
Capítulo 559
Re: Blood and Iron
Busan, maio de 1932
A cidade incendiava-se. Não pelos estrondos precisos de bombardeios alemães, mas pelas manchas desajeitadas e irregulares de fogo de artilharia russa e por incêndios que consumiam os blocos um a um.
Fumaça rastejava baixinho pelos esqueléticos ferros retorcidos. Pedaços de alvenaria ainda caíam dos arranha-céus batidos pelos bombardeios.
Aqui e ali, uma parede desabava para dentro com um som baixo, gemendo; como se a própria cidade estivesse finalmente sucumbindo à exaustão.
O general de brigada Georgy Zhukov permanecia no terraço de um prédio de alfândega tomado pelos ataques, observando através de binóculos o porto abaixo.
Soldados russos já hasteavam sua tricolor no que restou do edifício da administração do porto de Busan.
Ao seu redor, oficiais sussurravam em tons baixos, ansiosos. Vozes de homens que conheciam a vitória, que a saboreavam como sangue e fuligem nos pulmões.
Zhukov abaixou os binóculos e expirou pelo nariz. Seu bigode tremeu de irritação.
"Esses idiotas", murmurou. "História de um cemitério. Nada mais."
Um coronel próximo limpou a garganta, sinalizando para um mensageiro que corria pelo telhado. O garoto tinha o paletó rasgado no ombro, os olhos arregalados demais para estarem calmos.
"Mensagem do quartel-general de Vladivostok, General."
Zhukov rasgou o envelope. Seus olhos percorreram o telegrama. Sua testa se franzia, depois se suavizava numa expressão indecifrável.
No quartel-general improvisado, o czarevich Alexei Romanov de pé sobre uma mesa de mapas marcada por baionetas e cinzas de cigarro. Ao redor, reunidos, estavam altos oficiais russos, com seus grandes casacos cobertos de poeira de gesso coreano.
Uma única lâmpada balançava acima, projetando sombras longas e nervosas.
Quando Zhukov entrou, com as botas sobre o vidro quebrado, Alexei olhou para cima com o alívio de um homem que precisava desesperadamente de certeza.
"Busan é nossa", anunciou Zhukov, com a humildade de quem não tinha motivos para celebrar. "As forças japonesas lutaram até o último momento. Foi uma matança. O que sobrou da guarnição correu para o interior ou morreu nos bunkers."
Os ombros de Alexei caíram um pouco. "Quantos civis ficaram presos no cerco?"
O olhar de Zhukov era frio. "Milhares. Talvez dezenas de milhares. A cidade recusou-se a obedecer às ordens de evacuação. Ou elas nunca chegaram. Difícil saber qual. Nosso artilharia não teve escolha."
As mãos de Alexei ficaram brancas na beirada da mesa.
"E as perdas entre seus próprios homens?" perguntou.
Zhukov tensionou a mandíbula. "Altas. Mas dentro do esperado. A vida russa é mais barata que o tempo, Sua Majestade. Nós sangramos para não atrasar."
Alexei expirou lentamente. Uma sombra de fraqueza antiga cruzou seu rosto, mas logo ele se recompos, erguendo-se novamente. "Então, prepare-os. Quero seus homens descansados, reorganizados e rearmados. Em três semanas, partiremos para as ilhas japonesas."
Zhukov inclinou a cabeça com firmeza. "Como ordena."
Ele virou-se para sair. Então parou, puxando o telegrama amassado do bolso.
"Há outro assunto. Das linhas alemãs em Okinawa. Chegou logo após termos tomado a cidade."
Ele entregou o telegrama a Alexei. O czarevich o recebeu com surpresa discreta. Ao ler, o rosto dele foi perdendo cor; não de medo, mas de uma tempestade que se formando.
Ele leu de novo, mais lentamente. As palavras pareciam se gravar na pele pálida sob os olhos.
Finalmente, falou, em tom baixo, frio, quase quebrado. "Parece que o generalfeldmarschall von Zehntner autorizou ataques estratégicos com mísseis sobre centros industriais japoneses."
Zhukov apenas levantou uma sobrancelha, intrigado.
As mãos de Alexei cerraram-se em punho. "Osaka, Kobe, Nagoya. Todas atacadas em questão de horas. Explosões termobáricas na atmosfera; bairros inteiros achatados e transformados em vidro. Civis vaporizados ao lado de usinas e fábricas de munições."
Ele levantou o olhar, olhos ardendo. "Sem nenhuma palavra ao parceiro. Sem consulta, sem coordenação. Devemos ser irmãos de armas, mas ele nos trata como crianças para serem enganadas."
Zhukov soltou uma risada sem humor. "Os alemães sempre acharam que carregavam a civilização nos ombros. Agora, carregam o apocalipse."
Alexei recuou da mesa. Por um momento, parecia que poderia desabar. Mas, ao invés disso, colocou as duas mãos na madeira acastanhada, respirando com força.
"Prepare um protesto formal. Para ser enviado a Berlim, e diretamente ao meu sogro. Não vou aceitar armas russas sendo acusadas de participar na carnificina de civis japoneses. Se formos destruir o Império do Japão, que seja pela espada, não pelo terror cego dos incêndios do céu."
Zhukov estreitou os olhos. "Com o devido respeito, Sua Majestade... isso era inevitável. Planejamos invadir Kyushu também. Quantos civis nossos artilheiros vão matar ao se abrigar sob cada telhado? Talvez, assim, os alemães tenham poupado esse fardo."
Alexei lançou-lhe um olhar cortante, como gelo. "Nada nos pouparam. Garantiram que os filhos das nossas crianças herdarão um mundo onde armas monstruosas assim são vistas como um prelúdio aceitável para a conquista."
A boca de Alexei se fechou numa linha fina. "Então, vou lembrá-lo de que a Rússia não é parceira menor nessa aliança. Quando essa guerra acabar, ele verá que não sou um menino à espera da aprovação do pai."
Do lado de fora, as ruas de Busan estavam assustadoramente silenciosas para uma cidade conquistada. Sentinelas russas paradas nos cruzamentos, com metralhadoras casualmente cruzadas sobre os peitos. Veículos também passavam de vez em quando, carregados de munição, água, refugiados assustados.
Acima do horizonte, ao sul, manchas laranja tênue ainda marcavam o céu; os últimos vestígios das ondas de choque em forma de cogumelo que se erguiam sobre a infraestrutura industrial destruída do Japão.
Zhukov seguiu Alexei até uma varanda com vista para o porto. O mar estava coberto de destroços e cargueiros carbonizados.
"Isso vai mudar nossos planos?" perguntou finalmente Zhukov.
Alexei olhou para o mar, com o perfil rígido. "Não. A invasão continua. Mas diga a seus homens isto: a Rússia não será acusada de barbárie. Vamos obter nossos objetivos com rifle e baioneta, não destruindo cidades pelo céu. Se Bruno quer usar a reputação do mundo como pesadelo, que o faça."
Zhukov assentiu lentamente. "Entendido."
Por um momento, permaneceram em silêncio, o vento vindo do mar carregando cheiro de sal e de madeira queimada.
Uma gaivota circulava sobre eles, gritando solitária no céu sobre um porto que já foi um centro vivo de comércio, agora reduzido a ruínas.
Rommel, tendo sido testemunha da reunião e do desabafo do jovem czarevich, encontrou Alexei de pé à janela, olhando para um mapa do arquipélago japonês pregado na parede.
"Vai escrever para Bruno pessoalmente?"
Seu queixo trabalhou. "Sim. Como aliado… e como soberano. Ele precisa entender que há limites que a Rússia não cruzará, mesmo na guerra."
Os olhos de Rommel se tornaram mais duros, alertando. "Ele não vai se importar."
"Então, ele vai aprender", disse Alexei, em tom tranquilo. "De uma forma ou de outra."
Um suspiro leve escapou dos lábios de Rommel. Como adido do exército russo na Coreia, ele tinha duas funções: aconselhar os russos sobre como guerrear corretamente e vigiar o herdeiro do trono vago.
Alexei pode estar na casa dos trinta anos, mas cresceu longe dos desafios reais da guerra. E das atrocidades que ela evita.
Já que Bruno não podia orientá-lo pessoalmente, Rommel foi designado para fazer isso em seu lugar.
E assim, suas palavras rapidamente assumiram um tom paternal, que Alexei não ouvia desde que seu pai morreu.
"Entendo a importância que você dá às vidas civis, Majestade, mas seu general acabou de dizer que o sangue do seu povo é barato comparado à vitória. Muitas vezes, advisei o bruto que marchar direto para uma máquina de carne não é uma forma de supremacia."
Rommel ficou um instante em silêncio, as cenas de desprezo russo pelas próprias tropas inundando sua mente enquanto apertava o nariz da ponte. Recompôs-se a tempo de continuar sem interrupções.
"Ele descarta minhas preocupações diversas vezes. Essa é a diferença entre ele e alguém como Bruno. E também entre você e Bruno. Você vê a morte de civis como uma tragédia evitável, mas Bruno entende que é uma consequência infeliz e permanente da guerra."
Rommel então mexeu nos bolsos e pegou um telegrama que lhe fora entregue pelas tropas alemãs infiltradas entre os russos. Entregou-o a Alexei sem cerimônia.
"Recebi notícia da frota ao largo do Japão. O generalfeldmarschall agiu assim porque o Alto Comando Imperial Japonês ordenou a mobilização de toda a sua população."
Ele respirou fundo, estreitando os olhos, antes de continuar.
"Meninos e idosos estão sendo equipados com rifles, lanças e bambus afiados. Mulheres e meninas estão se preparando para tirar a própria vida para evitar uma tragédia que, na verdade, é apenas uma mentira criada pelo ministério da propaganda."
Rommel avançou, ficando bem na frente de Alexei e encarando seus olhos vacilantes, convencido de que naquele momento já tinha vencido. O homem, antes chamado de Raposa do Deserto, buscava vitória total.
"Quantos de nossos homens vão morrer se invadirmos o Japão assim? Quantos civis japoneses vão acabar mortos? O que você chama de barbárie e crueldade, vemos como um custo necessário para evitar a propagação de mais violência e sangue. Vou precisar solicitar formalmente que retire sua declaração de protesto por escrito e pegue o telefone para falar diretamente com o generalfeldmarschall, se ainda duvida das minhas palavras."
Ao dizer isso, Rommel virou-se e saiu da sala sem dizer mais uma palavra. Não precisou esperar por uma resposta, pois já tinha certeza de qual seria antes mesmo que Alexei arranhasse uma frase.
Na escuridão, a noite caiu sobre Busan, com incêndios ainda acesos nas ruínas, refletindo seu brilho na água fria da baía.
E além do horizonte escuro, nas cinzas do coração industrial do Japão, ainda ardia o fogo escolhido por Bruno; brutal, eficiente e impossivelmente moderno.
O futuro pelo qual todos lutaram para construir chegava finalmente. Mas, como Alexei Romanov logo perceberia, era um futuro que nenhum homem poderia controlar completamente.