Re: Blood and Iron

Capítulo 551

Re: Blood and Iron

A neve cobriu silenciosamente os jardins do Tirol, abafando até os uivos distantes de lobos ao longo da floresta.

Um congelamento havia se instalado sobre as velhas pedras do palácio, que se espalhava pelos vidros, envolvendo estátuas de mármore com um brilho reluzente de imobilidade. Mas o frio dentro era ainda maior.

Bruno estava na extremidade da sala de estar, de costas para a lareira. Seu calor não o alcançava. Não naquela noite.

Fazia menos de duas semanas que ele tinha saído do palácio de inverno do czar, com a notícia de que o homem encontrava-se em estado terminal. Ele não fez despedidas dramáticas, nem demonstrações explícitas de despedida. E ainda assim, as palavras da noite anterior ainda ecoavam como sinos de igreja na cabeça de Bruno:

"Quando seu pai partir, direi a ele quem você virou."

Deveria ser reconfortante. Mas parecia uma lápide.

Heidi entrou silenciosamente, seus boots arrastando neve da bainha do vestido forrado de pele. Ela não disse nada inicialmente, apenas colocou uma bandeja de chá ao lado da poltrona na qual Bruno não se sentava desde ontem.

Seus olhos se voltaram para ele, estudaram sua postura tensa, seu olhar inexplicável em direção à lareira.

"Não é sua culpa", disse ela suavemente, como se o silêncio o tivesse acusado.

Bruno expirou pelo nariz. "Eu sei disso."

Uma mentira. Ou pelo menos uma meia-verdade. Ele sempre soube que os grandes homens que guiaram sua juventude um dia partiriam.

Porém, não esperava que o momento de sua perda chegasse tão cedo, tão próximos, como se a própria história estivesse abrindo espaço para uma nova era. E não esperava sentir-se tão só ao testemunhar isso.

"Não é a partida deles que me incomoda. Na minha vida passada, eu olhava para esses homens com admiração, os idolatrava. Os últimos reis e cavaleiros de uma geração que ficou para trás. Uma geração melhor."

Uma pausa… Um suspiro…

"Quando entrei nesta vida, com minhas memórias da anterior ainda intactas, criei laços com os homens que mais respeitava, mas nunca me dei uma chance de viver o momento. Sempre os via do ponto de vista do antigo mundo, figuras em uma página, não amigos a serem feitos. E agora que finalmente entendo isso. A oportunidade se foi."

Heidi se acomodou ao seu lado e descansou a cabeça contra o seu braço. "Mesmo com o conhecimento do futuro, e do mundo que foi, você ainda é um homem, amor… Você não é um deus… Está sujeito a erros. E é normal lamentar o que poderia ter sido. Todos nós temos esses pensamentos."

Bruno riu, vazio. "E ainda… eu sou o único a lamentar com duas vidas de arrependimentos."

O silêncio persistia… Heidi não sabia como curar uma ferida dessas, podia apenas ficar ali, abraçando o homem. Pois seu calor e presença seriam o suficiente. Mas a história não esperava pelo luto. Em outro lugar, ela conspirava silenciosa.


Do outro lado do Atlântico, num país cegado pela prosperidade e orgulho, o presidente Hoover degustava bourbon e olhava para a carta de seu secretário do Tesouro. Estava repleta de elogios insípidos e números vazios, todos cantando a canção da recuperação. Mas Hoover sabia que era mentira.

Os Estados Unidos não tinham se recuperado. Haviam sido resgatados.

Ações outrora inúteis foram compradas em massa. Linhas férreas falidas, companhias marítimas colapsadas, bancos inteiros tirados dos escombros de forma silenciosa. E, ainda assim, nenhuma entidade podia ser responsabilizada.

A trilha era demasiado limpa, demasiado bem pavimentada. Camadas sobre camadas de corporações de papel, empresas-fantasma, entidades offshore. Tudo legal. Tudo inteligente.

E tudo apontando para um espectro.

Hoover fechou o arquivo e murmurou consigo mesmo: "Putz, Bruno."

Ele procurou incansavelmente pelo menor vestígio de prova. Mas nada conclusivo. Fragmentos aqui ou ali, que datavam de décadas atrás. Se alguém olhasse a teia que ele teceu em busca da verdade, pensaria que ele enlouqueceu.

Porém, ficou cada vez mais claro que Bruno vinha adquirindo terras, recursos, empresas e indústrias por toda a América.

A teia de Bruno era ampla, maior do que ele imaginava quando foi alertado pela influência alemã sobre a mídia americana.

E o pior é que ele não podia provar isso. Sua evidência era inconclusiva, no melhor dos casos conspiratória, no pior, mais parecia o delírio de um louco!

Ninguém lhe acreditaria. Ainda mais agora, quando empregos voltavam, filas de pão diminuíam e o ânimo tentava se reerguer. Ele era prisioneiro do próprio sucesso. Só podia suspirar e aceitar. Seja lá o que acontecesse como consequência, não podia controlar, nem impedir.

Era problema de outro presidente, de outra geração encarar.

De volta ao Tirol, Bruno finalmente aceitou o chá. Estava morno, um pouco amargo, exatamente como preferia. Heidi sorriu de leve e voltou à sua costura, deixando-o com seus pensamentos.

A lareira crepitava. O vento uivava. E Bruno pensava em seu pai.

Além das reuniões anuais de família, essa foi a primeira vez em anos que Bruno realmente viu seu pai. Décadas até. Desde que saiu de casa, teve pouco contato com a família, além de encontros organizados na casa uma ou duas vezes ao ano.

Cartas chegavam, como sempre, formais, carregadas de preocupação, mas sem emoção. A última falava de ossos doloridos, noites longas e memórias das antigas guerras.

Podia imaginá-lo agora, sentado no sofá do antigo palácio de Prússia, segurando um copo da melhor bebida, com a bengala apoiada ao lado, assistindo a neve cair na janela ao lado do calor da lareira, na mesma silêncio que Bruno mantinha agora.

Talvez fosse hora.

Ele se levantou. Heidi olhou para cima, surpresa.

"Vai sair?"

"Acho que preciso vê-lo."

Ela sorriu, entendendo.

"Então leve o Erwin contigo. Seu pai deve conhecer seu filho de verdade, não como o menino que era, mas como o homem que virou."

Bruno acenou com a cabeça. Isso já valia a viagem.

Na manhã seguinte, o trem partiu para o leste. Bruno sentou ao lado de Erwin, que herdara a graça da mãe e os olhos do pai. Observava a geada lá fora, quase encostado no vidro.

"É engraçado, você e a mãe raramente falam sobre a infância juntos. Mas pelo que vejo, vocês foram prometidos desde cedo. Vocês se viam com frequência?"

"Uma ou duas vezes por mês… Passei a maior parte do tempo na biblioteca da família, decorando cada antigo tomo empoeirado desde a fundação. Ela vinha comigo quando aparecia… Mais uma incômodo do que outra coisa naqueles dias… Difícil acreditar que me apaixonaria pela rebelde."

Bruno riu discretamente ao dizer isso, com um tom gentil, os olhos cheios de nostalgia.

Erwin olhou para o pai, com incredulidade, procurando certeza se tinha ouvido direito.

"Você decorou toda a biblioteca da família?"

Bruno assentiu, indiferente.

"Com sete anos, não palavra por palavra, ninguém é assim, mas o essencial de cada frase e as informações contidas nela, sim. Depois disso, passei meus dias treinando em atividades nobres, como xadrez, equitação, esgrima e tiro ao alvo. Até tentei uma dança de salão por um tempo, mas nunca gostei muito."

Erwin ficou pasmo. Ouviu novamente as palavras do pai, tentando acreditar.

"Você decorou toda a biblioteca da família?"

Bruno respondeu com indiferença, balançando a cabeça.

"Quando tinha sete anos, não a palavra por palavra, claro… ninguém consegue isso, mas a essência de cada sentença, o conteúdo, eu sabia. Depois disso, meus dias eram dedicados a atividades mais nobres, como xadrez, cavalgadas, espadaria e tiro. Até tentei dançar ballroom por um tempo, mas nunca foi minha praia."

Erwin ficou parado, silencioso, impressionado. Sabia que o pai era um homem extraordinariamente talentoso, mas isso? Era uma revelação quase monstruosa?

Nos campos da Prússia, o ar era mais afiado, as árvores mais altas, e o silêncio, mais profundo. O antigo palácio familiar não mudara. Nunca mudaria.

O pai de Bruno estava sentado no sofá, exatamente como imaginara. Mais magro, mais pálido… mas com olhos como ferro polido.

Quando eles se aproximaram, ele se levantou.

"Então, o herdeiro se apresenta de volta," disse com uma voz de cascalho.

Bruno permaneceu em silêncio. Em vez disso, fez um gesto para Erwin, que se curvou respeitosamente.

O velho pegou sua mão suavemente. "Você tem os ombros do seu avô. Vinha a ser um soldado…"

Nem Bruno nem Erwin sorriram. Erwin foi o primeiro da história da família a não seguir a tradição militar.

E, embora Bruno tivesse sido nomeado herdeiro por razões políticas, seu pai nunca aprovou que o homem quebrasse essa tradição.

Mesmo assim, conversaram pela noite adentro. Sobre guerras. Sobre arrependimentos. Sobre o mundo em transformação.

Quando o fogo diminuiu, Bruno trouxe a conversa para um tom mais suave.

"Você tem oito irmãos, todos vivos. Todos com filhos… E mesmo assim, fiz o que nunca deveria ter sido permitido, escolhi pessoalmente você como único herdeiro. Quebrou séculos de tradição aristocrática."

Bruno se tensionou, mas não se moveu.

"Está se arrependendo dessa decisão? Nunca lhe pedi isso..."

O pai balançou a cabeça. "Não, mas foi necessário. Meu filho mais novo se tornar um grande príncipe, enquanto toda a família, por décadas, serviu como Junkers… Elevaram-no ao título de conde apenas por suas realizações?"

Houve uma pausa pesada enquanto as palavras se assentavam.

"Se você não fosse meu herdeiro, tem ideia do estrago que isso poderia causar no futuro? Era necessário. Porque você brilhou demais. Como sua mãe sempre dizia que você brilharia. Desde que nasceu, ela dizia que era diferente."

Houve um silêncio mais pesado que os anos.

Por fim, Bruno perguntou:

"O que você está querendo de mim?"

O velho sorriu, sem alegria.

"Antes de ir ao além… Você não consegue satisfazer minha curiosidade… Por mais que nossa linhagem seja grande, você não deveria ter nascido da minha família. Talvez de Alexandre, mas não de mim. Quem é você? O que você realmente é?"

Bruno só conseguiu sorrir com ironia, balançando a cabeça. Ri de toda a situação — claro que haveria outros que descobrissem. Ainda assim, suas palavras carregavam mais poesia do que sinceridade.

"Sou o flagelo de Deus… Se o mundo não tivesse cometido tantos pecados, Deus não teria me enviado como punição para vocês."

Ele estava parafraseando Genghis Khan com essa frase, e seu pai percebeu. Os lábios dele se curvaram num sorriso enquanto tomava um gole de sua bebida, deixando Bruno surpreso com a coragem dele ao dizer aquilo.

"Eu sabia…"

Quando retornaram ao Tirol, aguardava uma carta. De São Petersburgo. Selo de cera intacto.

Ela dizia simplesmente:

"Chegou a hora. Parto para junto de Deus agora. Que nossos filhos nunca esqueçam que um dia ousamos mudar o mundo."

Assinado,

Nicolau II, Imperador de Todas as Rússias.

Bruno fechou a carta com mãos tremendo.

E despejou uma dose de sua bebida.

Olhou para o copo.

E viu o fim de uma era.

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