Re: Blood and Iron

Capítulo 560

Re: Blood and Iron

Os corredores do Ministério Imperial cheiravam a suor e a laca queimada, pesado com o medo daqueles homens que sabiam estar testemunhando as últimas páginas da longa crônica do seu império.

Mapas das ilhas domésticas estavam espalhados por mesas largas e polidas, alguns com bordas carbonizadas onde oficiais desesperados tinham apagado cigarros demasiado perto. Bandeirinhas marcavam depósitos que já não existiam, divisões que deixaram de existir.

E, em um estrado elevado sob os retratos silenciosos de imperadores passados, o Conselho de Guerra se reunia.

General Kuroda estava com a cabeça baixa, as veias nas têmporas pulsando visivelmente. Do outro lado, o almirante Yamamuro segurava um lenço sobre a boca, como se tentasse bloquear o fedor de ruína que permeava cada respiração.

"Osaka," ele rosnou finalmente. "Kobe. Nagoya. Três dos nossos pulmões industriais colapsaram em uma única hora. Os arsenais desapareceram. O armazém de munições; completamente apagado. Os bairros civis... cinzas."

Um subsecretário, não tendo mais do que vinte e cinco anos, desabafou: "O Ministério dos Assuntos Civis diz que os incêndios levarão dias para serem controlados. bairros inteiros estão vaporizados. Eles nem conseguem contabilizar os corpos. Estão desaparecidos—"

Yamamuro bateu com o punho na mesa, fazendo os tinteiros tremerem. "Silêncio!"

O jovem recuou, engolindo o terror que imaginava ter lhe tomado a garganta.

Uma voz fina veio do fundo da sala. Príncipe Kanin, agora esquelético em seu uniforme cerimonial, olhos sombrios carregados tanto pela idade quanto pelo medo.

"Se não buscarmos a paz… não sobrarão nada para governar. Nem mesmo escombros. Apenas túmulos."

Kuroda lançou-lhe um olhar sério. "E deixar que os alemães ditem os termos da nossa extinção? Não. Se eles quiserem conquistar a sagrada terra de Yamato, terão que sangrar por cada pedra."

"General," interrompeu Yamamuro, com a voz pesada, "não temos fábricas para reabastecer o exército. Nem estaleiro para manter a frota. Nem estoques de combustíveis para mover de uma província a outra. Nem mesmo as linhas férreas até Tóquio estão seguras, ameaçadas por partisans locais à fome de arroz. Diga-me: se eles desembarcarem, com o que iremos lutar? Com lanços de bambu? Com meninos com funda?"

Silêncio.

Um único clerical avançou apressado, com um telegrama tremendo nas mãos. "Outra mensagem de Hiroshima, senhor. Uma onda de civis fugindo de Osaka invadiu os bairros rurais. Rebeliões por comida estão se espalhando. Funcionários estão se enforcando para evitar a justiça de multidões."

Yamamuro recostou-se na cadeira, os olhos vazios. "Então é essa a escolha? Ou nós morremos de fome, ou de queimar."

Príncipe Kanin abaixou a cabeça. "Talvez seja melhor viver sem orgulho do que morrer com ele."

Kuroda mostrou os lábios numa careta sem humor. "Vocês vomitariam nos túmulos dos já mortos? De Kyoto, de Seul, de Busan? Por que eles morreram então, se agora nos rendermos? E o imperador Taisho? E sua memória?! Vocês vão condená-lo à história como o homem que perdeu o Império?!?"

A sala se dividiu; alguns gritavam, outros choravam, alguns simplesmente se viraram de costas, incapazes de olhar nos olhos uns dos outros. O orgulho do Japão sempre fora sua maldição tanto quanto sua espada.

Por fim, Yamamuro levantou-se, a voz um sussurro que de alguma forma soou como disparo. "Comecem contatos discretos por canais neutros. Os suíços ou suecos. Preparem o terreno. Se os alemães e russos aceitarem condições, pelo menos devemos ouvi-los."

A cabeça de Kuroda caiu. A luta ainda não havia acabado oficialmente. Mas, naquela sala escura e sufocante em Tóquio, todos podiam sentir o amargor da derrota.


Vladivostok, Quartel General; linhas telefônicas zumbindo.

Era noite em Vladivostok. As luzes do porto brilhavam na água escura, carregada com as silhuetas de transporte de tropas russos sendo abastecidos para o próximo ataque.

Dentro de uma residência de governador confiscada, transformada em quartel, Tsarevich Alexei Romanov caminhava sozinho, telegramas e listas de baixas espalhados sobre uma grande mesa de carvalho.

Uma linha direta e segura com o suite de Bruno, no Porta-aviões alemão, faiscou em vida. Um técnico de comunicações passou a cabeça pela porta. "Sua Majestade; Generalfeldmarschall Bruno von Zehntner está na linha."

Alexei engoliu, a garganta áspera. "Coloque ele na linha."

Ouviu-se um clique, seguido de um zumbido vazio. Então, a voz de Bruno, profunda e firme como ferro, ressoou pelo aparelho.

"Alexei."

Uma única palavra. Carregada de autoridade antiga.

Alexei fechou os olhos. Depois, colocou-se ereto. "Generalfeldmarschall. Espero que tenha tempo para uma explicação."

Pausa do outro lado. Então: "Por quê, exatamente?"

"Os ataques com mísseis. Osaka. Kobe. Nagoya. Centenas de milhares mortos ou morrendo, civis. E sem aviso prévio. Sem coordenação. Vocês trataram a Rússia não como aliada, mas como uma subordinada que deve ser informada depois."

O suspiro de Bruno não foi de arrependimento nem de impaciência; simplesmente inevitável. "Fui como quem trata um jovem monarca que nunca carregou o peso final da decisão. Que ainda não entende o cálculo de milhares versus milhões."

Alexei enrubesceu. "Não me trate como criança. A Rússia sangrou por esta guerra. Busan sozinho—"

"Sim," interrompeu Bruno, com a voz abruptamente dura. "E se tivéssemos feito do seu jeito; se marchássemos passo a passo de Kyushu até Honshu, lutando rua por rua, campo por campo, quantas mães russas chorariam pelos filhos enterrados longe de suas neves? Quantas viúvas vagariam pelas ruas de São Petersburgo?"

Alexei segurou a borda da mesa até os nós dos dedos ficarem brancos. "Então, trocamos vidas deles por crianças japonesas? Por famílias camponesas que nunca viram um uniforme alemão?"

A voz de Bruno baixou para um tom sombrio e inflexível. "É disso que trata o governo. De escolher quem morre; porque alguém vai morrer, de qualquer jeito. A única questão é de quem é a sangue que irrigará a terra."

Aquietou-se um silêncio longo. Lá fora, um apito de trem gemoendo sobre os pátios de cargas.

Depois, Bruno falou novamente, mais baixo. "Você era apenas um garoto quando nos conhecemos naquele tempo todo. Lembra por que eu visitei sua família pela primeira vez, enquanto vocês se escondiam na Sibéria?"

Alexei ficou em silêncio por muito tempo. E, depois de processar seus pensamentos, exalou profundamente.

"Não, não lembro. Era muito jovem, e tenho certeza de que você sabe disso. Mas meu pai me contou por que você estava em nossas casas, por que recebeu uma posição tão prestigiosa. Você lutou contra a ameaça vermelha em nome da nossa família. E venceu. Mas o que isso tem a—"

Bruno o interrompeu e começou a contar toda a verdade que nunca lhe fora revelada.

"Não vim às suas terras como convidado ou adido. Nem sequer fui realmente recebido pelo czar. Cheguei à Rússia com cinquenta mil homens ao meu lado, armados com rifles, metralhadoras e artilharia.

Quando éramos apenas uma brigada na primeira chegada, levantei o cerco de São Petersburgo, depois que sua família já tinha fugido para leste. Precisei eliminar cada Vermelho fora das defesas; e dezenas de milhares de civis morreram no caos."

Bruno fez uma pausa. Alexei pôde ouvir o sussurrar suave de papéis ao fundo, como se o alemão estivesse afastando fantasmas.

"Matei o líder do que chamavam de exército deles na cabeça, bem de perto, enquanto ele choramingava e se fazia de morto de medo. Depois, marchei minha força para leste e incendiei Tsaritsyn, bombardeando a cidade e os rebeldes que pegaram em armas contra seu pai."

Sua voz se endureceu. "Dezenas de milhares, talvez até centenas, de inocentes morreram. E fiz o mesmo por toda a Ingria e pelo Volga. Quando o sangue deixou de jorrar pelas suas ruas, centenas de milhares estavam mortos, e milhões deslocados."

Houve uma respiração; não de arrependimento, mas de peso de quem carrega uma história como uma pedra de moinho.

"Mas, ao fazer isso, Alexei, salvei milhões da morte certa, e dezenas de milhões de um destino muito mais cruel. Hoje, os russos lembram-se de mim com carinho, como a Peste Vermelha; o homem que caçou e exterminou uma regime de ladrões, assassinos, estupradores e psicopatas."

Suas palavras caíram quase suaves. "Seu próprio pai entendeu que o que fizera era necessário. Apesar dos danos colaterais, não apenas salvei sua família da morte certa… mas também salvei a Rússia de uma dor muito maior do que a suportada por minhas ações."

Voltou o silêncio. Alexei ficou, segurando o receptor, lutando para processar as palavras de Bruno. Sempre soube os traços gerais daquela guerra, ouvira as versões enxutas em salões dourados.

Mas os detalhes sangrentos, a escala do sofrimento de seu povo, e o que fora poupado porque também lhe fora negado, sempre lhe foram escondidos.

Bruno prosseguiu. Alexei ouviu o sussurro ténue de mapas se movendo do outro lado.

"O Japão não tem mais indústria. Nem meios de construir outra frota, ou tiros suficientes para armar cada menino e velho que entregariam uma lança de bambu. O que destruí em um dia teria custado duas milhões de mortos russos e alemães a pé."

Suas palavras seguintes saíram mais suaves, mas de algum modo ainda mais pesadas.

"Isso foi misericórdia, Alexei. Monstruosa, sim… mas misericórdia."

Alexei recostou-se na parede, o receptor escorregando na mão molhada. Seu coração pulsava de raiva, vergonha e alívio; tudo entrelaçado num Nó envenenado.

Por mais que desejasse ser o governante justo e nobre que sempre imaginou que seu pai fosse. O tipo de homem que pensava que Bruno fora um dia. No fundo, sabia a verdade terrível.

Não era uma tragédia. Era cálculo. O Japão teria prolongado esta guerra até que dezenas de milhões estivessem mortos, ao invés de centenas de milhares.

A crueldade de Bruno poupou o mundo de uma crueldade ainda maior. E isso, em sua própria forma distorcida, era uma espécie de misericórdia; especialmente quando homens no poder estavam lunaticamente irracionais demais para serem convencidos ou persuadidos.

Por fim, Alexei expirou, a respiração trêmula.

"Desculpe… eu… não deveria ter me entregado assim. Eu devia ter entendido… devia ter—"

Bruno o interrompeu, a voz agora já não mais severa, mas carregada de uma ternura quase paternal.

"Não é sua culpa, Alexei. Você foi criado para ser um imperador de paz. Mas, infelizmente… seu pai, meu amigo Nicolau, nos deixou antes que pudéssemos inaugurar essa era juntos."

Houve uma pausa, o som distante de tiros estalando na linha de Bruno.

"Haverá outra guerra depois desta, e mais cedo do que imagina. Você ainda é um líder inexperiente. Mas tem tempo para crescer."

Uma suspiro, lento e cansado.

"Se fosse você, começaria cuidando mais de como seus generais tratam os homens sob seu comando do que se preocupando com a vida dos inimigos."

As últimas palavras de Bruno tinham uma ponta de dor Cruel; a confissão de um homem açoitado por décadas de desperdício desnecessário.

"Já vi meninos usados como carne de moeda para o aço por três vidas inteiras."

Bruno não esperou por resposta alguma. Nada mais precisava ser dito. Na verdade, a abrupta despedida da conversa serviu de lembrete maior das palavras ditas e das lições aprendidas.

Alexei ficou lá, por um longo tempo, com o receptor ainda press

o ao ouvido, ouvindo apenas o ritmo silencioso do próprio pulso.

Por fim, abaixou-o. Olhou pela janela, onde colunas de suprimentos rolavam pelas ruas de Vladivostok.

Ele sussurrou para si mesmo, com a voz vazia e resoluta: "Eu serei o Tsar que a Rússia precisa que eu seja."

Comentários