
Capítulo 567
Re: Blood and Iron
Nuvens de tempestade sombrias se acumulavam sobre Bruxelas e seu palácio; presságios de um futuro incerto.
Internamente, a sala de guerra do rei ecoava essa atmosfera sombria, enquanto generais, diplomatas e conselheiros se agrupavam em volta de uma mesa carregada de relatórios de inteligência enviados secretamente da França.
"Como podem ver aqui, novas armas inundam as ruas de Paris. Sem dúvida, fruto das mentes reunidas das Potências Aliadas, reconstituídas às escondidas após sua derrota duríssima na guerra anterior."
O silêncio pairou como uma respiração presa; até que a sala se voltou a dividir em discussões acaloradas mais uma vez.
"Certamente estão cooperando para desenvolver armamentos que possam competir com os alemães e sua nova aliança. Vocês ouviram como estão chamando esses projetos? A Ortodoxia do Mal!"
Uma risada. Um sopro de escárnio.
"Ortodoxia do Mal? Que bobagem! Não foi o próprio Alemanha quem nos advertiu sobre os planos da França de invadir em 1914? Não foi a mão deles unida à nossa quando os franceses atravessaram nossas fronteiras com fuzis e baionetas?"
O rei Albert, já envelhecido e sábio, inclinou a cabeça em sinal de concordância sombria. Como todos os presentes. Cada um lembrava das batalhas travadas, das cicatrizes adquiridas, dos laços forjados na lama e no sangue.
A relação da Bélgica com a Alemanha permaneceu cordial após essa vitória.
De fato, o Kaiser enviou considerável auxílio para reconstruir Bruxelas, devastada pelos franceses. O comércio entre eles prosperou, e a Bélgica estava mais rica do que nunca. Mas a França, amargurada e ressentida, ameaçava essa prosperidade.
Um suspiro saiu dos lábios de Albert, seguido de um olhar melancólico através das janelas empoeiradas pela chuva, na direção da tempestade que se formava ao longe.
"Vou enviar uma carta ao Kaiser. Quero falar com ele; aqui em Bruxelas ou lá em Berlim. Se os franceses realmente pretendem nos atacar novamente, pelo menos quero garantias desta vez."
Nenhum voz ousou discordar.
Ao norte das fronteiras da Bélgica, a Rainha Wilhelmina via os mesmos sinais sombrios se formando no oeste, de seu palácio em Amsterdã.
Holanda ficou neutra na última guerra; por um fio de cabelo. Chegou a quase ser arrastada para o conflito quando as forças francesas se aproximaram de suas fronteiras.
Seus laços com a Alemanha eram até então meramente econômicos, uma dependência do comércio.
Mas Wilhelmina não era ingênua. Ela entendia muito bem que a Alemanha era o verdadeiro mestre da Europa, pelo território e pelo mar.
A Batalha do Mar do Norte em 1914 mostrou isso: apesar de estar em menor número e armamento, a Kriegsmarine obliterou o orgulho da Marinha Real em um confronto decisivo e único.
Mesmo agora, a Grã-Bretanha ainda estremecia sob o peso da perda; não só de prestígio, mas de sua sensação de poder incontestável.
Os ministros da rainha se reuniram diante dela, com postura régia e madura, fazendo reverência apesar da realidade de que sua autoridade hoje era mais simbólica do que prática.
O primeiro-ministro Charles Ruijs de Beerenbrouck, um católico tradicionalista, avançou. Nutria grande respeito pela monarquia, mesmo que fosse principalmente cerimonial atualmente.
"Vossa Alteza Real... Recebemos relatos de que a França voltou à militarização após o golpe de de Gaulle. Dizem que Bruxelas planeja enviar uma delegação a Berlim, ou talvez o próprio Rei Albert vá lá. Se o Cavaleiro de Bruxelas viajar a Berlim pessoalmente, farei o mesmo. Mas antes de planejar isso, gostaria de ouvir sua opinião..."
Wilhelmina demorou a responder. Ficou quieta, processando as marés mutantes da Europa. Quando falou, sua voz carregava uma gravidade tranquila.
"A França ficou amarga após tantas derrotas. Perderam uma geração de homens na Grande Guerra; e a loucura que os dominou após a segunda derrota foi selada. E agora querem lutar uma terceira vez em menos de um século?"
Sua voz escureceu, os olhos vidraram, assombrados por memórias.
"Tenho medo de que o Leão do Tirol não seja tão misericordioso se tiver que marchar contra Paris duas vezes na vida. Por mais que franceses ou britânicos tentem colocar os alemães e seus aliados em uma posição inferior, ainda nos lembramos de quem avançou na Bélgica e Luxemburgo; sem provocação, valha dizer."
Charles começou a responder, mas o olhar dela, afiado como uma lâmina, o prendeu no lugar.
"Se a guerra voltar, talvez não consigamos permanecer neutros. Seria prudente que você se encontrasse com Albert e Wilhelm em Berlim. Também precisamos refletir sobre nosso papel neste mundo, que muda rapidamente… talvez mais do que conseguimos compreender."
Era exatamente isso; a resposta que ele buscava. O mundo realmente estava mudando de formas que Amsterdã já não conseguia prever.
Mas uma coisa era certa: a Alemanha não perderia essa guerra, mesmo que o mundo inteiro se levantasse contra ela. A Japão tinha provado isso.
Assim, Charles se levantou, fez uma reverência profunda e declarou:
"Muito bem. Farei o possível para garantir nossa posição na aliança que Albert e Wilhelm possam estar formando."
Os olhos de Wilhelmina se estreitaram, sua voz cortando o ar.
"Certifique-se de que assim seja."
Com isso, o equilíbrio de poder na Europa começou a pender novamente. A França não perceberia o que suas ações haviam desencadeado até que fosse tarde demais para intervir.
Estavam tão consumidos pela vingança, que nunca pensaram em como sua frenética rearmamenta poderia parecer a olhos do mundo.
Para muitos observadores distantes, França, Grã-Bretanha e até os Estados Unidos pareciam agora relíquias de uma era que se desvanecia: orgulhosas, teimosas e desafiadoras num mundo que há muito tinha seguido em frente sem elas.
Se havia prova disso, estava nas Filipinas, onde o Exército dos EUA ainda lutava para conter a rebelião.
A violência aumentava a cada dia, de modo quase inevitável, que por segunda vez em três décadas, os democratas tomariam a presidência.
Se o presidente Herbert Hoover não encontrasse uma maneira de conter a violência que sangrava nesses territórios distantes do Pacífico, seria apenas uma questão de tempo até Franklin Delano Roosevelt vencer a eleição.
E, se isso acontecesse, Bruno não teria outra saída senão garantir que os Estados Unidos sofressem um destino parecido com o da França.