
Capítulo 574
Re: Blood and Iron
O primeiro disparo ecoou próximo às antigas fábricas têxteis próximas à Carrer de Pau Claris. Ao anoitecer, eles se espalharam como fogo selvagem pelas veias da cidade.
Jovens homens de camisas de linho folgadas, lenços vermelhos e pretos amarrados no pescoço, corriam pelos largos bulevares.
Empunhavam rifles franceses; chassepots e Lebels trazidos clandestinamente de Perpignan com a ajuda das novas milícias republicanas de de Gaulle.
Eles gritavam em catalão, palavras ásperas que misturavam orgulho local com fúria anarquista.
Bandeiras marcadas com sóis ferozes e punhos cerrados tremulavam dos balcões. Já, lojistas estavam pregando tábuas sobre suas janelas.
E acima de tudo, pintado às pressas nas paredes de gesso de um café fechado:
"Visca Catalunya lliure!" — Viva a Catalunha livre!
Perto do Passeig de Gràcia, um trio de pistoleiros se escondia atrás de um bonde invertido. Um deles era um garoto que não devia ter mais que dezessete anos.
Ele ria sem fôlego ao disparar um tiro na rua, seu ombro embriagado pelo recuo quase traindo sua pontaria.
Outro se encostou só por um instante para arremessar uma garrafa de gasolina que estilhaçou contra o portão de ferro do Banco Hispano Colonial.
As chamas subiram pela fachada, a fumaça negra e oleosa se enrolando no céu ao entardecer.
Do outro lado da praça, guardas civis locais de uniforme verde escuro tentavam formar um cordão de segurança.
Mas a multidão zombeteira os superava cinco a um, e a cada minuto, mais trabalhadores e estudantes descontentes surgiam das ruas laterais.
Um capitão puxou o bigode espesso, berrando algo para o sargento. A linha vacilou. Depois, quebrou.
Toucas de capacete caíram na pavimentação. Alguns homens arrancaram suas insígnias, jogando-as de lado antes de desaparecerem nas vielas. Os demais simplesmente fugiram, rifles balançando nas correias de couro.
A multidão rugiu. Em poucos momentos, as janelas da antiga delegacia foram quebradas, papéis e móveis destruídos expulsos em grandes convulsões de caos.
---
Na manhã seguinte
Uma tecla de telégrafo estalava dentro do palácio real em Madri. Um clerical correu desesperadamente para a sala do conselho de guerra, olhos arregalados.
"Majestade," ofegou, "Barcelona está perdida. A guarnição local se recusou a agir sem ordens diretas. A polícia se misturou à multidão. Os anarquistas tomaram o arsenal municipal. Estão hasteando bandeiras catalãs ao lado de bandeiras vermelho-sindicalistas sobre a praça."
O queixo do rei Alfonso XIII se apertou. Ele olhou para um mapa da Espanha estendido sob suas mãos encapuzadas, depois para seus generais ao redor.
"Envie a 4ª Mecanizada de Zaragoza. Tanques, cavalaria, infantaria, tudo. Diga ao General Barrera que espero a cidade sob controle em quarenta e oito horas."
Ele fez uma pausa. Seus olhos estavam Vermelhos pela insônia.
"E peça aos heraldos que preparem uma proclamação. Seja claro: Barcelona continua sob a coroa. Não se trata apenas do orgulho de Madri; é a própria sobrevivência da Espanha."
---
Dois dias depois, nas áreas periféricas de Barcelona.
Pontas de aço empurraram pela estrada ladeada de árvores. Velhos tanques da Primeira Guerra — reformados com metralhadoras mais pesadas e canhões — roncavam sobre andadores rangentes.
Soldados com uniformes de campo bege marchavam ao lado, suor escorrendo por seus pescoços apesar do ar fresco.
Guiados por exploradores a cavalo andaluz de cavalo curto, portando lanças erguidas. De trás das linhas, o som lento das badaladas da catedral ecoava como um cântico fúnebre.
Um capitão chegou ao tanque de cabeça de fila, gritou uma ordem. O comboio começou a se espalhar, a infantaria avançando de casa em casa, rifles firmes nos ombros.
Nos arredores da cidade, tiros estouravam de janelas fechadas. Um tanque virou sua metralhadora curta e disparou uma vez.
A granada penetrou uma parede de pedra, enviando uma nuvem de poeira e escombros para a rua. Seguiram-se gritos.
Barreiras surgiam aos milhares. Rampas improvisadas feitas com móveis, pedras de calçada, até velhas camas de ferro.
Por trás delas, homens e mulheres se agachavam com pistolas e facas, os rostos marcados por uma expressão desafiante.
Em uma dessas barricadas na Carrer de Mallorca, um velho anarchista com faixa preta na testa estava sobre um monte de caixotes.
Ele agitava uma Mauser racada no ar, a voz atrofiada enquanto gritava para a multidão.
"Mandam tanques contra o povo! O rei nos teme tanto que encobre seu terror com aço! Vocês irão se curvar? Deixariam Madri nos amarrar de novo?"
Uma multidão rouca de "Não!" ecoou de volta para ele.
O velho puxou um tiro direto na direção dos soldados que avançavam. Depois outro. Depois um terceiro. O último disparo rachou largo, inofensivo contra a pedra, mas foi o suficiente.
A tropa de infantaria espanhola avançou, desencadeando rajadas de rifles. Um pelotão de metralhadoras se deitou, a mira cuspindo fogo. O velho caiu para trás, em silêncio.
Ao cair da noite, os tanques tinham avançado até o Eixample, suas esteiras rangendo sobre slogans catalães pintados nas ruas.
As chamas de edifícios incendiados refletiam em suas casamatas de metal.
De beliches altos, famílias choravam ou arremessavam potes e tijolos. Em vielas escuras, homens mais decididos preparavam granadas compradas com moedas francesas.
Um capitão do exército real, com lama até as coxas, parou numa esquina. Olhou para trás, para a longa coluna de tropas que se estendia por quarteirões.
"Eles nos odiarão por isso," murmurou para seu ajudante. "Mesmo se vencermos. Ainda mais se vencermos."
O ajudante apenas olhou à frente, rezando em silêncio.
Lá longe, em Paris, as manchetes dos jornais da noite apareciam em letras grandes e marcantes:
"SANGUE EM BARCELONA! ALFONSO REPRIME INSURGENCIA COM TANQUES""DE GAULLE: 'OS FRANCESES DEVEM DEFENDER A LIBERDADE EM TODO LUGAR'"
E em Madri, sob os lustres opulentos do escritório particular de Alfonso XIII, ele se serviu de um gole de conhaque escuro. O copo tremeu levemente em suas mãos.
Do lado de fora, as luzes da capital ainda queimavam, lançando sombras longas; cada uma delas indicando contas futuras ainda não saldadas.
---
Bruno leu os jornais de Madri em silêncio, sentado na mesa de manhã repleta de ornamentos reais. Aquela manhã, que tinha sido animada entre duas famílias reais, agora pairava carregada de apreensão.
Quem conhecia Bruno sabia muito bem: se ele permanecia em silêncio diante dessas manchetes, algo já começava a se mover; vasto e invisível.
E isso se desenrolaria, como sempre, nas formas mais sutis e incompreensíveis.
Por fim, ele deixou o jornal de lado, parecendo quase entediado com suas colunas sombrias. Pegou seu garfo de prata e voltou calmamente à refeição.
Manuel não aguentou mais. Sua própria pulsação ressoava na garganta. Ele exalou, tentando manter a calma fragmentada.
"Pois não?"
Os olhos pálidos de Bruno deslizaram preguiçosamente em sua direção, uma sobrancelha arqueada com leve diversão.
"Pois o quê? Seja preciso, Manuel. Como eu poderia adivinhar o que pesa na sua mente com uma pergunta tão vaga?"
Seu sorriso era brincalhão; mas apenas na superfície. As mãos de Hedwig se apertaram na mesa, as juntas ficando branca. Ela já tinha visto aquela expressão antes. Presagia ondas depressivas.
Manuel respirou fundo, agudamente. Colocou seus talheres com cuidado teatral, tentando manter a dignidade antes que ela o abandone de vez.
"A Espanha é minha vizinha. Se eles mergulharem na guerra civil, meu próprio trono estará na trajetória da ruína. Então, Bruno, qual é o seu plano? Que sombra você lançará sobre a Ibéria desta vez?"
Bruno fez uma pausa, a faca e o garfo pairando no ar, depois os colocou com uma precisão fria e deliberada.
Ele se endireitou um pouco, a postura mudando para algo régio, imenso; como se todo o peso dos Alpes tivesse de repente se assentado em seus ombros.
"Não planejo fazer nada," disse suavemente. Então sua voz se abaixou, uma ponta de ferro deslizando sob o veludo.
"Mas de Gaulle deve tomar cuidado. Provocar violência nos Pirineus convida os lobos que atualmente fazem o ninho nos Cárpatos; que já ficaram famintos e inquietos."
Silêncio caiu sobre a mesa. Até os criados nas paredes pareceram ficar parados. Manuel exalou lentamente, o medo acendendo nas retinas.
Bruno pegou seus utensílios novamente, cortando delicadamente seu café da manhã como se a conversa nunca tivesse acontecido.
Não era preciso falar alto. O Grupo Werwolf seria libertado; e essa única verdade carregava seu próprio miasma assustador pelo salão de jantar do palácio.