
Capítulo 529
Re: Blood and Iron
Eles achavam que a guerra seria travada com tanques e aviões. Mas Bruno sabia que era diferente. Guerras não eram vencidas apenas pelo poder de fogo — mas pela previsão.
Em 1910, seus agentes ajudaram a instalar a primeira linha telefônica transcontinental. Em 1915, suas empresas fantasia financiavam discretamente a Lei de Expansão Rural. Até 1920, tecnologia própria de comutação — licenciada por empresas fachada inofensivas — já estava incorporada na AT&T, Bell e Western Union.
Nem um único telefone. Nem um fio. Nem um sinal passing through de um edifício do governo americano sem primeiro passar pelo seu sistema.
O Capitólio? Monitorado. O Departamento de Guerra? Transcrito. A Reserva Federal? Registrada. Até a chamada "linha segura" da Casa Branca passava brevemente por uma estação de retransmissão discreta — instalada por um "fornecedor privado de confiança", que, é claro, tinha ligações com uma mansão fora de Potsdam.
E toda noite, às 2h no horário de Berlim, as gravações do dia — comprimidas, indexadas, traduzidas — eram entregues por mensageiro à Abteilung XII do Großes Generalstab.[1] - Departamento XVII do Grande Estado-Maior]
Lá, atrás de cofres de bronze lacrados com cifras, linguistas e analistas examinavam tudo — desde subsídios agrícolas até memorandos de compras navais. Eles não adivinhavam as intenções de Washington. Eles já sabiam.
Bruno raramente falava sobre a América em reuniões de alto nível. O que poderia ser dito?
"Eles falam ao nosso ouvido e chamam isso de liberdade."
Somente um americano descobriu a verdade: o presidente Charles Evans Hughes. Mas, quando percebeu o quão profunda era a infiltração alemã, já era tarde demais. Seja por medo, por derrota ou por uma compreensão silenciosa de que resistir era inútil — não contou a ninguém.
Cada plano. Cada negócio nos bastidores. Cada segredo. Documentado. Arquivado. Congele.
Se algum dia fosse liberado, as provas derrubariam o Estado americano de dentro para fora. Bruno não precisava de tanques em Washington. Ele tinha fitas. Fitase, transcrições... e timing.
A mídia americana — rádio, imprensa, até as roditas primeiras de televisão trazidas pelos intermediários alemães — explodiriam em escândalo. O resultado? Guerra civil. Ou revolução. Talvez ambos. Uma república devorada por suas próprias ilusões.
Mas Herbert Hoover não sabia disso. Achava-se discreto. Acreditava que a ajuda da Inglaterra lhe daria poder. Pensava que Bruno poderia ser abafado.
Estava enganado.
Em Berlim, Bruno tomava um café preto enquanto revisava as últimas fitas. A voz de Hoover estalava no fone, nervoso e desesperado:
"Que diabos você quer dizer com o fato de que as ações da Standard Oil foram compradas? Por quem? Quem diabos tem essa quantidade de dinheiro? Você não sabe? Vai ter que descobrir — OU EU VOU TE ARRANCAR OS ÓCTUPOS!"
Bruno quase engasgou. Precisou conter uma risada com um gole de café enquanto a porta rangeu ao se abrir.
Heinrich von Koch entrou, visivelmente cinco anos mais jovem do que na última vez que Bruno o tinha visto.
"Se eu não soubesse melhor," Bruno sorriu de lado, "Diria que finalmente achou uma mulher para fazer de você um homem de verdade."
Ao invés de montar um bico, Heinrich respondeu com suavidade: "Ria à vontade. Só não me odeie porque um cachorro velho ainda tem dentes."
Bruno quase deixou a caneca cair. "Você tá me tirando? Agora? Na sua cinquentona? Vai se casar? Com quem?!"
Heinrich deu de ombros e sentou, falando com uma calma treinada: "Sou velho, Bruno. Demorei para admitir. Nem todos nós ficamos congelados no tempo como você. Você não envelhece — apenas melhora. Mas eu? Depois que a Alya foi embora para se casar com seu filho, a casa ficou... silenciosa."
Bruno piscou, perplexo. Quando finalmente falou, a voz saiu mais dura do que pretendia: "Alya e Erwin estão casados há mais de uma década. O mais velho deles tem quase treze anos. Você só está percebendo isso agora?"
Heinrich resmungou, tentando aliviar a tensão: "Cala a boca e torce por mim, vai?"
Bruno respirou fundo, com um sorriso, e riu até precisar enxugar os olhos. "Beleza. Então, quem é ela?"
"Você não a conhece," disse Heinrich. "Filha de uma condessa de Württemberg, terceira filha. Tem a minha idade pela metade. Nossas famílias têm vínculos — faz sentido."
Bruno recostou-se, sorrindo sapiente. "Então o famoso Heinrich von Koch—fascinado, espadachim, demolidor de salões do Reno—finalmente se casa... com alguém mais jovem que sua própria filha. Que poesia."
Heinrich o encarou com uma expressão de irritação: "Você é um idiota."
"E você, um desmancha-prazeres," Bruno retrucou. "Estou ansioso pro casamento."
Depois que Heinrich saiu, Bruno ficou sentado sozinho, saboreando o que restava do café. O sol lá fora começava a descambar atrás dos telhados cobertos de neve de Berlim, projetando sombras longas pelo parquete.
Ele não esperava ser perturbado novamente naquela noite—até que alguém bateu à porta.
"Entre," chamou Bruno, sem levantar os olhos.
A porta rangeu, e uma voz de menino—vacilante, mas decidida—rompeu o silêncio.
"Vovô?"
Bruno olhou para cima.
Era Erich—o mais velho de Erwin. Já quase treze anos. Com ombros largos para a idade, olhos pálidos como o pai e cabelo escuro e liso como a mãe. Movia-se com uma postura militar, embora o sobretudo grande demais o fizesse parecer uma criança tentando vestir o uniforme de soldado.
"O que faz aqui a esta hora?" perguntou Bruno, indicando a cadeira ao lado.
"Disseram que você tava ouvindo fitas de novo," disse Erich ao se sentar. "O pai diz que é falta de educação te interromper durante assuntos do Estado. Mas eu achei que... você poderia ter um momento."
Bruno inclinou a cabeça. O tom do menino era marcado — longe de algo adequado para alguém tão jovem.
"Sempre tenho um momento pra você," respondeu Bruno, baixando o dispositivo no ouvido. "O que quer saber?"
Erich hesitou, depois tirou do casaco um panfleto dobrado, com as páginas amassadas e marcadas, um folheto de recrutamento para cadetes.
Bruno franziu a testa levemente.
"Encontrei isso," disse Erich. "Na academia. Tenho lido todo dia."
"Você tem anos antes de poder se inscrever," respondeu Bruno com calma. "E o seu pai—"
"Meu pai quer que eu seja diplomata," interrompeu Erich, surpreendendo até a si mesmo. "Estudar línguas. Economia. Negociações comerciais."
Ele olhou para baixo, segurando o panfleto como um escudo.
"Mas eu quero ser como você."
As palavras pairaram no ar como pólvora esperando uma fagulha.
Bruno recostou-se, observando o garoto não como um avô, mas como um juiz avalia um réu — olhos indiferentes, feições de pedra.
"Você quer travar guerras," disse Bruno, seco.
"Não," respondeu Erich, com a voz trêmula por um instante, mas se fortalecendo. "Quero proteger o Reich. Como você faz."
Bruno ficou em silêncio.
"Você nos salvou," continuou Erich, com a voz mais apaixonada. "O pai diz que, apesar de lutar contra inimigos no leste, sul e oeste, você estava lá rompendo a linha, obrigando os inimigos a capitular!"
Uma pausa.
"Sérvios, otomanos, italianos, franceses e britânicos. Não conseguiram avançar um centímetro no solo alemão por sua causa. Você protegeu nossas fronteiras; protegeu o nosso modo de vida... Você protegeu nossa família, e eu quero fazer o mesmo!"
Ele olhou para cima, olhos arregalados. "Quero ajudar a fazer isso. Não quero ficar em escritórios assinando papéis enquanto outros homens morrem."
Bruno fechou os olhos por um instante.
Tão jovem, pensou. Tão seguro.
E ainda assim… não seria ele o mesmo naquela idade? Um menino com fogo no sangue e uma visão na cabeça? Quando ainda era Karl, apenas um velho cansado renascido num mundo que ainda nem sabia o que ia despertar.
Ele olhou novamente para o neto — não como uma criança, mas como um possível herdeiro de algo maior que sangue.
"Você sabe nada sobre guerra, Erich," disse, por fim. "Acha que há honra e glória na guerra? Mas não há. Existe medo... medo e sangue."
Apesar dos avisos de Bruno, Erich não cedeu. Sua postura se firmou, reafirmando sua reivindicação.
"Eu quero aprender."
O tom de Bruno foi firme e decidido: "Vai aprender. Mas ainda não."
Bruno levantou-se, caminhou até a janela, com as mãos atrás das costas.
"Veja, um Reich vitorioso. Você enxerga força. Poder. Respeito. Mas o que você não vê são os caixões por trás de cada tratado. As cadeiras vazias em cada festa."
Virou-se um pouco, com os olhos de Bruno refletidos no vidro, enfrentando Erich.
"Quando vou à guerra, faço com mão pesada e coração mais pesado ainda. Não se lidera homens ao inferno só com ambição. É preciso carregar seus nomes quando eles não voltam."
Erich não respondeu.
"Construi esse Reich para que meninos como você não precisassem morrer," continuou Bruno. "Mas, se a guerra vier de novo — e vai — então serão homens como você que terão que terminá-la."
Silêncio. Novamente.
Depois, Bruno voltou ao seu escrivaninha, apoiando a mão no ombro de Erich. "Você vai aprender o que é servir. Mas não vai aprender isso em folhetos ou desfiles. Vai aprender comigo."
"Você quer dizer—"
"Vou ensinar pessoalmente. História. Política. Guerra. Estratégia. Você não será soldado," disse Bruno, "até entender o peso do comando."
O menino levantou-se, quase esquecendo de cumprimentar em sinal de respeito, só percebendo que não era um oficial, mas seu avô.
Bruno fez um gesto para ele sair. "Vai pra casa. Já é tarde."
"Sim, vovô."
Quando a porta se fechou, Bruno voltou para sua mesa. Pegou novamente o fone, mas não colocou de volta.
Ficou ali, apenas olhando para o nada.
O futuro acabara de entrar em seu escritório.
E carregava seu nome.
Uma única ideia escapou dos lábios de Bruno, num sussurro tão baixo que apenas ele pôde ouvir:
"Não vou deixar que ele sofra o mesmo destino..."