Re: Blood and Iron

Capítulo 534

Re: Blood and Iron

O ataque nas Filipinas passou praticamente despercebido pelo mundo em geral. Mas quem jogava o jogo da geopolítica e da grande estratégia percebeu que aquele momento marcava um ponto de virada nas questões mundiais.

De modo geral, havia duas maneiras pelas quais o público reagiria à violência exercida pela guarnição dos Estados Unidos na vila rural fora do centro de Manila.

E isso dependia totalmente se a violência tinha sido uma reação, no calor do momento, contra agitadores, terroristas, revolucionários ou vândalos, ou se havia sido uma retaliação brutal e posterior.

Por exemplo, se um grupo de policiais armados disparasse contra vândalos que atiravam tijolos, coquetéis molotov, explosivos improvisados e até se engajassem em troca de tiros, então a maioria do país não se importaria.

Alguns até achariam aquilo até cômico, de uma forma quase cósmica. Apenas os cidadãos mais radicais apoiariam os agitadores; e esses já eram os tipos que provavelmente se juntariam à revolução desde o começo.

Nesse caso, o conflito civil que surgisse poderia geralmente ser controlado; desde que as forças do governo estivessem dispostas a se dedicar à violência a partir daquele momento e fossem pelo menos razoavelmente competentes no que faziam.

Por outro lado, a novela mudava completamente quando a violência era uma retaliação, indiscriminada e brutal, contra pessoas inocentes, totalmente alheias ou apenas vagamente ligadas aos agitadores.

Mesmo que evidências de vínculos fossem descobertas depois, a mídia sempre conseguiria esconder a verdade e pintar as vítimas como mártires—transformando o peso do Estado no vilão da narrativa.

A mídia raramente apoiava o povo ou o próprio Estado. Ela sempre favorecia seus próprios interesses.

Se não fossem exatamente aliados ao poder, e se tivessem liberdade para publicar o que quisessem, distorceriam, mutilariam e deformariam a história da melhor forma para promover sua agenda.

Bruno tinha pleno conhecimento disso. E sabia que a situação nas Filipinas tinha agora ultrapassado essa linha. Não havia mais dúvidas de que a mídia local iria retratar o episódio como uma chacina promovida pelo governo contra civis.

Aquele relato se proliferaria como uma podridão; e agora os Estados Unidos, ou melhor, suas forças no Pacífico Sul, teriam que arcar com a consequência da própria estupidez.

À mesa, Bruno estava acompanhado de dois membros de sua família. Ambos tinham viajado até o quartel-general do Estado-Maior para continuar sua educação política. Eva, agora princesa de Tirol e consorte do príncipe de Prússia, sentava-se em frente ao pai.

Ela agia como uma estudante avançada; ali para observar e avaliar a lição que seu sobrinho, Erich, recebia, ainda jovem demais para lutar suas próprias guerras, mas já aprendendo como vencê-las.

Bruno não tinha manifestado opinião alguma sobre o ocorrido. Em vez disso, encarregou seus alunos de preparar uma análise das consequências.

Erich seria o primeiro a falar. Ele olhava fixamente o dossiê diante de si, com os olhos alternando entre relatórios das tropas e um mapa do Pacífico Sul, enquanto sua tia e seu avô bebiam cerveja em silêncio, atentos a cada movimento dele.

Quando finalmente se manifestou, ambos ficaram surpresos.

"Acredito que as consequências mais severas serão quando o público americano descobrir o que seu governo fez. Para um país que defende a liberdade, a liberdade de expressão e a busca pela felicidade—matar civis inocentes numa terra que ocupam, só porque esses povos fazem algo semelhante ao que um dia fizeram seus próprios pais fundadores... isso é hipócrisia, não é?"

Bruno lançou um olhar para sua filha, silenciosamente perguntando: Quer contar pra ele, ou devo eu?

Eva apenas levantou uma sobrancelha, claramente se oferecendo para assumir a tarefa.

Bruno colocou sua caneca de cerveja com um leve baque, sentou-se ereto e fez um gesto em direção ao mapa; especificamente, para os Estados Unidos continentais.

"O povo americano não liga para as Filipinas."

Erich abriu a boca para contestar, mas Bruno levantou a mão para silenciar.

"O povo americano acredita no que a mídia diz para acreditar. Deixa eu te perguntar uma coisa: você realmente acha que uma população em colapso econômico se preocupa com pessoas que nunca viu, em um país que nem consegue pronunciar o nome, e que talvez nunca visite?"

Erich hesitou, sem saber bem como responder.

Bruno não esperou a resposta.

"Ninguém realmente se importa. De verdade, não. E se alguém diz que se importa, está mentindo. Está usando essa falsa empatia como máscara para esconder suas verdadeiras intenções; ou pior, como uma arma de vergonha, um instrumento de submissão."

Houve um silêncio pesado. Então o tom de Bruno se endureceu.

"As pessoas dizem qualquer coisa para conseguir o que querem. Se você quer saber no que alguém realmente acredita, ignore o que fala. Preste atenção somente em como age. Entenda por que age assim... e você saberá como controlá-las."

Erich deixou aquelas palavras sefirmarem. Olhou novamente para o mapa. Depois de um longo silêncio, finalmente assentiu, com compreensão surgindo em seu rosto jovem.

"Você está dizendo que... sem entender o comportamento dos americanos—ou o que os motiva—foi uma besteira da minha parte tentar prever o próximo movimento deles."

Bruno não respondeu. Simplesmente moveu uma figurinha de submarino esculpida, mais perto da costa americana. Sua voz, agora serena, invocou passado, presente e futuro em uma só respiração.

"Conheça seu inimigo, conheça a si mesmo, e não precisará temer cem batalhas."

Depois, ele sorriu levemente e transformou o antigo provérbio em algo bem mais perigoso:

"Mas quando você compreende a essência do ser humano, sua natureza, seus medos e desejos, não luta mais pela vitória suprema. Você se transcende. Você joga por algo muito maior: a autoridade máxima."

Ele reclinou na cadeira, o olhar fixo no neto.

"E isso, Erich, é o jogo que jogamos nesta família."

Erich ficou em silêncio, sentindo o peso da realização sobre si pela primeira vez na vida. Essa era sua família—as sombras por trás do trono, a mão invisível que guiava imperadores e moldava o destino das nações. Não eram meramente governantes, mas os autores do conto da humanidade. E seu avô... tinha criado tudo isso em uma única geração.

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