
Capítulo 546
Re: Blood and Iron
Bruno estava jantando com o Kaiser. Os dois desfrutavam de algumas cervejas e uma refeição bem reforçada no Palácio Imperial de Berlim.
O ano tinha sido bastante difícil para Bruno. Ele passava seu tempo em Berlim, morando na mesma caserna dos jovens recrutas, enquanto gerenciava a guerra nos mínimos detalhes.
Seja nas redes logísticas do quartel-general ou nos movimentos das tropas no campo, ele garantiam que tudo estivesse sob controle.
O sono era raro, e os luxos que ele já tinha desfrutado ao lado da família estavam há muito tempos ausentes.
No entanto, ao se reunir com o Kaiser, Bruno sempre se certificava de estar em plena forma.
Seja pela barba bem feita, pelo perfume recém-aplicado ou pelo cabelo arrumado — que, agora na casa dos cinquenta anos, começava a mostrar sinais de grisalho — Bruno sempre se apresentava com o máximo de decoro. Para ele, era uma questão de respeito e cortesia adequada.
Quanto ao Kaiser, ele parecia estar bem para a sua idade. Comentava sobre a guerra como se fosse coisa de outro mundo, uma pequena contrariedade a ser resolvida.
"Então, ouvi dizer que as linhas japonesas na Coreia vão recuar dentro de duas semanas, já que os russos garantiram que suas ofensivas de inverno estão preparadas. Se elas tiverem sucesso, quanto tempo você acha que levará até o fim da guerra?"
Bruno pensou por um instante, levantando o olhar em direção ao teto antes de retomar a cutting na sua salsicha.
"No máximo, até o próximo verão. Apesar de parecer que os japoneses já estão em um estado de conflito interno. Com a morte do Imperador e do Príncipe Herdeiro, reina o caos. Todos com ambições estão tentando consolidar poder, ao invés de focar no esforço de guerra."
O Kaiser reagiu com uma risada desdenhosa, balançando a cabeça enquanto continuava a comer.
"Amadores."
Bruno sorriu e assentiu, concordando. Estava quase para falar da situação atual nas Filipinas e seu impacto nos Estados Unidos quando um ajudante entrou apressado na sala e sussurrou algo em seu ouvido. Bruno respondeu de forma seca, mas educada.
"Obrigado, Oberst. Por enquanto, é só. Eu aviso quando estiver pronto para tratar do assunto."
Ele limpou a boca com o guardanapo e olhou para o relógio, despedindo-se do ajudante com um gesto discreto. O Kaiser notou.
"Está havendo algum problema?"
Bruno foi buscar sua caneca de cerveja, tomou um longo gole e balançou a cabeça.
"De jeito nenhum. Tenho uma visitante inesperada. Uma pessoa do meu passado com quem não converso há bastante tempo. Provavelmente está aqui como agente do inimigo, tentando me manipular para negociar termos favoráveis aos japoneses. Mas ela não significa nada para mim. É um truque, nada mais. Meu papel nesse jogo pode esperar até terminarmos a refeição."
Wilhelm levantou uma sobrancelha, mas voltou sua atenção para a comida. Ainda assim, suas palavras eram cortantes.
"Então ela é como Marie-Adélaïde, é?"
Comentário inocente, mas que machucou Bruno mais do que Wilhelm esperava. Bruno colocou os talheres na mesa e elevou um pouco a voz, defendendo-se.
"Nada disso. Eu cometi um erro com Marie. Mas com essa mulher — e todas as outras — nunca houve nada de verdade. Só uma paixão passageira de uma adolescente enamorada, um carinho que ela manteve por tempo demais. Desde o começo, deixei claro que a via mais como uma criança. Você me conhece há tanto tempo e ainda pensa tão pouco de mim?"
Em todos os anos de amizade, Bruno nunca tinha elevando a voz para Wilhelm. E agora, na fase final da vida do Kaiserd, ele finalmente via o verdadeiro homem.
Wilhelm deixou os talheres no prato, sentando-se ereto e encarando Bruno de igual para igual.
"Eu te conheço desde quando você era um adolescente. Lembra do nosso primeiro encontro? Claro que lembra. No dia em que minha filha completou dois anos. Você começou um duelo na minha casa — um ato ilegal — com aquele grosso convencido. Você deu um sangue nele. Toda corte aplaudiu você."
Bruno permaneceu com olhar desafiador.
"Você tinha quinze anos. Apenas um filho de Junker. Ainda assim, pegou uma espada contra um príncipe, sem medo das consequências. E fez isso para defender a honra da sua mulher. Desde aquele dia, soube que você teria grandeza. E te dei todas as oportunidades de provar isso. Você nunca me decepcionou."
Bruno estreitou os olhos.
"Vamos mesmo ficar aqui discutindo história antiga? Com todo respeito, Sua Alteza, não há assuntos mais importantes para tratar agora?"
O Kaiser suspirou e deu mais um gole na caneca.
"Bruno, conheço você há muito tempo. Não se ofenda, mas preciso te dizer: você costuma ver as pessoas como jogadores inimigos ou peças no tabuleiro. Isso te leva a desconfiar dos outros, até daqueles que realmente querem te ajudar. Por isso as coisas com Marie aconteceram do jeito que aconteceram. Então, por que não vai falar com essa mulher e escuta o que ela tem a dizer, sem presumir que o mundo todo está conspirando contra você — pelo menos, por um momento?"
Bruno bufou e acabou seu caneco. Levantou-se, limpou a boca com o guardanapo e o jogou casualmente na mesa.
Seu comportamento sem decoro foi notado, mas o Kaiser não comentou nada. Bruno quebrou o silêncio.
"Desde quando você ficou tão sábio, Wilhelm?"
Depois, saiu sem dizer mais nada. O Kaiser ficou em silêncio, nem zangado nem ofendido. Um sorriso sincero se abriu em seu rosto.
"Quarenta anos que estendo a paz da amizade. E essa é a primeira vez que você me chama pelo nome. Uma pena que só aceite agora, quando já estou no fim da minha vida."
Apesar de suas palavras, o humor de Wilhelm permaneceu elevado durante toda a noite. Como se tivesse conseguido marcar na sua lista de sonhos mais um feito final. Quanto a Bruno, foi até confrontar Sakura e ver o que ela tinha a dizer. E por que, depois de tanto tempo, ela havia voltado.