
Capítulo 588
Re: Blood and Iron
Os sinos da Santa Maria del Fiore soaram com uma clareza imperial.
Florença não conhecia tanta grandeza há gerações. Pelo menos não desde os dias finais do reino, quando as bandeiras de Saboia ainda carregavam orgulho inabalável.
Mas hoje, aquelas bandeiras estavam ao lado de outras; águias negras da Prússia, águias de duas cabeças da Rússia e o sigilo inconfundível da Casa de Zehntner: o leão vermelho sobre a caveira da morte preta.
O Duomo transbordava de nobreza. Cardeais de túnicas carmesim estado ao lado de patriarcas ortodoxos e príncipes protestantes.
Generais sentados lado a lado com bispos, e magnatas industriais pressionando ombro a ombro com descendentes de repúblicas decadentes. Mas ninguém ousava falar além de um sussurro.
Não na presença de tanto poder.
No altar, estava o príncipe Umberto de Saboia, o herdeiro do trono da Itália, com uniforme branco perfeitamente ajustado, detalhes em ouro refletindo cada raio sob a cúpula.
Sua postura era firme; esculpida na mesma rocha que todos os governantes que já marcharam dos Alpes até o Mar Tirreno.
E ao seu lado, vestida com um vestido de noiva fluido, tecido com rendas tirolesas e pérolas russas, estava Anna von Zehntner.
Filha de Bruno. Princesa do Tirol. A segunda mais jovem da sua linhagem.
Agora de dezoito anos; radiante.
Seu rosto não tinha nenhum dos sorrisos nervosos de meninas inseguras sobre seu destino. Em vez disso, mantinha o queixo erguido, com gestos dignos e reais, como tinha sido ensinada desde que aprendeu a fazer reverência.
Sua mão não tremeu ao alcançar a do noivo. Ela não era um cordeiro. Nem uma boneca de porcelana. Era filha de seu pai; e a coroa na cabeça tinha peso.
Sentado na primeira fila, Bruno von Zehntner observava com olhos indecifráveis. Seu uniforme feldgrau, com detalhes em vermelho e ouro, carregava toda a autoridade do cargo de Reichsmarschall.
Uma lista de honrarias adornava seu peito; conquistadas, nunca compradas.
À sua direita, o rei da Itália permanecia imóvel, com os olhos entrelaçados sob a testa, rosto duro como pedra.
À esquerda, Kaiser Wilhelm II e Tsar Alexei Romanov trocavam acenos silenciosos, ambos acompanhados por suas guardas e cortejos.
O mundo inteiro, pelo menos o mundo que ainda importava, tinha se reunido sob aquela cúpula.
E enquanto os votos eram pronunciados, e o padre declarava que a união era selada pelo céu e pela terra, Bruno sentiu uma mudança silenciosa no peso da história.
Com essa união, a Itália deixava de ser uma interrogação no continente.
Com essa união, o Eixo da Ordem estaria completo.
Casa Hohenzollern, Casa Romanov, Casa Saboia e, finalmente, Casa Zehntner...
A cola. O trono sombrio. O quarto pilar que sustentava o novo mundo com orgulho e desafiança.
Quando o beijo cerimonial foi selado e o órgão começou a tocar, a congregação se levantou em uma chuva de aplausos. As trombetas lá fora anunciaram o povo. As pombas levantaram voo sobre o Arno.
E Bruno, ainda sentado, imóvel, exalou lentamente.
Não por fadiga. Não por orgulho.
Mas por inevitabilidade.
Heidi inclinou-se suavemente, sussurrando através da maré de aplausos, "Deveria sorrir. Ela está feliz."
"Estou sorrindo," Bruno murmurou sem se virar.
E talvez, à sua maneira, estivesse mesmo.
Pois por baixo da fachada de cerimônia, sob as luvas de seda e o braçal dourado, ele sabia o que tudo aquilo realmente representava.
Isso não era apenas um casamento.
Era um tratado. Um pacto. Uma consolidação de futuros imperadores e impérios.
E tinha sido feito sem um único tiro disparado.
Quando a procissão começou a sair da catedral, as bandeiras das quatro grandes casas foram erguidas lado a lado:
Juntas, batiam ao vento como presságios. Como advertências. Como o brasão de um novo mundo tomando forma.
E o mundo, assistindo de longe, tremia; porque sabia:
A guerra viria.
E desta vez, os herdeiros do império não se dividiriam.
A grandiosa sala de recepção do Palazzo Pitti brilhava com luz de velas e risos.
A música de valsa ecoava sob tetos decorados com afrescos, e os pisos de mármore refletiam vestidos de seda e botas polidas.
Nobres italianos misturavam-se com aristocratas alemães, dignitários russos e alguns embaixadores estrangeiros, cuidadosamente para não falar fora de hora.
Fora, Florença vibrava em celebração. Fogos de artifício explodiam acima do Arno. Os sinos tocavam até tarde da noite.
O casamento de Anna von Zehntner com o príncipe herdeiro Umberto havia se tornado mais do que uma formalidade dinástica.
Era o toque final de uma composição de alinhamento continental.
Bruno permanecia à margem da pista de dança, próximo a uma grande janela que dava vista para a cidade. Um copo de aguardente de ameixa descansava em sua mão.
Tirolese, com vinte anos de idade. Ele o bebia lentamente, com o olhar distante.
Do outro lado da sala, seus filhos dançavam.
Eva, ousada e risonha, rodopiava sob um lustre com seu marido, Wilhelm von Hohenzollern.
Enquanto Erwin, sempre o herdeiro, permanecia polidamente envolvido em conversa ao lado de sua esposa, Alya, com convidados de reinos menores.
Até Elsa, silenciosa e observadora, tinha se juntado a um pequeno grupo perto dos músicos, tomando vinho e assistindo com aquele olhar calculista que herdou do pai.
"Eles estão felizes demais," Bruno murmurou.
O Tsar Alexei Romanov apareceu ao seu lado com a graça de quem aprendeu a mover-se sem fazer barulho.
Sua veste era de um azul mais escuro do que a maioria dos oficiais russos usava, e a braid de ouro pelos ombros era grossa de classificação.
No começo, ele não disse nada, apenas levantou um copo de vodka clara, dando um gole pequeno.
Bruno assentiu, pensando em voz alta. "Essa geração vive um pouco demais de paz. Pelo menos, de paz entre os fortes. Não tem memória de trincheiras. De gás químico. De sangue que se acumula na neve porque não tem para onde fugir."
Alexei não respondeu imediatamente.
Quando falou, foi com suavidade. "Eles vão aprender."
Bruno virou-se para ele, com os olhos estreitados levemente.
"Você acha que a Espanha será suficiente?"
Alexei exalou lentamente, a respiração formando névoa na boca do copo. "A Espanha é um incêndio numa grama seca. Enviamos nossos melhores para apagá-lo, e eles voltam... transformados. Você leu os relatórios. Viu o que aconteceu em Manila. Viu o que Erich escreveu. Não sou mais o menino ingênuo de um ano atrás, quando te repreendi pelo que fez no Japão... Aprendi muita coisa desde então..."
Grimamente, Bruno concordou. As palavras do neto eram corajosas, mas carregadas de assombro.
Do outro lado, o Rei Victor Emmanuel III aproximou-se com expressão satisfeita e um charuto preso entre os dentes.
Ele gesticulou amplamente para a pista de dança, onde Anna agora dançava com o noivo, o casal de ouro da noite, cercado de aplausos.
"Uma aliança excelente," disse o rei, sorrindo. "E um futuro melhor ainda. Digo que a Europa finalmente pode conhecer estabilidade."
Bruno fez uma leve reverência, enquanto Alexei disfarçava sua expressão com outro gole de vodka.
"E além disso," continuou o monarca italiano, sorrindo, "qualquer que seja o que venha... não pode ser pior que a Grande Guerra, não acha?"
O silêncio que se seguiu não foi hostil, mas carregado.
Alexei e Bruno tiveram um começo difícil de relacionamento após a morte do tsar Nicolau.
Se conheciam há muitos anos, mas Alexei entrou na cargo mal preparado para a realidade da guerra, enquanto uma conflitava nas fronteiras do oriente.
Sua ingenuidade quase causou uma ruptura definitiva na aliança. Mas, desde então, ele passou a refletir sobre suas escolhas.
Um ano se passou, e agora? Agora, ele era praticamente um homem diferente.
A expressão de Bruno continuava indecifrável, mas uma frieza surgia em seus olhos. A boca de Alexei se fechou levemente, como se estivesse segurando uma verdade amarga demais para engolir na presença de alguém.
O rei, percebendo a mudança no clima, olhou entre eles, rindo de forma constrangedora.
"Senhores?"
Bruno enfim falou.
"Na Grande Guerra, o velho mundo morreu," ele disse em voz baixa. "O que vier a seguir... decidirá que tipo de mundo o substituirá."
Alexei assentiu uma vez. "E quem sobreviver tempo suficiente para moldá-lo."
Victor Emmanuel piscou, sua expressão vacilando por um instante.
Bruno terminou sua bebida e deixou o copo vazio de lado, o olhar voltando à pista de dança.
Anna ria, radiante, com a mão em Umberto. Eles nem imaginavam. Ninguém sabia.
E, mesmo assim... era melhor assim.
Deixe-os rir hoje à noite. Deixe-os dançar e acreditar na paz.
Porque, quando os tambores da guerra retornarem — e retornarão — caberá a homens como Bruno e Alexei decidir quanta parte do mundo sobreviverá ao fogo.
"Deixa-os aproveitar a noite," Bruno murmurou, quase para si mesmo.
E ao seu lado, o Tsar ergueu seu cálice em silêncio de concordância.
Os três monarcas beberiam juntos durante toda a noite, e mais tarde Wilhelm II se juntaria a eles. Velho, mas ainda não derrotado.
Ele mesmo desejava aproveitar os últimos anos que lhe restavam. Afinal, Bruno só tinha começado a enxergar nele algo além de uma figura histórica, passando a vê-lo como amigo.
E, considerando que esse tinha sido o objetivo de Wilhelm desde o momento em que Bruno provou seu valor, ele iria aproveitar cada oportunidade para se alegrar com isso.