Re: Blood and Iron

Capítulo 570

Re: Blood and Iron

Eagles dourados observavam das paredes enquanto Wilhelm II reclinava-se na mesa de reuniões, distraído brincando com a corrente de prata do relógio de bolso.

Do lado oposto, estava o rei Alberto da Bélgica, elegante mas visivelmente tenso, ao seu lado o primeiro-ministro holandês, sério e imperturbável.

Eles haviam vindo a Berlim na calmaria que antecede a tempestade. Ambos sabiam que o que se aproximava era provavelmente mais uma grande guerra. E, desta vez, queriam estar do lado certo desde o começo.

Por trás do silêncio, pairava uma pergunta na mente de todos.

Finalmente, Alberto falou em voz alta.

"Majestade, com perdão pela sinceridade... mas não é incomum que o Herdeiro do Grão-Príncipe de Tirol não esteja presente nessas deliberações?"

Um sorriso suave curvou os lábios de Wilhelm. Seus olhos cinzentos brilhavam com uma piscadela de malícia.

"Ah, meu caro Alberto. Bruno passou três anos enclausurado nos escritórios de guerra de Berlim, respirando poeira de telegrama, governando com caneta-tinteiro e fio telegráfico. Meses mais tarde, supervisionando a transição de Okinawa. Se alguém merece uma temporada de descanso da estratégia, esse alguém é ele."

O primeiro-ministro holandês lançou um tossido, seus olhos lançando um olhar para o grande mapa da Europa atrás da cadeira de Wilhelm.

"Ainda assim... ouve-se muitas histórias. Que ele consegue recitar horários de trens de memória, ou que chorou quando as novas reservas de Tirol chegaram, ainda muito jovem. Que ordenou o bombardeio de Kobe com tal precisão. Sem falar daquele negócio macabro em Belgrado, anos atrás. E agora, enquanto estamos aqui para discutir as questões mais importantes da era, ele está de repente ausente?"

O bigode de Wilhelm tremeu. Ele se inclinou para frente, com as mãos apoiadas na tábua polida de carvalho.

"Senhores, às vezes até homens de aço precisam lembrar que são carne. Se querem que ele permaneça firme na próxima vez que seus filhos forem marchar, é melhor que tenha esses pequenos privilégios agora."

Alberto ofereceu um sorriso ligeiramente forçado e desconfortável.

"Acho... que só fico pensando no que um homem como ele faz nas horas de lazer."

Wilhelm soltou uma risada curta, embora carregada de tensão.

"Também me pergunto."


A bordo do Elsa, nome em homenagem à mãe de Bruno, e também à sua segunda filha. Em algum ponto a oeste da Sardenha.

O sol brilhava sobre águas tranquilas e azuis, dourando cada crista. Gaivotas brancas seguiam preguiçosamente o rastro do iate.

Bruno jazia estendido em uma chaise longue, jaqueta descartada, camisa branca e limpa aberta no pescoço. Um volume de versos repousava de bruços sobre seu peito.

Mesmo aqui, o relaxamento era algo que ele tinha que ensaiar; os ombros às vezes tensos, como se esperasse que um criado trouxesse novas mensagens.

Heidi se aproximou, descalça, pelos tábuas de teca quente, a brisa brincando com a seda pálida de seu vestido.

Ela carregava um pequeno prato com azeitonas e queijo fatiado. Com um sorriso cúmplice, sentou-se na chaise ao lado dele.

"Sua pele está melhorando, sabia? Menos pálida, mais... feito um pirata português."

Bruno bufou uma risada, ainda com os olhos fechados.

"Três anos sob lâmpadas de gás e pilhas de memorandos de guerra, vivendo de café preto e duas horas de sono por noite; isso faz um tremendo mal à pele de um homem."

Heidi traçou um pequeno círculo na parte de trás de sua mão.

"E o coração dele?"

Os olhos de Bruno finalmente se abriram, azuis e claros como o céu acima, enxergando o horizonte. Por um longo momento, não respondeu. Então, apertou delicadamente os dedos dela.

"É por isso que estamos aqui."

Antes, Bruno voltava do front como uma casca vazia do que era antes. Levava meses, talvez anos, para se readequar à vida fora das trincheiras.

Mas esta não era uma guerra que ele havia travado ao lado dos jovens que o seguiam para o combate.

Era uma guerra — a primeira que ele conduzia sem estar lá pessoalmente para apoiar aqueles que mandara para a batalha.

Não era mais o sangue e a lama que o assombravam agora, mas a sensação de não poder suportar aquilo ao lado daqueles que lutaram.

Ainda assim, Heidi percebeu que aquilo era uma melhora nominal em relação aos anos anteriores. E, por isso, ela ficou ao lado do marido, abraçando-o, oferecendo-lhe paz e conforto, com seu calor como um presente adicional.


Wilhelm bateu os dedos novamente, olhando além de Alberto e do holandês, como se visse até os mares quentes do oeste.

Seu rosto mostrou uma mistura complexa de alívio e preocupação particular, conhecida apenas por governantes que encontraram alguém disposto a suportar seus maiores fardos.

"Quando ele voltar, será o mesmo de antes. Talvez essa já seja a tragédia suficiente."

Alberto exalou, lançando um olhar involuntário às janelas como se esperasse ver bandeiras tirolesas nos campos de desfile.

"Talvez... ou justamente por isso a Europa durma um pouco mais segura esta noite."

Uma calma voltou a tomar o salão dourado, apenas o tique-taque de um relógio preenchendo o espaço. Então, Wilhelm se moveu, entrelaçando as mãos sobre a mesa, sua voz baixando para o tom grave e medido que reservava para assuntos de Estado.

"Pois bem, senhores... vamos à questão das garantias."

Ele deu um sinal com o dedo contra um feixe de documentos bem empilhados à sua frente.

"A febre da França piora a cada mês. As purgas de De Gaulle expulsaram todas as vozes moderadas. Sua rearmamentação está adiantada, e a sombra da Entente se estende novamente pelo Canal. Não vou insultá-los fingindo que a Bélgica ou os Países Baixos poderiam se manter independentes se Paris decidir revisitar 1914. Mas espero que, desta vez, levem meus avisos mais a sério do que na última."

Alberto apertou a mandíbula. Olhou para o primeiro-ministro holandês, cuja boca tinha se tornado uma linha fina e descolorida.

"Majestade," disse cuidadosamente, "decidi no momento em que vi de Gaulle produzindo tanques em suas fábricas aos dezenas. Quase duas décadas atrás, ficamos sozinhos, em menor número, resistindo à invasão francesa. Só a Alemanha nos ajudou. Vim honrar essa aliança..."

Wilhelm inclinou a cabeça, uma expressão de surpresa sutil em seus olhos envelhecidos. Mas não foi o único a duvidar.

O primeiro-ministro holandês ficou completamente perplexo com as palavras de Alberto. Não era apenas uma garantia de segurança, era uma declaração de intenção de se unirem às Potências Centrais, ou qualquer que fosse a forma que isso assumisse agora.

A Bélgica havia sido neutra por décadas, até séculos. E agora? Agora eles pretendiam se juntar aos alemães numa guerra contra os franceses, caso os estandartes de de Gaulle empunhassem armas em ataque novamente.

Ele não conseguia acreditar no que ouvira, nem tinha como responder de forma adequada a uma ideia assim.

Wilhelm suavizou as feições, um olhar de respeito surgindo em seu olhar vítreo. Albert e ele não eram amigos próximos, mesmo após a guerra. Eram, na melhor das hipóteses, cúmplices amistosos, mas ainda assim conhecidos.

Porém, agora, na sua velhice, ele via que as recomendações de Bruno haviam dado frutos maiores que a simples vitória.

"Suas palavras significam mais para mim do que você imagina, mas preciso aconselhá-los a permanecer neutros. Não se enganem: se a França, a Grã-Bretanha ou qualquer outro país da Entente invadirem suas fronteiras, estaremos lá para defendê-los, como estivemos em 1914. Apenas pedimos que, desta vez, tomem as precauções necessárias contra uma eventualidade assim."

Alberto não se deixou abalar pelas palavras do Kaiser. Na verdade, sentiu um alívio. Tinha vindo à reunião buscando tornar-se parceiro ativo de uma aliança que certamente entraria em guerra na próxima vez.

Pensava que essa poderia ser sua maior jogada para garantir a sobrevivência da Bélgica. Contudo, o Kaiser ainda pretendia garantir a independência da Bélgica, independentemente do compromisso real com uma aliança militar.

Quanto ao primeiro-ministro holandês, estava ansioso para negociar um acordo semelhante, pois achou que a oferta do Kaiser a favor da Bélgica era bem mais favorável do que inicialmente esperava dessas negociações.

"Você garantiria por escrito a independência da Bélgica e dos Países Baixos?"

"Com ferro e tinta, ambos," prometeu Wilhelm. "As indústrias de Tirol fornecerão créditos e armamentos. Berlim coordenará reservas de combustível, linhas ferroviárias interligadas e até estoques de alimentos pré-posicionados. Vocês não terão que suportar essa carga sozinhos."

Houve uma pausa; então Alberto acenou com a cabeça, e o holandês, finalmente, inclinou-se para frente.

"Então vamos elaborar esses protocolos em detalhes. Assim, quando os canhões das próximas guerras despertarem, não nos encontraremos tateando no escuro."

O semblante de Wilhelm suavizou-se um pouco, o alívio escondido por trás do leve abaixar dos ombros. Ele pegou a garrafa de água mineral, servindo um copo para cada um.

"À paz que estamos preparando," murmurou. "E à guerra que não hesitaremos em enfrentar, se for preciso."

Eles tomaram suas taças. E, fora das janelas do palácio, Berlim seguia sua agitação sem perceber que, nesta sala dourada, uma segunda grande teia estava sendo tecida pelo continente.

Wilhelm permaneceu um momento após os brindes finais, observando o sol dourado derramar-se na mesa longa, refletindo nas peças de cristal e tinteiros.

Naquele silêncio, desejou secretamente que Bruno estivesse ali, afinal; para pesar essas promessas com sua precisão fria, para lembrá-los de que guerras não são feitas por assinaturas, mas por ferro e sangue.

Então, o Kaiser afastou esses pensamentos. Por ora, a Europa já havia escolhido seus lados. E assim começavam sempre os primeiros tons de tambor.

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