Re: Blood and Iron

Capítulo 581

Re: Blood and Iron

Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda

O palácio vivia uma tensão abafada. Os criados se deslocavam como espectros pelos corredores de mármore, com seus sapatos de sola macia sussurrando sobre tapetes antigos.

Em algum lugar mais profundo, um quarteto de cordas ensaiava para uma gala noturna que agora parecia quase grotescamente fora de lugar.

Pelas longas janelas que davam para as varandas iluminadas pelo sol de Lisboa, estava o rei Manuel II, com as mãos cruzadas atrás das costas, o olhar fixo não na paisagem, mas na figura sentada a uma mesa modesta atrás dele.

Bruno von Zehntner lia silenciosamente, uma mensagem fresca de Berlim segurada numa mão, uma delicada xícara de porcelana com café português na outra.

Mesmo ali, vestido em linho civil e desfrutando da brisa costeira, havia algo nele que parecia escurecer a própria sala.

O peso de milhares de decisões passadas pairava sobre seus ombros como um manto.

Finalmente, Manuel virou-se lentamente, respirando com calma. "Você pretende nos deixar em breve."

Não era uma pergunta.

Bruno não olhou imediatamente para cima. Terminou a leitura, dobrou cuidadosamente a página, e a deixou de lado antes de encarar os olhos do monarca português.

"Lisboa é gentil. Mas não é o meu trono. Nem o meu campo de batalha. A Espanha caminha a passos largos rumo a uma guerra civil completa. E onde há caos, sempre há homens ansiosos por testar a determinação alemã; ou por imaginar que a atenção de Berlim está distraída. Não posso permitir que essas ilusões persistam."

O rei aproximou-se, abaixando a voz, embora o salão estivesse vazio, salvo por dois guardas discretos perto da porta.

"Vou falar claramente, como soberano para soberano. Sua presença aqui vale mais para a segurança de Portugal do que mil de minhas tropas de campanha. Nenhuma alma em Madrid, Paris ou mesmo em Londres ousaria pensar em invadir minha fronteira enquanto você janta sob este teto."

Os lábios de Bruno se contorceram em um sorriso que poderia ter sido de diversão.

"Uma estratégia insensata, Manuel. Você vai amarrar um lobo na porta de sua casa só para assustar as raposas? No fim, o lobo fica faminto ou entediado, e você se perguntará se é seu próprio pescoço que ele vai testar."

Um fio de suor escorria pela têmpora de Manuel. Ele forçou um sorriso amarelo. "E, ainda assim, suspeito que você seja um lobo bastante disciplinado."

Bruno não respondeu. Simplesmente voltou a buscar seu café, o leve tilintar da porcelana soando alto na quietude. Após um gole medido, deixou-o sobre a mesa e entrelaçou as mãos.

"A Espanha vai queimar. Precisa fazer isso para fechar a ferida antes que ela se espalhe por toda a península e além. a França alimenta esse fogo porque de Gaulle acha que pode exaurir a vontade da Alemanha por meio de ameaças indiretas. Uma jogada ousada, mas tola... Ele não tem o número de corpos para sangrar nem o aço suficiente para disputar uma guerra de desgaste por procuração."

Um silêncio se instalou. Lá fora, os gritos de vendedores e o tilintar das carruagens ecoavam ao longe pelos caminhos do palácio.

Por fim, Manuel quase implorou: "Fique pelo menos até o fim do mês. Gostaria que Lisboa fosse lembrada por sua família não apenas como uma fortaleza diplomática. Deixe suas filhas dançar na minha corte. Permita que as pessoas vejam vocês não apenas como o Carrasco de Belgrado, mas como um pai, um convidado que honra Portugal com sua cordialidade. Talvez seja o único conforto que teremos antes que a guerra novamente rasgue o continente."

Bruno contou um leve sorriso de aprovação. "Um argumento justo. Eu vou atrasar minha partida em dez dias. Mas não mais do que isso. Depois, minha mão precisará estar no leme novamente. O futuro está sombrio demais para ser guiado de longe."

Manuel fechou os olhos por um instante, sentindo um alívio passageiro. Quando os abriu de novo, foi com uma postura renovada.

"Então, farei com que cada noite desses dias seja repleta de música e luz suficiente para ofuscar as tempestades que se aproximam à nossa porta."

Bruno inclinou a cabeça levemente; um aceno de general, não uma reverência cortesã.

"E em troca, farei com que Portugal permaneça ileso pelo caos que se aproxima, enquanto eu tiver poder para moldar essas coisas."

Logo se despediram, cada um imerso em seus pensamentos perturbados. No pátio abaixo, as filhas de Bruno riam enquanto alimentavam pombos com restos de pão, alheias, por ora, às teias de ferro que lhes estavam sendo tecidas ao redor.

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Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda, Galerias Superiores

O sol do final da tarde filtrava-se pelas janelas arqueadas altas, lançando longas barras douradas sobre o piso de mármore.

Pólenes de poeira flutuavam preguiçosamente na luz quente.

Bruno estava ao lado de uma larga janela, com as mãos cruzadas atrás das costas, os olhos fixos na expansão terrosa de Lisboa que se estendia até o mar.

De algum lugar mais profundo do palácio vinham leves melodias de violino; uma distração cortês que escondia a tempestade política que fervia sob cada sorriso polido aqui.

Passos ecoaram no piso polido. Não o passo medido de um ajudante ou guardião. Mais jovem. Leve. Mais impaciente.

Bruno não se virou ao ver Erich se aproximar; percebeu pela energia contida do jeito de andar, pelo leve arrastar que traía uma juventude tentando demais parecer sério.

"Vovô", disse Erich, com a voz cuidadosamente baixa. Parou a uma passada respeitosa atrás de Bruno, esperando.

Bruno demorou um momento sem responder. Deixou o instante se alongar, testando a compostura do neto. Quando finalmente falou, foi sem desviar o olhar do horizonte.

"Você passou a metade do dia me perseguindo por este palácio, Erich. Fale."

Erich respirou fundo, estabilizando-se. Quando deu um passo à frente, entrando na visão periférica de Bruno, a expressão jovem estava tensa, com olhos azuis acesos por algo feroz e não testado.

"Gostaria de solicitar uma audiência particular. Sem seus secretários. Sem nem mesmo o pai."

Bruno levantou levemente a sobrancelha, mas indicou uma porta estreita que levava a uma pequena varanda com vista para os jardins internos.

Eles saíram para o ar mais fresco. Lá embaixo, fontes chucklavam sobre taças de mármore branco. Dois jardineiros cortavam videiras de rosas, com a cabeça humildemente baixa.

Quando Bruno se virou totalmente para encarar o neto, a presença do velho general parecia preencher o espaço.

Mesmo ali, em exílio calmante sob o sol, longe das salas de guerra, havia ferro por trás de sua calma.

"Bem?"

O maxilar de Erich se moveu. Então, as palavras explodedam mais duras do que pretendia.

"A Espanha queima. Uma guerra civil, alimentada por dinheiro francês, agitadores franceses, armas francesas. Nossos aliados estão lá, os destacamentos do Werwolf já travam uma campanha sombria. Mas acredito que isso não seja suficiente. Acho que deveríamos formar uma legião internacional; alemães, sim, mas também russos que nos devem muito, italianos ansiosos para mostrar seu valor, húngaros insandecidos para justificar novas fronteiras. Uma coalizão sob nossas bandeiras, para assegurar a Espanha ao rei e à ordem."

O rosto de Bruno permaneceu impassível, mas uma brisa suave saiu dele. "E?"

"E eu lideraria essa força." Erich fechou os punhos ao lado do corpo. "Como você liderou a Divisão de Ferro na Rússia. Como transformou pedaços e homens destruídos numa ponta de lança que reconfigurou um continente. Deixe-me provar que posso fazer o mesmo."

Era ali. O núcleo; não a Espanha, nem mesmo a influência crescente da França. Mas a necessidade desesperada desse jovem de sair das sombras dos gigantes.

De conquistar seu valor na única moeda que os Zehntner sempre valorizaram: sangue e comando.

Bruno olhou por um longo e terrível momento.

"Você realmente acha que está pronto para essa responsabilidade, Erich? Ou é somente a glória que te impulsiona? Quando entrei na Rússia, já era Generalleutnant e veterano de duas guerras. Você ainda não liderou homens ao combate. E quer comandar uma legião internacional?"

Erich hesitou, mas manteve-se firme.

"Você mesmo me treinou, vovô. Conhece meus estudos, o que supervisei nos regimentos do Tirol. O que planejei com seu staff em Berlim. Não procuro movimentos imprudentes. Quero uma campanha que quebre a vontade dos franceses de se intrometerem na Península por uma geração. Que prove a lealdade de nossos aliados, sob uma única bandeira, sob nossa causa."

Bruno deu um passo suficiente para que Erich visse as linhas finas nas bordas de seus olhos — o mapa de campanhas longas e invernos amargos.

"Quando fui para o leste, não foi por glória. Foi porque o estado desmoronava, porque ninguém mais podia. Forjei um exército na desesperança. Não foi ambição; foi necessidade. Pode dizer o mesmo?"

Erich engoliu em seco. "Talvez ainda não. Mas se deixarmos a Espanha escorregar, ela puxará a França, depois a Grã-Bretanha, depois a América. É uma guerra pequena agora. Ainda podemos moldá-la a nosso favor. Depois, será tarde demais para controlar."

Pela primeira vez, o olhar duro de Bruno suavizou um pouco. Uma fagulha de respeito relampejou ali.

"Você é filho do seu pai… e, talvez, infelizmente para você, isso também significa que é meu sangue. Muito bem. Escreva sua proposta. Certifique-se de que não esgote as reservas essenciais do Tirol. Se eu aprová-la, terá sua legião. E vivenciará cada cova que ela abrir. Mas não lhe darei o comando. Delegarei essa responsabilidade a um comandante mais experiente. Você? Será seu ajudante. E não quero mais falar nisso."

Erich exalou pesadamente, com os ombros tensos, misturando triunfo e derrota. Apesar de não ter conseguido o comando desejado, participar da campanha na equipe de liderança era uma glória emsi mesmo.

"Obrigado, vovô. Não vou desapontá-lo."

Bruno colocou uma mão pesada no ombro dele, apertando uma vez; um gesto que parecia tanto uma benção quanto um aviso final sutil.

"Faça por onde não ser diferente. Agora vá."

Erich virou-se e saiu com uma marcha quase militar, desaparecendo nos corredores ensolarados do palácio.

Bruno permaneceu na varanda, observando os jardins abaixo. Sua mão envolvera a mureta de mármore frio até que os nós dos dedos ficassem brancos.

"Não é que eu tema que você me decepcione... É que sei que ficará desapontado ao perceber que guerra não é ato de coragem e bravura, mas uma orquestra de morte."

Boa sorte, Erich. Você vai precisar."

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