
Capítulo 568
Re: Blood and Iron
Cortinas vermelho escuro estavam puxadas firmemente contra o sol escaldante de Madrid, impedindo a luz de iluminar o interior do quarto real, que se tornou uma penumbra pesada e opressiva.
Uma meia-lua de estadistas, generais e aristocratas sussurrantes reunidos diante do rei Afonso XIII, que permanecia impassível em sua cadeira de encosto alto, com os nós dos dedos clareando à medida que apertavam os braços dourados.
Na longa mesa à sua frente estavam relatórios da Catalunha e das províncias bascas, lugares que já não se contentavam em apenas reclamar das taxas e dos sacerdotes de Madrid.
Panfletos anarquistas circulavam abertamente nos bares de Barcelona. Discursos radicais agitavam as praças cheias de Bilbao.
Até no campo, camponeses se reuniam em grupos carrancudos, segurando rifles antigos e falando de reforma agrária.
Sempre houve uma Espanha difícil de controlar, um mosaico de antigas rancores, unido de forma frouxa pela coroa e pela igreja. Mas agora, sob a longa sombra do rearranjo do poder na Europa, parecia que as costuras estavam se rasgando.
Um general de bigode preto denso, um dos comandantes mais reaccionários de Afonso, bateu com a mão na mesa.
"Majestade, isso não pode continuar! Trabalhadores em Sevilha marcham com bandeiras vermelhas. Os catalães cochicham sobre independência. Os bascos acumulam armas. E o pior: exilados da França trazem aqui sua podridão sindicalista. Paris pode estar passando seu caos, mas sua praga nos infecta também."
Um ministro mais jovem, olhos afiados de cálculo, respondeu com cuidado.
"Ou talvez, general, seja exatamente por a França estar se reconstruindo que devemos atuar com cautela. O governo de Gaulle já estabilizou. Ele aproveitaria qualquer oportunidade para ampliar a influência francesa, garantindo seu trono contra esses baderneiros. Um tratado de segurança mútua poderia evitar barricadas em Madrid."
Isso provocou uma imediata revolta entre os nobres mais antigos.
"Quer convidar tropas francesas a marchar novamente sobre solo espanhol? Depois do que fizeram sob Napoleão? Vamos nos tornar marionetes deles, como Portugal já foi?"
Outra voz interrompeu; era o Marquês de Montoro, um diplomata idoso cuja família serviu à coroa desde os tempos dos Habsburgos. Suas palavras eram lentas, cuidadosas, carregadas de uma certa ansiedade.
"Há outra possibilidade, senhor. Berlim. Ou melhor, a sombra por trás de seu trono em Tirol."
Um calafrio passou pela sala. Todos sabiam o que invocar o nome de Bruno von Zehntner significava. Era convidar o Leão de Tirol para se envolver na política espanhola, com todas as garantias aterrorizantes e as expectativas igualmente assustadoras que isso trazia.
"A Alemanha está segura, rica, e não tolera insurreições socialistas," continuou o marquês. "Se sua majestade enviando uma mensagem discreta a Berlim, poderíamos garantir armas, talvez até conselheiros, para… sufocar esses distúrbios antes que se tornem revoltas abertas."
O general soltou uma risada sombria. "Trocar a independência de Madrid por uma segurança comprada com ferro alemão? Esquece, Montoro, o Reich joga um jogo mais longo do que a França jamais poderia. Convide-os agora, e verá seus netos falando alemão na corte."
"Mas talvez eles ainda tenham uma corte onde possam falar ao todo," retrucou Montoro, frio.
Durante toda a discussão, rei Afonso XIII permaneceu em silêncio. Seus olhos escuros pulavam de uma orador a outro, ponderando cada argumentação.
Ele tinha apostado antes, alinhando-se com militares fortes, achando que poderia controlá-los. Quase perdeu seu trono por causa disso.
Agora, enfrentava uma aposta mais sutil, mas igualmente perigosa. O patronato francês poderia salvar sua coroa das multidões, ao custo de se tornar uma marionete de Paris. A preferência alemã prometia ordem, e a sombra assustadora de ser apenas mais uma peça no vasto projeto continental de Bruno.
Por fim, Afonso se inclinou à frente. Sua voz saiu rouca, pesada por noites sem dormir.
"Que nossos enviados preparem canais discretos tanto para Paris quanto para Berlim. Não colocarei o destino da Espanha nas mãos de uma potência estrangeira até ter certeza de qual delas consegue preservar melhor nossa soberania e minha dinastia."
Suas palavras deixaram a sala congelada. Não era exatamente uma decisão, mais uma manobra de adiamento, enquanto todos aguardavam para ver qual titã europeu se mostraria menos ameaçador.
Fora dos muros do palácio, as badaladas das velhas catedrais de Madrid soaram a hora, ecoando pelas ruas onde homens famintos falavam de revolução e senhoras falavam de vingança.
Algum lugar naquela multidão, o futuro da Espanha já começava a se mover; e duvidava-se que ela fosse esperar pacientemente pelos reis decidirem seu rumo.
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O rei Manuel II estava sentado em seu escritório no palácio de Lisboa. Por anos, devia sua coroa aos movimentos de Bruno no tabuleiro do mundo.
Ele tinha sido um parceiro silencioso e receptivo nas ambições da Alemanha. E por que não seria? Ouro e prata enchiam seus cofres graças ao comércio que ligava as duas nações.
Essa riqueza comprou homens, rifles e artilharia para proteger suas fronteiras. Enquanto a Espanha desmoronava sob o peso de refugiados franceses durante a Grande Guerra e a turbulência civil que veio depois, Portugal permanecia seguro.
Agora, muitos desses refugiados semeavam instabilidade dentro das fronteiras espanholas. E isso preocupava Manuel profundamente.
Sua esposa, Hedwig von Habsburg, já mais velha, madura, longe da paixão infantil que um dia teve por Bruno, permanecia ao seu lado enquanto via o selo em relevo, estampado na carta que lhe causava tanto sofrimento.
Ela reconheceu o leão rampante dourado, coroado, segurando com orgulho uma pata sobre um Totenkopf preto, em um campo de prata, com uma wolfsangel negra embutida no canto.
Era um brasão tão único, tão cheio de autoridade e desafio, moderno e antigo ao mesmo tempo, que despertava medo em todos os que o recebiam.
Por um longo momento, Hedwig permaneceu em silêncio, como se seu próprio sopro tivesse sido arrebatado. Só após o que pareceu uma eternidade ela finalmente se moveu.
"Então... vai abrir?"
Manuel, que estava tranquilamente degustando o melhor vinho do porto de suas adegas, debatendo se deveria romper o selo do próprio diabo, finalmente quebrou a cera e leu.
Um suspiro de alívio escapou dele ao entregar a carta à esposa.
"Ele quer visitar a família. Uma pausa muito necessária após o Japão. Não é nada sério."
Hedwig, que conhecia Bruno muito melhor do que seu marido jamais poderia, reviu o conteúdo várias vezes, procurando por qualquer significado oculto. Sem encontrar nada, também suspirou.
"Então, acho que devemos ser os anfitriões mais gentis, não acha?"
Manuel apenas sorriu levemente e ergueu seu copo, tomando um gole longo e contemplativo. O ato foi resposta suficiente.