Re: Blood and Iron

Capítulo 569

Re: Blood and Iron

O porto de Trieste brilhava sob um sol decadente da tarde.

Gaviões giravam acima de navios modernos e elegantes, cujos traços remetiam mais ao poder militar do que ao lazer; mas a embarcação atracada no cais privado tinha acabamento de luxo mesmo assim.

Não exibía marcas nacionais além de uma discreta bandeira do Tirol balançando ao sabor do vento salgado.

No cais, estivadores descarregavam caixas de vinhos finos, baús forrados de seda e cestas altas de iguarias.

A casa do Grão-Príncipe do Tirol, vasta, ilustre, carregada de títulos que abrangiam metade da Europa, preparava-se para partir rumo a Lisboa.

Bruno permanecia na ponte ampla do convés, de braços cruzados, com um sorriso pequeno e divertido nos lábios.

Ele observava a confusão organizada com a calma de quem comandou exércitos por continentes; e encontrava tempestades muito mais imprevisíveis em seus próprios filhos e netos.

Ali embaixo, no píer, a família se reunia aos poucos:

Primeiro, Heidi, com um jeito régio mesmo trajando roupas de viagem, sussurrava instruções precisas aos criado tiroleses que tentavam desesperadamente acompanhar cada mala e baú. Seus olhos azul céu brilhavam com energia matriarcal, assustando até mesmo ajudantes experientes.

Erwin, o filho mais velho de Bruno, mas o segundo a nascer, estava perto do navio com Alya, a órfã russa que já fora faminta, agora radiante com seu vestido de esmeralda tirolesa. Seus cinco filhos os cercavam; todos eles ao redor.

Erich, o primogênito e futuro herdeiro, alto e dourado como seu pai, mas com os olhos gentis de Alya, ajudava a impedir que os irmãos menores desrespeitassem os carregadores.

Um pouco mais longe, estava Eva, a filha mais velha de Bruno e a mais velha de toda a prole. Sua postura era de pura aristocracia; salvo pelo caos encantado de seus quatro filhos se pendurando em suas saias.

Seu marido, Wilhelm, neto do antigo Kaiser, ria enquanto passava a mão na cabeça do pequeno Bruno, nomeado assim por seu avô. O garotinho começava a crescer como um mato, agora que atingira a adolescência.

Elsa, elegante e tranquila, momentaneamente distraída pelos gêmeos puxando suas mangas. Ao seu lado, Alexei, o recém-coronado czar da Rússia, com o uniforme impecável, mesmo em férias.

O mais velho, Alexander, já carregava uma dignidade consciente, quase imperial. Ao lado dele, o jovem Nicolau tentava parecer igualmente imperial e falhava espetaculosamente, perseguindo um cachorro abandonado.

Josef, o segundo filho de Bruno, conversava amigavelmente com a esposa, Sophie von Hohenberg, rodeados por várias crianças loiras. O riso de Sophie brilhava na brisa do verão, em contraste com a reserva mais contida de seu marido prussiano.

Wilhelm e Heinrich, os dois irmãos seguintes, ambos vestidos com uniformes civis afiados, ficavam lado a lado, apostando quem venceria as vias de esgrima do navio.

As esposas, recém-casadas, tentavam impedir os homens de saírem correndo para testar as espadas ali mesmo no cais, trocando sorrisos exasperados.

Finalmente, as mais novas, Anna e Erika, cheias de energia juvenil, com fitas e fantasias românticas meia-formadas, se inclinavam sobre os corrimãos, rindo e apontando iates velozes ou desafiando umas às outras a pular o pequeno espaço até o cais.

Como sua irmã Anna, Erika estava noiva de um Príncipe, em especial o Príncipe da Grécia. Ambas estavam presentes na viagem, falando de forma formal com suas futuras noivas.

Bruno absorvia tudo com uma respiração profunda e pausada.

Era por isso que construía impérios. Por isso mediava casamentos, destruía repúblicas, dissolvia conspirações, eliminava marxistas e garantia que o Reich duraria muito além do seu próprio pulso.

Não era apenas pela coroa de ferro da Alemanha, embora isso também importasse. Era por esta dinastia viva que criou do fogo e do sangue.

Pelos filhos que tinham seu aço nos ossos e pelo riso que aquecia até sua alma marcada, calculista.

Perto dele, Heidi pôs a mão no braço dele, seguindo seu olhar pelo deck movimentado.

“Eles cresceram tão rápido,” ela sussurrou. “Todos. Parece que foi ontem que o Erwin puxava sua capa, pedindo para carregar sua espada.”

Bruno sorriu de leve, com um ar irônico.

“Agora ele comanda metade das indústrias de guerra do Reich e se preocupa mais com o transporte de aço do que com duelos. Um pai dificilmente poderia desejar um resultado mais gentil.”

O rosto de Heidi suavizou. Seu polegar passou na parte de trás da mão dele. Mesmo após décadas, seu toque o acalmava.

“E o Erich? Tenho percebido como você olha para ele esses dias. Você está orgulhoso.”

Uma sombra passou pelos olhos de Bruno, mas logo se foi. “Sim. Ele vai levar o Tirol bem. E talvez mais que isso, se a Europa exigir.”

Um chamado veio do piloto do navio:

“Cordame soltando!”

Crianças gritavam de alegria, correndo até os corrimãos. A buzina do navio ecoou profundo, ressoando pelo porto ensolarado.

Estivadores acenaram com seus bonés; guardas tiroleses se postaram em atenção. Lentamente, majestaticamente, a embarcação deixou Trieste, rumando às colinas douradas de Lisboa.

Bruno permaneceu na proa com a família, sentindo a mão de Heidi escorregar na dele, Eva ao seu lado com Wilhelm e o pequeno Bruno entre eles.

Os filhos mais novos se aproximaram, brincando de esgrima, caçando, competindo para ver quem conquistaria melhor as festas em Lisboa.

Elsa e Alexei ficaram próximos, Alexei apontando velas ao longe para Alexander e Nicolau, tentando ensinar-lhes os trajetos navais.

Ao fundo, o sol se punha lentamente, tingindo o Adriático de ouro cintilante.

Bruno absorvia a cena; o barulho alegre, a mistura de sangue prussiano, russo, dos Habsburgo e do antigo Império Alemão, tudo sob sua bandeira.

Era pelo que lutara. Pelo que roubara décadas do destino para proteger.

Um sorriso raro, sincero, apareceu em seus lábios.

“Que o mundo faça o que quiser,” pensou. “Construi algo aqui que nenhuma revolução poderá realmente destruir.”

E junto de sua família, a Casa de von Zehntner navegou rumo a Portugal, risos e planos se misturando na brisa salgada e quente.

Os olhos de Bruno se prenderam em cada filho, em cada neto, memorizando seus rostos como se desafiasse o próprio destino a tentar levá-los embora.

A embarcação foi para o oeste, com as velas infladas, carregando o legado de um homem que conquistou muito mais do que simples reinos.

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