
Capítulo 617
Re: Blood and Iron
Os salões de mármore do Palácio de Berlim ecoavam com a cadência marcada das botas sobre o pedra enquanto o rei Boris III da Bulgária marchava em direção à sala de conferências.
Ele apresentava uma figura afiada em seu uniforme sob medida, mas nada era demonstrativo em sua postura; era um homem que já tinha decidido muito antes de pisar no solo alemão.
No interior, o Kaiser Wilhelm II levantou-se de sua cadeira com a grandeza natural de um monarca habituado a ser o centro das atenções em qualquer ambiente.
Bruno ficava ao seu lado, com as mãos descontraidamente entrelaçadas atrás das costas, a expressão a típica máscara de avaliação fria.
"Majestade," cumprimentou Wilhelm, apertando a mão de Boris firmemente. "Uma surpresa agradável."
Boris permitiu-se o mais breve sorriso. "Talvez não seja tão surpresa assim, Majestade. O mundo está se inclinando para outra tempestade. Não pretendo cometer o mesmo erro que meu pai."
Os olhos de Bruno se estreitaram levemente, examinando-o. "Quer dizer, esperar demais para escolher um lado, e acabar ficando do lado errado quando os tiros cessarem."
Boris encontrou seu olhar sem hesitar. "Sim. Mas lembro de mais do que isso." Fez uma pausa, quase ponderando se deveria falar mais, depois prosseguiu.
"Lembro-me da sua marcha até Sofia. O tribunal do meu pai temia a ruína, a humilhação… e ainda assim vocês trataram nosso povo com dignidade. Ensinaste disciplina nas ruas, proibiste saques, puniste abusos. E, quando o tratado foi assinado, recordo-me de você dizendo—"
Sua voz diminuiu, quase palavra por palavra: "Nosso povo não guarda rancor, nem somos de fato inimigos além das circunstâncias, e isso é a coisa mais triste de todas."
"Ainda consigo ver isso," disse Boris em voz baixa. "A cidade prendia a respiração, esperando que as botas de um inimigo a destruíssem. Mas seus homens marcharam com disciplina, falaram com cortesia. Mães ousaram mandar seus filhos ao mercado. Ninguém acreditava que uma coisa assim fosse possível na derrota."
Bruno inclinou levemente a cabeça, não por orgulho, mas em sinal de reconhecimento. "Eu quis dizer cada palavra naquela época. Ainda digo agora."
Wilhelm olhou alternadamente para eles, percebendo a tensão subjacente. "Então, talvez, o passado torne o presente mais fácil de entender. Você quer se juntar aos novos Centrais? "
Boris assentiu. "Antes que seja tarde demais. Antes que a Bulgária volte a ficar à mercê daqueles que querem dividí-la."
Bruno deu um passo à frente, com tom equilibrado, mas firme. "Então vamos garantir que a história não se repita. Desta vez, estaremos juntos desde o começo."
Boris estendeu a mão. Bruno a apertou sem hesitar, um gesto deliberado e raro que falou mais do que qualquer tratado assinado.
---
Os últimos ajudantes tinham se retirado, deixando apenas o som sutil do relógio de gabinete. Pela janela alta de um escritório particular, a luz da primavera berlinense banhava o cômodo em um dourado pálido.
Boris ficou perto da escrivaninha, mãos apoiadas na borda entalhada. "Me diga sinceramente, Bruno," afirmou enfim, "você confia em mim? Ou sou apenas mais uma peça no seu tabuleiro?"
Bruno não levantou os olhos do decantador de onde servia a bebida. "Peças não têm vontade própria, Boris. Você tem vontade, tem ambição. Isso te torna perigoso."
A testa de Boris se franziu. "Para você?"
"Para qualquer um que subestime você," respondeu Bruno, deslizando um copo na direção dele. "E eu não cometo esse erro."
Boris aceitou a bebida, estudando-o. "Então, somos aliados de verdade?"
Bruno encontrou seu olhar de forma firme. "
— Eu não distribuo confiança como medalha de parade. Mas respeito a determinação, e respeito a memória de homens que lutaram bem, mesmo do outro lado. Você escolheu seu momento sabiamente desta vez. Fique firme, honre sua palavra, e verá que sou um aliado que não vacila."
Boris bebeu, o ardor do álcool escondendo um leve alivio. "E se eu não fizer?"
A resposta de Bruno foi calma, mas com aço. "Então, vou tratá-lo com a mesma dignidade que mostrei ao seu povo em Sofia… pouco antes de destruí-lo."
Por um instante, ambos ficaram em silêncio. Depois, Boris assentiu devagar, como se aceitasse um contrato selado em algo mais antigo que tinta.
---
Arthur Arz von Straußenburg permanecia tenso na cabeceira da longa mesa de carvalho, o telegrama ainda na mão. Suas palavras lhe pareciam turbilhar na visão, não por causa do álcool, mas por incredulidade.
"Bulgária," disse finalmente, com a voz monótona. "A Bulgária foi admitida às Centrais… enquanto nos dizem para esperar."
O silêncio foi rompido pelo ranger de uma cadeira. O general Farkas, ombros largos e decorado com medalhas, levantou-se com um estalo. "
Uma ofensa calculada, Majestade! Não enviamos homens à Espanha? Não nos posicionamos contra os sindicalistas apoiados pelos franceses enquanto outros hesitavam? Isso é um desdém, nada menos!"
Um murmúrio de concordância percorreu a mesa. Arthur apertou a mandíbula, mas permaneceu em silêncio.
Foi o ministro Zsigmond, seu mais antigo conselheiro político, quem finalmente falou. Sua voz calma, quase cansada.
"Nada tem a ver com nos insultar, Majestade. Não se trata de tropas ou lealdade. A Bulgária e a Grécia se uniram por suas casas reais após a Grande Guerra; fundiram-se no sangue. E a filha mais nova de Berengar, Erika, está noiva do Príncipe da Grécia. Sangue sempre vem primeiro."
O generalbufou. "Então, ficaremos de fora como mendigos por causa de um casamento?"
O olhar de Zsigmond manteve-se firme. "Por causa de vínculos que não se compram com soldados ou ouro. Não somos família para eles. A Bulgária é."
Arthur recostou-se na cadeira, o madeirado rangendo com o movimento. A verdade doía mais do que qualquer insulto.
Seus dedos batiam uma vez na mesa. Linhas de sangue dinásticas... uma moeda antiga que ele não podia cunhar.
Era um lembrete constante de que, apesar de usar a coroa de um reino forjado na ausência de retirada dos Habsburgos, sua legitimidade ainda era assegurada na ponta de uma lâmina e pelo barril de uma arma.
Neste mundo, exércitos venciam batalhas; casamentos conquistavam impérios. E a Hungria não tinha nem um nem outro em abundância.
"Então, teremos que nos tornar indispensáveis de outras formas," afirmou por fim.
O general ainda parecia pronto para cuspir pregos, mas Arthur levantou a mão, silenciando-o.
Sua mente já ideava os próximos passos e como forçar Berlim a abrir suas portas para a Hungria.