
Capítulo 554
Re: Blood and Iron
Primavera, 1932. As brasas de Seul ainda brilhavam sob um céu obscurecido por semanas de fumaça e cinzas, mas já a maquinaria do poder tinha retomado seu movimento incessante.
A guerra ainda não tinha acabado.
E tampouco o dever.
Bruno von Zehntner estava à beira de uma grande mesa de mapa na base de comando temporária construída nos arredores de Vladivostok.
Ele e muitos outros, tanto do Alto Comando Estratégico Alemão quanto de seus aliados russos, consideravam necessário se deslocar mais perto do front para os dias finais da guerra.
As paredes estavam recobertas com vigas apressadamente construídas, o aroma de madeira recém-cortada ainda impregnava o ar frio.
Fora, as bandeiras do Império Alemão flankavam as da Rússia Imperial. Dentro, uma reunião de guerra começava a tomar forma.
Alexei Romanov sentou-se no centro da mesa, ladeado por generais russos de alto escalão, marechais alemães e adidos políticos.
Seu rosto era pálido, mas sério. Esta seria sua primeira tentativa de participar de uma guerra. Uma guerra na qual seu pai tinha entrado em nome dos aliados. Uma guerra que seu pai não tinha terminado, morrendo pela metade.
O peso sobre seus ombros era colossal, e ele ainda não sabia exatamente como lidar com isso. Vestia um uniforme que lembrava o de seu pai, um que fazia Bruno lembrar o próprio czar falecido.
Mais jovem, inexperiente, mas disposto a fazer o que fosse necessário e correto pelo seu povo.
"Sua Majestade agradece a presença de todos," começou um dos generais russos, com voz carregada de formalidade, mas Alexei levantou a mão.
"Vamos falar de forma clara," disse o herdeiro do trono. "Estamos à beira da vitória final. Mas ela não pode custar o nosso futuro."
Houve um silêncio naqueles momentos. Um silêncio que só pode ser provocado pela verdade nua e crua.
Bruno se inclinou para frente. "Então, concordamos."
Alexei virou-se para ele. "Meu pai confiava mais em você do que em muitos dentro do próprio governo. Ele disse que você me aconselharia com justiça. Peço isso agora. Não como um garoto buscando conforto, mas como um soberano pronto para acabar com uma guerra."
As palavras do jovem ecoaram com firmeza de aço. Não havia mais dúvida. O que antes parecia uma suavidade infantil na postura de Alexei desapareceu. A dor tinha consumido aquilo. O que restava era ferro.
"A queda de Seul e Iwo Jima," começou Bruno, voltando-se para os oficiais reunidos, "nos trouxe até a beira do abismo. Mas do que exatamente? Da vitória? Ou de um pesadelo prolongado e exaustivo?"
Rommel, sentado mais ao fundo, com uma pasta de mapas suja de cinza, esclareceu a garganta. "Sabemos bem o que os japoneses são. Eles não vão se render. Não a não ser que os quebremos completamente. E mesmo assim—"
"Podem se recusar porbirra," acrescentou um general russo. "O código deles proíbe rendição."
Alexei balançou a cabeça. "Então, forçamo-los a uma posição em que a rendição não seja mais desonrosa; mas uma questão de misericórdia."
Bruno assentiu levemente. Lá estava de novo. O brilho sutil de algo digno no garoto. Algo perigosamente próximo do idealismo. Mas não ingenuidade. Não, ele era calculista.
"Okinawa e Busan," continuou Bruno, "se tomarmos ambos, o Japão perderá sua capacidade de manter uma posição militar de avanço. As ilhas se tornarão bases de ataque. O interior se tornará alvo."
"Devemos agir rápido," disse Alexei. "Antes que a instabilidade interna nos desacelere. Minha coroação ainda não está completa. Meu voice não será ouvido para sempre."
"Querem um ataque conjunto?" Bruno perguntou.
"Sim."
O murmúrio tomou conta da sala. Já houve uma coordenação entre forças alemãs e russas antes. Mas isso seria algo muito maior; uma estrutura de comando unificada para uma última ofensiva.
"Vocês percebem," disse Bruno com cuidado, "que Berlim vai querer garantias?"
"Podem falar em nome deles," disse Alexei. "Eu oferecerei o que for preciso."
Os adidos alemães cochicharam entre si. Rommel olhou para Bruno e deu a mais sutil das encolhidas, como quem diz: Ele agora é problema seu.
"Então, vamos falar de condições," disse Bruno.
Todos se aproximaram mais da mesa, cujo mapa da Ásia Oriental se estendia diante deles. Linhas marcavam divisões anfíbias alemãs. Avanços de blindados russos. redutos japoneses.
Bruno apontou. "A Alemanha lidera o ataque a Okinawa. A Rússia em Busan. Estabeleceremos bases avançadas em uma semana. Conectaremos por Superioridade Naval e Aérea; sua Frota do Mar Negro já provou seu valor, mas podemos ampliar linhas de suprimento por U-boat e cruzadores de suporte."
"Nossos bombardeiros agirão para enfraquecer os alvos antes," acrescentou Rommel. "Ataques precisos. Vamos evitar cidades, reduzir ao máximo as vítimas."
Alexei pareceu tensionar-se. "Nada de bombardeios incendiários. Os civis não precisam sofrer por causa da estupidez de seus líderes."
Bruno fez uma pausa... Nunca foi alguém que priorizasse mitigar vítimas civis na busca pela vitória total. Se os japoneses se recusassem a se render, ele teria meios de forçar a mão deles.
Em teoria, poderia seguir o mesmo caminho que os americanos fizeram no teatro do Pacífico na Segunda Guerra Mundial em sua vida passada.
Mas isso imediatamente provocaria uma corrida armamentista nuclear e tornaria a Segunda Guerra que se viria nesta linha do tempo ainda mais horrenda.
Não, ele vinha acumulando milhões de armas termobáricas e químicas como uma série de deterrentes contra uma invasão ao território alemão, algo que só ele conhecia de fato.
Totalmente testadas, prontas para serem lançadas na Terra do Japão. O problema seria se esses ataques devastadores encorajariam a determinação japonesa ou a destruiriam por completo.
Mesmo assim, com as expressões dos seus colegas, Bruno suspirou pesadamente e balançou a cabeça.
"Concordo, devemos tentar minimizar ao máximo os danos à população civil. Mas não se enganem, nenhuma guerra é vencida sem danos colaterais. Essa é uma dura realidade que vocês precisarão entender se quiserem vencer esta guerra, majestade. Negar essa verdade colocará seu próprio povo em perigo e tornará o conflito muito mais sangrento e prolongado do que precisa."
Houve uma longa pausa. Ninguém quis dizer à herdeira que ainda não tinha colocado a coroa de seu pai a dura verdade da guerra.
Com sua capacidade tecnológica avançada e supremacia aérea total, sentiram que talvez pudessem manter por mais um tempo a ilusão de uma guerra civilizada.
No entanto, Bruno não era homem de minimizar palavras ou de sustentar mentiras por conforto. Esta era guerra, não uma competição de tricô, e Alexei precisava saber a verdade. Não importa o que fizessem, civis morreriam.
Alexei ficou imóvel, respirando o frio do ar de Vladivostok pelos dentes. Por fim, compreendendo por que Bruno sempre foi do jeito que era. O homem era um soldado que vivenciou algumas das batalhas mais brutais da história humana em primeira mão.
Isso moldou sua mentalidade a ferro. E ele sabia que, se fosse suportar o que estava por vir, também precisava fortalecer seu ânimo.
"Muito bem, entendo... Tentaremos acabar com isso com o máximo de decência possível. Mas, se os japoneses nos obrigarem a agir, não haverá escolha senão lançar o caos sobre eles, e só terão de culpar seus próprios líderes pela nossa crueldade. Preparem as ordens. Apresentem-me até amanhã. Assinarei em nome do meu pai e no meu."
A reunião foi encerrada. Gradualmente, a sala esvaziou-se.
Bruno permaneceu. Assim como Alexei.
Só quando ficaram sozinhos o jovem herdeiro exalou e deixou o peso repousar sobre seus ombros. Bruno o observou por um momento, depois se aproximou.
"Seu pai aprovaria," disse calmamente.
Alexei levantou o olhar. "Não sei se consigo viver como ele viveu."
"Você não consegue," respondeu Bruno. "Você não é ele. E o mundo que herda não é o dele. Este mundo está mudando, Alexei, e vai ficar muito pior antes de melhorar. O que fazemos hoje vai lançar as bases do que virá, e, pensando nisso, preciso que você seja forte. Sua família, seu país precisam que você seja forte."
O rapaz assentiu. Então, seus olhos escureceram.
"Eles vão me obedecer quando eu for coroado?"
Bruno não mentiu.
"Alguns sim. Alguns não. Essa é a natureza do poder. Mas comando não é dado. É conquistado. E você precisa segurá-lo com ambas as mãos."
Alexei se levantou novamente, agora mais firme.
"Então, eu vou."
Fora, a neve começara a cair lentamente, silenciosa, como se até o inverno esperasse o começo do futuro.