
Capítulo 556
Re: Blood and Iron
As praias de Okinawa ainda perennializavam o amargor da guerra. Os destroços de bunkers, depósitos de suprimentos carbonizados, capacetes quebrados e o cheiro enjoativo da terra encharcada de sangue se uniam para perfumar o ar com a vitória; e seu preço.
Bruno desceu da rampa do transporte pessoal. O asfalto parecia quase fervendo com o calor do Pacífico.
Estava tão quente que Bruno suspeitava que suas botas derreteriam se permanecesse por muito tempo.
Ele fechou os olhos por um instante e respirou fundo. O ar estava espesso, quente, pesado com cordite e o leve retrogosto de bombas incendiárias.
"Ah," murmurou, com um tom quase nostálgico. "Cheira a vitória!"
"Cheira a disenteria, insolação e más escolhas na vida," disse uma voz atrás dele. Heinrich, sempre relutante, sempre leal, desceu com muito menos graça.
Ele puxou a gola do uniforme, limpou o suor da testa com a manga manchada de graxa e deu um gole longo na sua garrafa de prata amassada.
"Sabe," resmungou Heinrich, "estava começando a gostar de trabalhar atrás de uma mesa. A burocracia finalmente fazia sentido. Papel não sangra."
Bruno deu uma risada, não por alegria, mas por reconhecimento. "Você estava ficando gordo e lento. Isso vai fazer bem para você."
"Vou pegar malária. Ou pé de trincheira. Provavelmente ambos."
Bruno não respondeu. Dar alguns passos à frente, suas botas cruncendo por cima de cartuchos de balas. A batalha tinha acabado horas atrás. O cheiro, não.
Ao redor deles, soldados da 3ª Divisão Kaisermarine realizavam o sombrio teatro do aftermath: puxando feridos, cobrindo cadáveres, apagando os últimos vestígios de resistência.
Passaram por um médico atendendo um homem cuja perna tinha sido dilacerada até o osso. O soldado gritou através de dentes cerrados. O médico manteve-se imóvel.
Heinrich desviou o olhar. Bruno seguiu caminhando.
"Viu o que quero dizer? Se fosse Isonzo, você não teria vacilado ao ver tamanha brutalidade."
O silêncio permaneceu enquanto a pista de pouso no interior se aproximava no topo da elevação; um testemunho da disciplina de engenharia alemã sob fogo.
Foi montada em poucos dias, escavada e limpa por engenheiros de combate que trabalhavam enquanto morteiros ainda cortavam o céu.
E nela, uma frota.
Bruno parou, com os braços cruzados, enquanto a visão se desenrolava diante deles.
Dois Dornier Do 217 alinhados na pista em formação perfeita, seus fuselagens em padrão de lascas queimadas e remendadas, mas prontas para voar.
Os motores roncavam com um brado como lobos enjaulados. Caudas duplas se erguendo como espectros acima de linhas de mecânicos, que se moviam com ritmo preciso: reabastecendo, recarregando, trocando.
Perto deles, uma dúzia de esquadrões de Messerschmitt Bf 109 brilhava sob o sol nascente, suas asas ostentando a suástica em preto e branco. Pareciam predadores mesmo em repouso.
Bruno exalou lentamente. "Em breve começa."
Heinrich entregou-lhe a garrafa sem perguntar. Bruno deu um gole. Algo forte. Cereja? Não. Ameixa. Feito na Rússia.
"Você acha que vão romper as defesas do continente?" perguntou Heinrich, apontando para os bombardeiros.
"Eles não precisam romper. Só precisam fazer um buraco grande o suficiente para sangrá-los."
Grupos de pilotos estavam reunidos por perto, sentados em caixas de munição vazias ou encostados em seus aviões.
Os uniformes deles estavam amassados, manchados de suor e cinzas. Alguns fumavam, outros verificavam equipamentos ou mapas. Todos em silêncio.
Nenhum apresentava o olhar vazio de choque nervoso. Nenhum tremia de nervoso. Não eram imprudentes. Não eram invencíveis. Mas estavam concentrados.
Havia uma calma aterradora a respeito deles.
Focados. Frios. Como mestres de xadrez antes do movimento inicial.
Um deles, um jovem Hauptmann com manchas de óleo no queixo e uma echarpe da Luftwaffe presa frouxamente ao pescoço, olhou para Bruno e assentiu. Não por deferência. Por reconhecimento.
Bruno respondeu com um aceno de cabeça.
De repente, uma sirene soou ao longe; um sinal de teste. Em algum lugar, um oficial dava ordens. As equipes de solo se moveram com renovada urgência.
"Eles sabem que a próxima ofensiva não será como a anterior," murmurou Heinrich.
"Os japoneses sabem que estão encurralados," respondeu Bruno. "Eles lutarão como se a morte fosse uma bênção."
"E nós vamos fazer a nossa parte," murmurou Heinrich. Ele deu mais um gole na garrafa.
Bruno lançou o olhar para o horizonte. Além da silhueta irregular de árvores queimadas e colinas destruídas, o mar reluzia. Lá, no porto, estava a Frota do Pacífico.
Perdas mínimas ao longo dos anos, mas foi reforçada com os mais avançados navios de guerra, substituindo os envelhecidos da High Seas Fleet.
Pomposamente, sobre o oceano e suas ondas, estavam cruzadores, baseados na classe Admiral-Hipper de uma vida passada.
Quatro deles: Hindenburg, Von Moltke, Siegfried e Dornier. Monstros elegantes de aço e poder de fogo, com seus conveses repletos de canhões de baioneta e torres de fogo antiaéreo protegendo-os.
Contratorpedeiros de escolta os circundavam como cachorros leais.
No centro da frota, destacava-se a joia da doutrina naval de Bruno: um superporta-aviões.
Seu casco, originalmente inspirado no projeto Graf Zeppelin, de sua vida passada, tinha sido reimaginado; alongado, alargado e reforçado para abrigar mais de cem aeronaves, distribuídas em vários hangares.
Mas tal leviatã não poderia ser movido apenas por diesel ou vapor. Ele era alimentado pela força da nova era: um reator nuclear experimental, enterrado fundo em seu casco blindado, protegido por tungstênio e chumbo.
O calor que produzia podia ferver oceanos. A energia que fornecia o tornava soberano no mar."
"Era mais que um navio; era um arauto. Um continente flutuante.
O primeiro do seu tipo… e talvez, aos olhos de Bruno, o primeiro de muitos.
Cada um deles pulsava com atividade. Tripulações sinalizavam, oficiais de convés gritavam, guindastes içavam munição na hora certa.
"Operação Dämmerung," murmurou Bruno. "O crepúsculo antes do sol se pôr."
Heinrich franziu a testa. "Nome romântico para um massacre em massa."
Bruno virou-se. "Você acha que ainda há algo romântico nesta guerra?"
"Só o suficiente para deixar os poetas miseráveis," respondeu Heinrich, puxando o casaco com mais força.
Um mensageiro se aproximou, prestou continência. "Herr von Zehntner, o generalfeldmarschall von Mackensen solicita sua presença na cabine de comando. Diz que é urgente."
Bruno acenou. "Diga a ele que estou a caminho."
O garoto saiu correndo.
Heinrich olhou para cima. "De volta ao tabuleiro, então."
"Nunca o deixamos."
Seguiram em direção ao posto de comando avançado, passando entre bombardeiros e tanques, por equipes verificando eletrônica de voo e carregando estojes de objetos de alta explosão.
Ao redor deles, a máquina de guerra do Reich voltou à ativa, preparando-se para um último ato de destruição.
Bruno caminhava altivo, seu casaco esvoaçando como uma bandeira, os olhos fixos no horizonte. Heinrich o seguia, com a garrafa enfiada de volta na casaca, resmungando como sempre.
Acima deles, um dos Do 217 começou a taxiar pela pista.
Seus motores rugiram. As rodas decolaram. E ele subiu ao céu riscado de cinzas.
A guerra voltava aos céus do Japão.