
Capítulo 561
Re: Blood and Iron
As janelas da Sala Oval foram abertas, mas a brisa de verão não trouxe conforto algum.
O cheiro era de pavimento molhado, fumaça distante dos pátios de ferrovias e aquele fedor elétrico repugnante que emergia de uma cidade fervendo sob o peso de corpos demais, medos demais.
O presidente Herbert Hoover estava sentado atrás de sua mesa de carvalho, as mangas arregaçadas até os cotovelos, os óculos apoiados baixinho no nariz enquanto relia os dados mais recentes de pesquisa de opinião.
Estava tudo sombrio, embora não totalmente condenatório. Uma nação ainda parcialmente faminta pelos fantasmas do Pânico, mas agora caminhando de forma desajeitada rumo a uma recuperação incerta.
Os números na página contavam uma história; salários ligeiramente aumentados, filas por pão diminuindo, fábricas reabrindo sob novos donos.
Mas os olhos do povo na rua? Eles sussurravam outra coisa.
Uma nação dilacerada. Metade pronta para proclamar Hoover como o homem que "os tirou do precipício", esquecendo completamente que não foram seus pacotes de estímulo que estabilizaram os mercados, mas uma súbita entrada de capital estrangeiro.
Capital de lugares cujos nomes o americano comum não conseguia pronunciar; ou que — se soubessem quem realmente controlava suas fábricas — não ousariam reconhecer.
Outra metade? Cuspiam no nome Herbert Hoover como se fosse uma palavra de baixo calão. Para cada fábrica que voltava a funcionar, havia uma mãe deitada ao lado de um túmulo raso no chão seco do Meio-Oeste.
Para cada corretor sorridente com novas ordens de embarque, um mineiro tossindo sangue em um trapo que valia mais que seu almoço.
Não era suficiente. Nunca seria suficiente. E a próxima eleição estava a apenas meses de distância.
Na rádio, em cada banca de jornal, ressoava a voz e o sorriso de Franklin Delano Roosevelt.
FDR prometia "novos acordos", promessas amplas, vazias, populistas, que se enrolavam como serpentes devorando suas próprias caudas.
Ele atacava os bancos, mesmo enquanto os cortejava por trás de portas de veludo. Falar do homem comum enquanto folheava registros de doadores que pareciam uma lista de nomes das últimas indústrias de Nova York, nervoso de que suas fortunas pudessem murchar se não apostassem em ambos os lados.
Hoover conhecia esse tipo. Afinado, inteligente. Um sorriso patrício que escondia dentes afiados, como agulhas.
Num outro tempo, suspeitava que até gostaria de Roosevelt. Talvez até teria trabalhado com ele.
Mas nesta realidade, Roosevelt era pior que um rival. Era um homem que testemunhara a evolução do modelo alemão, que vira o quão rápido um povo inteiro poderia ser regimentado sob uma ambição carismática — e queria aquilo para si.
Somente com sindicatos, clientelismo e fundos ilegais ao invés de disciplina e medo.
E Hoover? Estava velho demais, seco demais, demasiadamente honesto dos jeitos errados. Orgulhoso demais para ser amado, moral demais para ser temido.
A única coisa que Hoover se agarrava como conforto era o silêncio da imprensa. Anormalmente silenciosa.
Os mesmos magnatas da mídia que, há apenas quatro anos, queimariam suas declarações, que publicariam caricaturas dele expulsando filas com tridentes… agora apenas reportavam os fatos.
Seco, clínico. Sem drama, sem favoritismo.
Talvez, pela primeira vez desde o início do século, a colossal máquina de mídia de Bruno von Zehntner estivesse distraída.
Berlim tinha coisas maiores para atentar. Foguetes para construir. Impérios para devorar.
Hoover soltou um sorriso irônico ao pensar nisso. Prefiria um demônio alemão frio olhando-o de perto do que um demagogo americano com uma língua de ouro sussurrando veneno doce aos eleitores.
Bruno era previsível. FDR? FDR era do tipo que daria risada no túmulo e chamaria isso de reconciliação.
A porta se abriu com cuidado treinado. Charles Curtis, seu vice-presidente, entrou, o chapéu na mão. O rosto dele estava mais tenso do que o normal.
"Senhor, o Departamento de Guerra compilou os últimos informes de Manila."
Hoover passou a mão pela testa. A guerra. Deus, a maldita guerra. As Filipinas deveriam ter sido uma ação rápida. Uma demonstração de que a vontade americana não tinha atrofiado junto aos seus investimentos.
Pelo contrário, virou uma ferida lenta. Selvagens das selvas engolindo meninos da Califórnia a Nova York, muitos dos quais nunca tinham disparado uma arma fora de uma feira de condado.
Militantes filipinos escapando por linhas como fumaça. Outro centenar de corpos enviados para casa nesta semana. Outro centenar de telegramas. Mais mães recebendo visitas de homens de boné de aba e condolências ensaiadas.
"E o que de pior está acontecendo?" Hoover perguntou.
Curtis não respondeu diretamente. Apenas entregou a pasta.
Hoover folheou rapidamente: 784 mortos. 2.000 feridos. Meio dúzia de emboscadas que deram errado. Uma nota sobre "baixa moral nos acampamentos costeiros." Outra sobre "aumento nos pedidos de rodízio de tropas locais."
Hoover colocou o documento de lado, apertando a ponte do nariz. "O povo engolirá se parecer que estamos vencendo."
"E se não parecer?"
"Então votarão no incapacitado de Hyde Park."
Curtis recuou diante da crueldade. Hoover não pediu desculpas. Já ia além de desculpas magras.
Foi então que o telefone na sua mesa tocou. Não a linha externa. A linha segura, que passava por duas camadas de criptografia, direto da Inteligência Militar.
Ele atendeu. "Hoover."
"Senhor Presidente," disse a voz ofegante do elo de ligação do General MacArthur em D.C. "Acabamos de receber uma cabal de nossos observadores em Okinawa. Senhor… os alemães lançaram... Bem, não sei exatamente como explicar… parece que tiveram ataques com mísseis ao Japão."
O assento de Hoover rangeu ao ele se sentar mais ereto. "Defina 'ataques'."
"Senhor, três cidades foram atingidas. Osaka. Kobe. Nagoya. Grandes centros industriais. Senhor, esses não foram ataques convencionais. As estimativas de carga são… bem, maiores do que qualquer coisa que tenhamos documentado. Não químico. Nem explosivos convencionais. Não sabemos como conseguiram, mas nossos cientistas estimam que o rendimento equivale a entre 30 e 50 toneladas de Tnt..."
Um silêncio breve.
"Jesus Cristo."
"Sim, senhor. Estimamos de quarenta a cinquenta mil mortos em cada cidade, de modo conservador. Mais virão de ferimentos, desmoronamentos, fome. Há relatos de nuvens em forma de cogumelos visíveis das estreitas. Nossa embaixada em Tóquio está em completo caos."
A boca de Hoover secou. Sempre soube que a Alemanha era mais avançada que o resto do mundo. Aliás, até suspeitava que escondiam armas verdadeiramente assustadoras atrás das cortinas de veludo que exibiam ao mundo.
Mas lançar um ataque tão ousado e devastador de forma tão descarada e aberta? Era como se o homem estivesse desafiando o mundo a protestar.
"Tem alguma reação da Liga?"
"Estão correndo para condenar, na maior parte. Mas sem eficácia, senhor. Os britânicos e franceses ainda estão ocupados com suas eleições. Os italianos estão em silêncio. Apesar de suspeitarmos que há anos eles estão secretamente aliados aos alemães e russos."
Hoover assentiu distraidamente, os olhos pousados no mapa na parede. As fronteiras limpas, as pequenas letras que rotulavam oceanos e ilhas distantes.
Tudo parecia tão frágil. Como um desenho de criança.
Quando desligou, Curtis ainda estava lá, inquieto perto da lareira.
"O que isso significa?" perguntou. "Para nós?"
Hoover enrijeceu o olhar. "Significa que o mundo acaba de assistir a Alemanha destruir três cidades; não com esquadrões de bombardeiros que podem ser abatidos, mas com armas lançadas de centenas de milhas de distância, com precisão perfeita."
Levantar-se, caminhando de um lado ao outro, as mãos atrás das costas.
"Quer dizer que o capital estrangeiro que chega ao país de onde quer que seja, como sempre suspeitei, provavelmente vem de Innsbruck. E, se for o caso, nossa indústria está à mercê do Reich e dos caprichos do homem no comando de seu exército..."
Curtis se mexeu desconfortavelmente. "E o que fazemos agora?"
Hoover olhou fixamente para ele. "Continuamos sorrindo para as câmeras. Continuamos dizendo às mães que os meninos em Manila estão lá para preservar a liberdade. Mantenha nossas fábricas funcionando com o dinheiro estrangeiro que compra de volta o aço americano."
Uma respiração gelada.
"E rezamos para que Roosevelt não vença. Porque se vencer e tentar ser um forte populista; tentar desafiar Bruno com slogans baratos e sonhos de Novo Acordo mal elaborado… então vai aprender o que é zombar de um homem que pode apagar cidades a cada hora."
Do lado de fora, os jardins da Casa Branca pareciam tão pacíficos quanto sempre. Turistas passeando além dos portões. Um jardineiro podando sebes com precisão calma. Dois homens do Serviço Secreto conversando perto da entrada.
Hoover os observava pela janela, com a expressão controlada.
Só que o rígido travar de sua mandíbula traía o fato de que seus pensamentos não eram sobre eleitores ou comícios, mas de mísseis de longo alcance, de nuvens de cogumelo, de jovens morrendo nas selvas de Luzon por razões que pareciam cada vez mais vazias.
Uma República. Era isso que tudo isso deveria ser. Um grande experimento de dignidade e autogoverno.
Agora, era apenas mais um tile num tabuleiro pertencente a homens em castelos distantes. Homens com nomes que nunca apareceriam numa cédula de votação.