto?"

Bruno inclinou a cabeça, com sobrancelhas levantadas, de bom humor. "Certamente. E posso perguntar qual ocasião inspira tamanha ousadia?"

Outro homem, um delegado francês de cabelos prateados e expressão pensativa, deu um passo à frente.

"Não é sempre que se conhece a primeira mulher a esgrimir nos Jogos Olímpicos," ele disse.

"Mesmo que de forma não oficial."

Eva piscou, surpreendida por um instante. "Vocês me adoram, hein? Nunca competi oficialmente, só estive ao lado do meu pai, anos atrás."

O americano deu uma risada. "E, mesmo assim, você acendeu a tocha, princesa. O que fez inspirou gerações. Minha filha agora pratica esgrima por causa daquela apresentação. Ah, metade dos programas femininos do mundo começaram com garotas que assistiram a esse espetáculo."

Bruno olhou para ela, com um brilho orgulhoso e divertido nos olhos. "Viu? O legado vai se construindo, independentemente de o papel oficial reconhecer ou não."

Eva sorriu com humildade e graça. "Então, acho que não tenho desculpa para recusar uma foto."

Os fotógrafos começaram a montar rapidamente, alinhando o casal contra o fundo de mármore do grande arco central, onde estátuas da vitória alada vigiam.

Bruno se ergueu com postura, as mãos tranquilamente atrás das costas. Eva descansou uma mão suavemente no seu antebraço, com uma postura radiante, a personificação da elegância e força alemãs.

Enquanto as lentes disparavam flashes, não era apenas uma foto.

Era um retrato do próprio legado, do arquiteto de uma nova era, e da filha que ajudou a moldar sua alma.


O Pavilhão das Nações, um anexo de mármore construído ao lado do recém-revitalizado Olympiastadion, vibrava com conversas e copos tilintando.

Aqui, sob colunas elevadas e luminárias douradas, delegações comerciais e ministros da economia se misturavam, todos conscientes de que aquilo era mais do que um evento olímpico.

Era uma cúpula econômica disfarçada de pompa, e em seu centro estava Erwin von Zehntner.

Alto, de testa limpa e postura composta, com uma confiança sem esforço, Erwin carregava a marca inconfundível de seu pai, embora sem a expressão assombrosa e de ferro que Bruno exalava após a guerra.

Seu terno escuro sob medida trazia o brasão da família em bordado sutil. Um homem de paz, de indústria.

Com champanhe na mão e charme de sobra, ele se inclinou por uma mesa de mármore baixo, falando em português fluente a um pequeno grupo de ministros brasileiros.

"Estamos prontos para ajudar a eletrificar suas ferrovias do sul até 1936. O Reich fornecerá os transformadores, turbinas e componentes da rede a preços reduzidos, em troca de uma exclusividade de dez anos na exportação de terras raras. É uma parceria... não colonialismo. Não queremos suas terras, senhores. Queremos seu sucesso."

Os brasileiros trocaram olhares intrigados. Um deles, um ministro mais jovem com visão de modernização, apertou a mão de Erwin.

"Você parece mais um construtor de impérios do que um comerciante."

Erwin riu, com humildade cortês. "Impérios vêm e vão. Infraestruturas permanecem."

Logo além da conversa, plantas do Vila Olímpica estavam expostas sobre mesas de vidro, anotadas com a assinatura de Erwin.

As estradas, a distribuição de energia, os alojamentos dos atletas, até as cadeias de suprimentos culinários, tudo levava suas marcas.

Toda a estrutura tinha sido otimizada com a rede logística que ele mesmo criou à frente do Grupo Zehntner, um gigante de aços, eletricidade e transporte.

De um canto da sala, um enviado britânico cochichou ao seu colega americano:

"Ele não é apenas um filho de herói. O rapaz é um magnata. Entre ele e a Siemens, eles transformaram Berlim no centro do mundo."

"E se eles colocarem uma ferrovia sequer na América do Sul," o americano murmurou, "Washington vai ter que começar a prestar atenção."

Erwin se virou rapidamente para reconhecer seu pai ao longe, cercado por admiradores e atletas estrangeiros.

Ele esboçou um sorriso discreto.

Bruno comandava impérios de homens.

Erwin comandava impérios de máquinas.

E, juntos, construíram um Reich que não podia ser simplesmente derrotado com armas ou diplomacia.

Era preciso superá-lo na construção.

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