Re: Blood and Iron

Capítulo 598

Re: Blood and Iron

A expectativa era silenciosa... até demais.

Até o tic-tac do relógio na parede distante parecia hesitar, como se estivesse incerto se deveria romper o silêncio que dominava o Palácio Real de Madrid.

O rei Alfonso estava sentado à sua mesa, sozinho, exceto pela luz vacilante de um único lampião a gás pendurado no teto.

A janela atrás dele enquadrava a cidade sob um pôr do sol dourado, com os telhados lançando sombras alongadas nos pátios.

Discretamente, o som de tiros ao longe ressoava das colinas do leste; esporádicos, desordenados. A guerra ainda não tinha tocado a capital, mas seu prenúncio pairava sempre ao longe.

A mesa à sua frente estava vazia, salvo por uma única folha de pergaminho, marcada com o selo real em vermelho e ouro.

"Ordem de Movimentação Geral."

As palavras pareciam acusá-lo, refletindo-se na sua mente.

Um fio de suor cobrira sua testa, não por causa do calor, mas pelo peso esmagador que sentia sobre si.

Ele esticou a mão em direção à pena, hesitou, e em vez disso, olhou para a lareira; fria e escura agora.

Onde antes buscaria conselho de seus ministros ou conforto de sua esposa, agora só havia o vazio.

"É isso que significa ser rei na era dos monstros?" ele sussurrou para si mesmo, sem quem pudesse ouvir.

Do lado de fora, ao longe, as campanas de uma capela marcavam as seis horas.

Ele pensou na vinha. No Bruno. Nas palavras que ainda ecoavam em seus ouvidos como uma sentença de morte embrulhada em veludo:

"Escolha sabiamente, ou eu escolherei por você."

Ele não odiava o homem.

Não, isso seria mais fácil.

Ele o temia.

Não pelo que tinha feito... mas pelo que ainda não tinha feito, e já parecia estar preparado para fazer.

Falou com franqueza, com uma estranha frieza germânica.

Um tipo de exaustão moral que vinha não da crueldade, mas da experiência.

Alfonso nunca tinha ouvido um homem falar com tanta calma sobre a aniquilação.

E ainda assim... ele não tinha mentido.

Com uma respiração longa e trêmula, Alfonso mergulhou a pena na tinta e assinou.

Seu nome percorreu a página com a definitividade de uma lâmina de guilhotina.

Ao terminar, descansou a pena suavemente ao lado do papel, cruzou as mãos e permaneceu em silêncio.

Não como rei.

Nem mesmo como homem.

Mas como uma alma que sabia o que viria a seguir, e que pisaria na terra da Espanha por gerações.

Baixou a cabeça e fez uma oração.

Não pela vitória.

Mas pelo perdão.


O centro de comando improvisado em Valência era uma sala de universidade adaptada.

Seus pilares antigos marcados pelo fogo, o chão de mármore agora manchado com mapas, botas e o cheiro de óleo.

O general Francisco Galán se posicionava sobre uma mesa abarrotada de relatórios de logística rasgados ao meio, sua expressão séria sob a luz amarelada de uma lâmpada a gerador zumbindo.

"Quatro mil fuzis M1 dos americanos. Trêscentos submetralhadores Thompson. Caixas de munição ainda sendo descarregadas em Almería," dizia um major republicano, lendo de uma lista que tremia em suas mãos.

"E os ingleses?" perguntou um tenente sem tirar os olhos da lista.

"Uma dúzia de pilotos voluntários. Alguns tanques de sobra. Brens. Rádios. Unidades médicas." Um major hesitou. "Dizem que mais estão chegando."

Galán finalmente levantou os olhos, com os olhos escuros e fundos.

"Eles sempre dizem que mais está por vir."

Na outra ponta da sala, os oficiais mais jovens discutiam com cautela otimista. Um voluntário escocês, mal na casa dos vinte, limpava seu rifle e conversava com um grupo de soldados republicanos.

"É só o começo, rapazes. Assim que virem o que a Alemanha está fazendo aqui, o mundo todo vai se aliar ao seu lado."

"Já resistimos até aqui," murmurou um espanhol, ajustando um capacete americano novo que não encaixava bem. "Talvez isso mude tudo."

"Talvez seja o ponto de virada."

Mas o major não tinha tanta certeza.

Ele se aproximou da janela quebrada, olhando para os navios no cais.

Cantes se moviam como esqueletos de aço contra o sol que se punha, levantando caixas marcadas com selos americanos e a inscrição PARA A ESPANHA – PROPRIEDADE DO GOVERNO DE SUA MAJESTADE, de navios enferrujados que chegavam sob bandeiras britânicas.

Deveria ser reconfortante.

Em vez disso, parecia uma procissão fúnebre.

"Alguns milhares de rifles não vão impedir o que vem aí," ele disse baixinho.

O tenente se juntou a ele na janela, com os braços cruzados.

"Alguns acreditam que isso forçará a Alemanha a recuar. Que o Reich não arriscará uma escalada com a Grã-Bretanha e os EUA envolvidos."

O major soltou uma risada amarga. "Eles não conhecem os alemães."

Pensou na crista. Naquilo que sobrava dela.

Nas fotos feitas por aviões de reconhecimento na poeira da destruição.

Soldados cozinhando emergencialmente em seus abrigos, ossos transformados em carvão.

Civis dilacerados enquanto dormiam. A terra própria queimada até virar vidro.

"Eles lutam não pela era, mas pelo futuro," disse. "E nós ainda estamos sangrando pelo passado."

E mesmo assim... sabia que não tinham alternativa senão lutar.

Mesmo se o resultado já estivesse escrito na fumaça acima da Catalunha.


O barulho da linha de frente agora era distante.

Apenas um trovão abafado abaixo do canto dos pássaros e do zumbido ocasional de um gerador sobrecarregado.

As plantações de oliveiras atrás da colina balançavam suavemente ao vento, dando pouca pista de que uma guerra civil brutal se desenrolava a poucos kilómetros a leste.

Erwin Rommel estava ao lado de uma mesa de mapas, sombreada por uma lona quadriculada, seu uniforme sujo, mas impecável, braços cruzados enquanto observava dois oficiais de ligação trocarem comunicados de moto.

"Difícil de acreditar que terminamos aqui," disse uma voz atrás dele.

Rommel se virou um pouco.

Erich von Zehntner. Jovem, de pele queimada pelo sol, com aquela chama silenciosa nos olhos que lembrava demais a um alguém mais novo, que avançou oferecendo um sorriso cansado.

"Quando começou essa guerra, achei que estaríamos na ponta da lança," continuou Erich. "Não vendo os retaguardas e escoltando comboios de suprimentos feridos."

Rommel não respondeu de imediato. Apenas olhou para as colinas, ao horizonte, para a fumaça distante de ataques de artilharia perto do Ebro. Depois, virou-se com a expressão pensativa.

"Você nunca foi feito para terminar essa guerra," disse Rommel. "Esse nunca foi o objetivo."

Erich franziu a testa. "Então por que nos mandar, afinal? Por que enviar a Legião em força se não é para acabar com isso?"

Rommel deu um passo adiante e tocou o peito do jovem com dois dedos.

"Porque seu avô organizou toda essa campanha sabendo exatamente o quanto você precisava ver. Não para ganhar glória. Não para ser o herói. Mas para aprender o peso do comando, o custo da guerra e os limites da intervenção."

Erich abaixou o olhar.

A voz de Rommel ficou mais aguda, mais instrutiva.

"Guerras como essa não podem ser vencidas por outsiders. Não de verdade. Os espanhóis precisam terminar isso por si próprios, ou nunca possuirão a vitória. Podemos romper as linhas. Podemos treinar suas tropas. Até podemos lançar bombas. Mas a bandeira que for fincada ao final? Tem que ser deles."

Erich abriu os punhos. "Mas poderíamos acabar com tudo em semanas."

Rommel concordou com um aceno. "E isso garantiria que tudo desmoronasse em meses. Uma nação não pode ser reconstruída com vontade emprestada."

Ele apontou para o hospital de campanha onde tropas royalistas espanhóis descarregavam macas de caminhões marcados com o Cruzeiro e as Flechas.

"Nosso papel agora é garantir as estradas. Alimentar a pressão nas laterais. Reforçar onde for necessário. Dar espaço para eles vencerem a guerra."

Rommel fez uma pausa, e depois acrescentou de modo mais suave:

"Você terá sua guerra logo, Leutnant von Zehntner. Confie em mim."

Erich não respondeu.

Simplesmente se virou e olhou para o leste, em direção à fumaça ao longe, para o lugar onde a história estava sendo escrita, não pelos alemães, mas pelos espanhóis, finalmente lutando por sua própria terra.


Chuva tamborilava suavemente contra as janelas altas da fazenda tirolesa, enquanto uma névoa se espalhava das encostas cobertas de pinheiros ao redor.

As montanhas se erguiam como gigantes adormecidos ao longe, envoltas em neblina e silêncio.

Bruno von Zehntner estava sentado à sua mesa, com um grosso feixe de relatórios espalhado à sua frente.

Despachos de Zaragoza, comunicados interceptados de Londres e Washington, fotos de reconhecimento aéreo da Catalunha; tudo organizado, anotado com tinta vermelha.

O fogo crepitava lentamente na lareira ao seu lado. Lá fora, as badaladas de uma capela de aldeia marcavam a nona hora.

Ele leu em silêncio.

Mais uma rede de trincheiras desmoronou perto de Lérida.

Reforços republicanos dispersos no corredor de Aragón.

Um comboio de logística franco-americano foi destruído numa emboscada antes mesmo de chegar à linha de frente.

Colunas blindadas royalistas estão a poucos dias de cercar Valência.

Ele recostou-se na cadeira, exalou lentamente, e permitiu-se um pequeno sorriso.

Dois meses. No máximo.

Essa era a estimativa.

No auge do verão, a bandeira vermelha da República jazeria na poeira e a bandeira real da Espanha se levantaria mais uma vez sobre uma terra batizada pelo fogo.

E com ela… também o sonho do Reich para o continente.

Bruno pegou seu copo de vinho escuro, girou-o uma vez e tomou um gole lento. Seus olhos vagaram em direção à janela aberta. A chuva agora havia amainado, reduzida a um sussurro.

Pensou na vinha de Madrid. No rosto de Alfonso ao assinar a ordem. Em Rommel e Erich, esperando pouco além da linha de frente.

Tudo se encaixava.

As democracias hesitaram.

As monarquias não.

E a história não recompensa a hesitação.

Bruno colocou o copo com um tilintar discreto e pegou uma pena. No rodapé da página, sob projeções de baixas e previsões logísticas, escreveu três palavras:

"Vitória pela finalização."

Depois as underlinou.

Dupla vez.

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