Re: Blood and Iron

Capítulo 530

Re: Blood and Iron

O castelo se erguia sobre o interior de Württemberg como um veterano envelhecido—digno, marcado pelo tempo e obstinadamente ereto. Como Heinrich von Koch ele próprio.

Bruno ajustou as mangas com uma irritação que só se reserva para eventos formais. O caminho estava lamacento. Seu casaco amarrotado. E pior, ele ainda não tinha tomado sua segunda xícara de café. Ao longe, uma música de cordas pairava na entrada da capela. Excessivamente alegre, quase insuportável.

Heinrich estava se casando.

"Loucura," Bruno murmurou ao subir os degraus de pedra. "Ele teve que escolher uma manhã fria de inverno no interior como local da cerimônia. Sou eu ou Heinrich está brincando comigo de propósito?"

Heidi riu baixinho, sacudiu a cabeça e apertou o namorado com força, um pouco além do que um evento tão formal permitia. E, ao mesmo tempo, sussurrava em seus ouvidos.

"Além de mim, ele é talvez a pessoa que mais te conhece, afinal. Mas não o culpe tanto assim. Fui eu quem escolhi o horário, a data e o lugar…"

Ao dizer isso, Heidi se soltou dos braços de Bruno, correndo como se fosse uma mulher com metade da idade. Bruno não pôde evitar ficar observando, balançando a cabeça com um sorriso debochado enquanto o fazia.

O interior do castelo estava iluminado por lustres com tons dourados e pelo aroma pesado de incenso e rosas. Nobres—alguns antigos, outros recém-surgidos—circulavam com suas vestes completas. Homens com agbaye de epaulets, mulheres de pérolas, primos com modos impecáveis e ambições venenosas.

Bruno atravessava-os como um lobo entre cachorros mimados pela diplomacia e fofoca. Alguns se curvavam; a maioria se abria como o mar.

Chegou exatamente quando Heinrich estava de pé no altar, radiante, com um uniforme sob medida, mais cerimonial do que funcional.

A noiva ao lado dele parecia quase etérea—alta, pálida, de olhos escuros, com um véu que brilhava como geada. Anneliese von Zollern. Terceira filha de uma casa respeitável, embora falida.

O primeiro pensamento de Bruno ao vê-la foi: Ela sabe.

Ela sabia quem Heinrich era. O que ele representava. E ainda assim, estava ali. Riqueza, glória e prestígio tinham uma forma de conquistar o coração de uma mulher. E as medalhas no peito de Heinrich o faziam parecer duas décadas mais jovem do que realmente era.

Porém, ninguém dizia essa verdade silenciosa enquanto a cerimônia começava. A oficiante falou de forma monótona. Promessas foram trocadas. Bruno quase cochilou até Heinrich tropeçar um pouco ao colocar o anel.

"Ainda nervoso depois de todos esses anos?" Bruno sussurrou secamente, ao seu lado, como padrinho.

Heinrich não respondeu. Mas o franzir de sua sobrancelha dizia tudo.

A recepção aconteceu na antiga sala de caça, reformada para o evento. Músicos tocavam valsas. Criados passavam champanhe e vinhos encorpados. O cheiro de pato assado e caça temperada impregnava o ar.

Bruno achou um canto para roubar um momento de paz. Eventos formais assim sempre foram sufocantes para ele. Gostou das próprias festas de casamento de seus filhos, mas era de um sentimento paterno, não de uma sociabilidade natural.

Porém, aquela paz durou apenas doze minutos antes de ser interrompida.

"Você nem finge estar se divertindo," Heinrich disse, aproximando-se com duas taças.

"O que posso dizer? Não importa o quanto envelheça, quantas dessas formalidades eu participe, não consigo me acostumar. São muitas pessoas... Muitas ameaças escondidas nas sombras."

Heinrich riu. "Paranoico como sempre, hein? Meu Deus, você é insuportável. Pelo menos finja que está feliz pelo seu melhor amigo, enquanto escaneia o ambiente atrás do inimigo imaginário."

Bruno respirou fundo e suspirou, ajustando as medalhas no colarinho, antes de pegar a taça de Heinrich e dar um gole enorme de uma só vez. Seu humor relaxou, assim como seu sorriso.

"Casou com uma mulher metade mais nova que você. Em um castelo. Vestindo uniforme completo. E eu sou o insuportável?"

Eles brindaram.

Heinrich levantou uma sobrancelha, avaliando Bruno com um olhar julgador e tom semelhante.

"Diz o cara que usou a regalia cerimonial de Marechal de Estado-Maior russo na Catedral de Santo Isaac, como se fosse dono do lugar na festa da filha dele. Você realmente vem me julgar, quando fez muito pior?"

A resposta de Bruno travou na garganta ao perceber que tinha exagerado com as festividades ao celebrar os casamentos dos próprios filhos. Mas, ali, por seu melhor amigo, havia revertido aos seus modos paranoicos e anti-social usualmente.

Heinrich prosseguiu enquanto deixava Bruno respirar.

"Aliás... Ela faz bem pra mim," Heinrich disse após um momento. "Ela vê algo em mim. Algo que só a Alya conseguiu ver antes dela."

Bruno bufou.

"Ah, trauma. Essa é a razão de vocês se entenderem tão bem? Como eles chamam? Laços de trauma?"

"Vai se catar!" O tom de Heinrich era meio sério, meio brincalhão, enquanto os dois riam de suas guerras de palavras. Mas, por trás da alegria, havia algo verdadeiro nos olhos de Heinrich. Uma espécie de paz que Bruno não via nele há tempos, desde antes das trincheiras.

"Fico feliz por vocês," Bruno disse, com sinceridade que escorria da sarcasmo. "Mesmo que sua filha pudesse ser madrasta dela."

"Para de besteira."

Depois, Bruno foi puxado a fazer um brinde. Ele se colocou diante do salão, levantou a taça, os olhos meio fechados, cansados e com traços de vinho na expressão.

"Senhoras. Senhores. Nobres de diferentes graus de legitimidade. Conheço o Conde Heinrich von Koch desde que ambos escolhemos a profissão louca de sermos oficiais de infantaria.

Se soubéssemos que uma Grande Guerra iria se desencadear na década seguinte à nossa entrada, acho que, pelo menos, teria escolhido um emprego mais seguro.

Com isso, meu amigo aqui é arrogante. teimoso. Muitas vezes eticamente questionável. E, pelo menos três vezes, foi baleado por motivos que não vou revelar em ambiente civilizado.

Mas ele também é o melhor homem com quem tive o azar de servir. Leal ao extremo. Corajoso além do razoável. E, agora—de alguma forma—casado.

Com Anneliese, a qual envio meus pêsames—e minha admiração. Que vocês encontrem alegria na loucura um do outro.

Aos noivos."

Ele bebeu. O salão explodiu em aplausos corteses e algumas risadinhas abafadas.

Heinrich abriu a boca para dizer algo: Seu filho da puta.

Bruno sorriu e fez uma reverência.

Conforme a noite avançava, Bruno se dirigiu ao balcão, olhando para as vinhas iluminadas sob a luz da lua. As estrelas brilhavam. Música vinha de trás dele.

Passos se aproximaram.

Era Anneliese.

"Ele está dormindo em um banco," ela disse em voz baixa. "Seu brinde quase matou ele."

Bruno não se virou. "Ótimo. Ele precisava de um cochilo."

"Você acha que não estou vendo que não sou boa pra ele, né?"

Ele fez uma pausa. Depois, virou-se para ela. "Pelo contrário, acho que você é exatamente a força de estabilidade que ele precisa, agora que não tem mais sua filha adotiva para viver por ela."

Bruno ficou em silêncio por três segundos, recolhendo seus pensamentos adequadamente antes de dar voz a eles.

"Aliás, você não é uma tola de olhos arregalados. Claramente, você se importa mais com ele do que com dinheiro e medalhas. O que é mais do que posso dizer de muitos que tentaram conquistar seu favor ao longo dos anos. E ele... nunca foi de deixar algo passar uma vez que escolheu."

Ela olhou para as vinhas com ele. "E eu achava que você desaprovava nossa situação..."

Bruno riu enquanto sacudia a cabeça, depois se virou da varanda, olhando nos olhos da jovem noiva, e falou sua paz.

"Dois dos meus filhos estão casados ou noivos com mulheres nove anos mais velhas. Um deles é a filha adotiva do Heinrich. Eu seria um hipócrita se aprovasse esse tipo de relacionamento, mas não o que você tem com meu irmão de voto. Não faço julgamento, apenas preocupação com um homem que sangrou o suficiente por minhas ambições."

Silêncio.

"Obrigada por ter vindo," ela disse finalmente.

Bruno assentiu. Depois, em voz baixa: "Cuide bem dele. Ele é mais corajoso do que sábio."

A mulher se virou, o vento levantando seu vestido branco puro. E então, ela parou. Silêncio, seguido de uma única frase.

"Sei. Por isso mesmo, aceitei."

Bruno já imaginou que Heinrich morreria sozinho, com a arma na mão, cercado por fumaça e silêncio.

Mas Alya mudou isso. Agora, Anneliese continuou de onde ela parou—embora com mãos muito mais delicadas.

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Bruno saiu antes do amanhecer, com o casaco jogado sobre o ombro, um sorriso quase imperceptível nos lábios.

Casamentos geralmente eram terríveis. Ou, por que não dizer, qualquer reunião formal de tanta escala e grandiosidade.

Mas, de forma estranha, essa não parecia uma despedida.

Parecia um começo.

E esses eram bastante raros para valerem a pena lembrar.

Mesmo assim, uma certa tristeza apertava seu peito. Heinrich tinha finalmente crescido... Mas seu coração doía pelo que poderia ter sido entre Erich e Louise. O que nunca poderia acontecer por causa de suas próprias falhas...

Era um peso de culpa que ele nunca se libertaria totalmente, mas naquele dia, Bruno optou por não refletir sobre isso por mais que fosse necessário. E, ao invés disso, abraçou os ventos de mudança que finalmente chegaram para um velho teimoso.

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