
Capítulo 566
Re: Blood and Iron
Bruno permaneceu sentado em seu escritório muito tempo depois do anoitecer, enquanto a luz das lâmpadas lançava raios quentes sobre estantes imponentes. A agitação do dia finalmente se dissolvera em um silêncio tenso e inquieto.
Ele havia enviado Erika para casa sob escolta. A compostura da garota, frágil como geada em vidro, tinha sido gentilmente equilibrada pela paciência e bondade de jovem Erich ao longo da tarde.
Uma bondade que Bruno observava cuidadosamente das sombras de portas e varandas, sem dizer uma palavra. Observando.
Agora, o velho Leão de Tirol estava sozinho; exceto pelo seu neto, que permanecia perto da lareira, dentro de seu escritório, com as mãos entrelaçadas atrás das costas, na postura meticulosa de um oficial que nunca tinha visto guerra de fato.
A expressão de Erich era neutra, mas a leve tensão nos ombros traía os pensamentos que fervilhavam sob o uniforme.
Bruno quebrou o silêncio com uma pergunta baixa, cansada.
"Diga-me claramente, Erich. O que você acha dela?"
O jovem piscou, talvez surpreso com a direta assertividade. Depois, mudou seu peso, olhando para as chamas em vez de olhar para o avô.
"Ela… é cheia de vida, apesar do pesar. Inteligente. Bem-educada, com certeza. E—"
Ele fez uma pausa, quase de forma constrangedora. Então, um sorriso tênue passou por seus lábios.
"—bonita, se me permite dizer assim."
Bruno recostou-se na cadeira, exalando pelo nariz. Seus olhos azul-claros, agora mais frios do que qualquer inverno que Tirol pudesse oferecer, estudaram seu neto por um longo momento silencioso.
"Não perguntei sobre a linhagem ou a aparência dela, garoto. Perguntei o que você pensa dela. Aqui dentro."
Ele tocou seu peito com um dedo marcado por cicatrizes.
Erich hesitou, então respirou fundo lentamente.
"Acho… acho que ela passou por muito. E ainda mantém um coração capaz de ternura. Isso é raro, avô. Especialmente entre nosso círculo."
Bruno assentiu lentamente uma vez. Depois, juntou as mãos diante da boca, como se estivesse orando a um Deus no céu.
Dentro dele, sua mente fervia com cálculos frios e antigas mágoas.
Se Erich realmente gostasse de Erika, se os filhos do seu amigo mais próximo e sua própria linhagem, por um milagre silencioso, pudessem escolher um ao outro por sentimento genuíno, ele não ficaria no caminho deles. Quase pareceria… justo.
Como algum pedaço de reparação pelo que fizera ao pai de Erika. Pelo modo como Erich von Humboldt morreu às mãos de Bruno, oferecendo uma última saudação, calmo mesmo com a bala atingindo-o.
Essa imagem ainda visitava seus pensamentos nas horas de inquietação, às vezes mais nítida do que o rosto de sua própria esposa.
Pelo menos sua linhagem renasceria, velho amigo. Não na sombra, mas abertamente sob o meu teto.
Mas outra parte de Bruno, mais velha, mais fria, forjada por décadas de manobras e guerra, permanecia aguda em sua consciência das consequências dinásticas.
Ele já planejava há muito tempo que Erich se casasse com a princesa herdeira da França, assim que a França voltasse a se esgotar e se curvasse sob o domínio alemão.
Não era apenas ambição, mas necessidade: um casamento para consolidar a hegemonia pelo sangue, assim como pela conquista.
Se Erich se entregasse primeiro a Erika, se o afeto se enraizasse em algo permanente, quanto aquilo poderia se desfazer?
Décadas de alianças meticulosas, milhares de vidas já sacrificadas na longas apostas do domínio alemão… tudo agora à deriva da incerteza.
No entanto, ao observar o rosto sincero e aberto do neto, Bruno sentiu uma dor peculiar se aliviar no peito. Uma doçura cansada que raramente permitia-se sentir.
Ele não queria se tornar o arquiteto de mais uma tragédia particular. Aqui, de jeito nenhum. Com a filha do homem que morreu para protegê-lo e tudo o que construiu.
"Já torci destinos demais numa só vida", pensou com amargura. "Se esses dois corações se escolherem, não serei eu quem os separará."
Bruno finalmente colocou as mãos sobre as pernas, sua voz rouca, mas calma.
"Se seus sentimentos por Erika se aprofundarem… não vou impedir você. Nem forçar nada. Essa é uma decisão sua, Erich; mas entenda que toda escolha traz suas próprias responsabilidades."
O cabeça de Erich se ergueu, assustado. Depois, fez uma reverência lenta e respeitosa, um olhar quase de alívio cruzando seus olhos.
"Obrigado, avô."
Bruno apenas olhou de volta para a lareira, com uma expressão difícil de ler.
"Agradeça quando o preço estiver pago. E não antes."
Porque, mesmo cediendo ao sentimento aqui, ele sabia que o mundo não faria o mesmo.
A França ainda precisaria ser consolidada, Tirol ainda precisaria de herdeiros, e o império que construíra com rios de sangue exigiria novos sacrifícios.
Seja por Erich, Erika ou por crianças ainda por nascer; alguém pagaria. Sempre alguém pagava. Essa era a dura matemática das dinastias.
E Bruno, mais do que qualquer outro vivo, compreendia que seu balanço nunca poderia estar verdadeiramente equilibrado.
Erich deixou a sala pouco tempo depois. O que quer que tivesse vindo procurar seu avô, já não lhe passava pela cabeça.
Em vez disso, Bruno voltou à sua mesa e pegou uma garrafa antiga de Porto, uma das poucas que sobraram do presente que o rei Manuel de Portugal lhe dera um dia.
Ele serviu um pouco na taça, mexeu delicadamente, inspirou fundo e depois tomou um longo gole, apreciando seu aroma.
"Ainda bem que o Erich tem irmãos mais novos. Se não, essa curva que as Moiras acabaram de me pregar seria bem mais difícil de lidar…"
E, enquanto apreciava a bebida, percebeu uma conta na sua mesa esperando para ser assinada.
Durante muitos anos, Bruno acreditou ter dado o golpe fatal na era dos cavaleiros e da cavalaria.
Hoje, porém, a morte seria burlada. Assim como o destino... Bruno pegou a caneta, ressuscitando as tradições do passado de uma forma que as tornava relevantes para o presente e o futuro.
A partir de agora, a nova nobreza de Tirol, construída pelo mérito, serviria como coluna vertebral do Reich alemão, sendo imitadas por todos os outros Estados do reino.
Uma nova nobreza para proteger o reino e usar sua riqueza, poder e posição ao serviço do povo. Pois, que sentido teria um cavaleiro que não protege e serve?