Re: Blood and Iron

Capítulo 592

Re: Blood and Iron

A sala cheirava a café, suor e incredulidade.

Mapas espalhados sobre a mesa de carvalho no centro da sala. Sobreposições táticas, relatórios de reconhecimento e fotos aéreas granuladas que pareciam ter sido tiradas durante um eclipse.

A cordilheira catalã tinha desaparecido. Aplanada. Esculpida como uma ferida na terra.

O General Félix Moreau encarava-os, com a mandíbula tão cerrada que os músculos ao redor da têmpora pulsavam.

"Perdemos quanto?"

O coronel Baptiste, recém-retirado do turno da noite, ajustou os óculos embaçados. Sua voz tremia, apesar do tom militar treinado.

"Tudo, senhor. Da Sierra de Llers até a linha de retaguarda em Castellfollit. As comunicações cortaram logo após as 03h. Acreditamos que o posto de comando republicano foi vaporizado."

"Vaporizaram," repetiu Moreau, com a voz baixa. "Não destruíram. Não foram tomados. Vaporizaram."

Silêncio tenso. Então ele virou-se bruscamente para encarar os outros na sala; chefes de gabinete, analistas de inteligência e representantes da Diretoria Geral de Armamentos.

"Explicam para mim como um setor inteiro de posições defensivas reforçadas nos últimos seis meses, com material francês, baterias de artilharia antiaérea, radares de orientação e mão de obra republicana simplesmente desapareceu no ar, porra?"

Ninguém falou.

Então uma voz fina e aguda quebrou o silêncio.

"Devem ter enviado centenas de bombardeiros. Uma rampagem noturna, possivelmente partindo da Córsega ou da Sardenha. Ainda estamos checando os registros de espaço aéreo espanhol e argelino."

Moreau lançou um olhar que poderia atravessar aço na analista.

"Centenas de bombardeiros," disse com frieza. "Que de alguma forma atravessaram toda a Península Ibérica, lançaram cargas equivalentes a uma divisão de artilharia de campanha e voltaram sem serem detectados, rastreados ou desafiados?"

O homem engoliu em seco e abaixou o olhar.

Moreau virou-se para outro oficial, este com o kepi com detalhes vermelhos do Gabinete de Defesa Aérea.

"Étienne. Algum sinal, alguma coisa que foi captada pelos nossos radares?"

O coronel Étienne Desrosiers parecia um fantasma. Sua farda estava perfeitamente alinhada, mas os olhos vazios.

"Não, mon Général. Nada. Revisamos as imagens de Perpignan, Béziers, até Marselha. A rede de alerta precoce não detectou aproximação em grande escala, nem assinaturas eletromagnéticas, nem interferência no céu."

"Então ou nossos radares estão falhando," disse Moreau, elevando a voz, "ou o inimigo desenvolveu aeronaves que não conseguimos detectar."

Deixou as palavras penduradas no ar.

Alguém tentou interromper, murmurando sobre tripulações catalãs dormindo em seus postos ou simpatizantes separatistas deliberadamente cegando as defesas, mas Moreau bateu com força na mesa o suficiente para fazer as canetas tilintarem.

"Chega de desculpas. Já vi as fotos. Aquilo não foi uma falha republicana. Não foi sabotagem. Foi aniquilação."

Fez um gesto para as imagens granuladas e em branco e preto tiradas por aviões de reconhecimento franceses que voaram ao amanhecer.

Onde antes havia fortificações e trincheiras, agora há apenas cicatrizes negras, crateras de dois andares de profundidade, e o que parecia aço derretido.

"Os americanos acham que foi uma arma de ar combustível," murmurou alguém da inteligência. "Como aquelas que os alemães usaram para terminar a guerra com o Japão no ano passado. Mas isso… isso foi diferente. Mais limpo. Mais silencioso. Intencional."

Um dos ajudantes mais jovens, pálido e visivelmente abalado, finalmente falou.

"Mas isso não significaria que os alemães enviaram apenas um ou dois bombardeiros? Talvez uma nova plataforma de longo alcance? Isso implicaria…"

Moreau respondeu sem se virar.

"Que isso implicaria que o alcance deles é global. Que nossas doutrinas estão obsoletas. Que estamos uma década atrás e contando."

O quarto permaneceu em silêncio.

Ele se aproximou da janela, observando Paris lentamente despertar para um novo tipo de guerra; uma não marcada pelos estandartes de centenas de bombardeiros sobre suas cabeças, mas pelo silêncio da morte enviada de além da compreensão.

Logo atrás dele, alguém finalmente sussurrou o que mais ninguém tinha coragem de dizer em voz alta.

"Se os alemães conseguem fazer isso… em uma linha fortificada… numa guerra que dizem não estar lutando…"

Moreau virou a cabeça, com a voz fria como ferro.

"Então oremos para que nunca declarem guerra."

No entanto, o medo não durou muito, pois o General Lannes apontou um dedo trêmulo para um dossiê deitado na mesa, ainda fechado.

"Vamos esquecer que esse padrão de destruição aconteceu em várias cidades japonesas há apenas um ano? Sem aviões, sem aviso prévio. Apenas silêncio; depois crateras, bunkers derretidos e hospitais enterrados em suas próprias fundações."

Moreau virou-se. "Todos nós lembramos como os alemães destruíram o Império do Japão. Isso foi diferente. Os alemães admitiram o uso de mísseis."

Lannes soltou uma risada amarga. "Admitiram? Não, eles se gabaram. Você lembra do termo? Vergeltungswaffen. Armas de retaliação. Foguetes do tamanho de trens, lançados de onde Deus sabe. Suborbitais na trajetória. E você acha que isso não era a mesma doutrina?"

Um oficial naval com barba prateada e desprezo nos olhos interrompeu. "Você está sugerindo que eles lançaram mísseis sobre a Espanha sem nem um sinal de radar? De onde exatamente? Berlim? Viena? E ninguém viu?"

Lannes bateu o dossiê na mesa e empurrou para o lado.

"De qualquer lugar. Podiam ter bases avançadas na África do Norte. Lançadores em contêiner estilo U-boot, talvez. Ou poderiam ter disparado das Canárias ou dos Alpes, quem sabe."

Um diplomata no extremo da sala falou em voz baixa, mas com uma calma desconcertante.

"Se fosse baseado em mísseis, esperaríamos uma explosão de calor, ionização. Os radares de alarme precoce teriam detectado a assinatura, mesmo se as trajetórias fossem hipersônicas."

O general Lannes não vacilou.

"A não ser que não tenhamos visto porque não eram quentes. Ou talvez não no sentido convencional. E se eles descobriram algo mais? Propulsão por ar combustível? Vetores de lançamento frio?"

O oficial naval zombou. "O que você está propondo agora? Que eles reinventaram a ciência? Que passaram de mísseis rudimentares no Pacífico para ficção científica em seis anos?"

"Não é ficção científica se já estiver em campo," respondeu Lannes. "Chame do que quiser. Mísseis, bombas de glide, até magia. Mas me recuso a acreditar que uma cadeia inteira evaporou por causa de um único avião que ninguém viu chegando."

Moreau respirou fundo pelo nariz e finalmente sentou-se. Parecia exausto.

"Admito, o padrão de dano é… suspeito. Há rastros de colapsos secundários de pressão. Terrain achatado, mas sem vestígios óbvios de explosivos de grande impacto. Isso se encaixa no Japão. Mas não temos confirmação de lançamento, nem destroços de mísseis no local."

Lannes inclinou-se para frente, com a voz baixa e medida.

"Eles não deixariam destroços se usassem armas aerosolizadas. Nem ogivas convencionais. Se o que nossos cientistas disseram for verdade. Os alemães usaram uma nova forma de explosivo no Pacífico, teoricamente chamada de ‘termo-bárico’, mas quem garante que não escalaram essa tecnologia além de tudo que imaginamos? Imagine um sistema de cluster não só para destruir bunkers, mas para eliminar um ecossistema de campo de batalha. Os alemães não bombardeiam para vencer. Bombardeiam para punir."

Seguiu-se uma pausa longa.

Então, pela primeira vez naquela manhã, alguém do corpo diplomático falou.

"Você percebe o que está sugerindo?"

Lannes não piscou.

"Estou sugerindo que estamos lidando com um estado que pode atacar em qualquer lugar, sem punição, e sem a obrigação de explicar como. Seja por aviões invisíveis ou mísseis que não conseguimos detectar; o resultado é o mesmo."

Ele apontou o dedo para o mapa, na localização agora marcada apenas como:

CORDILHEIRA CATALÃ: VAZIO.

"Eles estão nos mostrando o que farão se tentarmos enfrentá-los de igual para igual novamente."

Moreau recostou-se. Seus olhos ainda estavam no mapa, mas o mapa já não fazia diferença.

A guerra ainda não havia começado.

E, mesmo assim, eles estavam perdendo terreno em um campo de batalha de ideias.

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