Re: Blood and Iron

Capítulo 498

Re: Blood and Iron

O ano era 1920, e bandeiras ardiam, ostentando as cores da França de ambos os lados. Mas cada uma delas era distinta ao centro, e os símbolos exibidos ali também eram únicos. Ao redor, uma imensidão de corpos. Alguns usavam uniformes antigos da Grande Guerra, mal lavados durante os quatro anos desde então.

Outros eram novinhos, limpos ou anteriores às manchas de sangue e lama que recém os cobriam em um tom de verde-olive. Uma grande batalha havia sido travada ali. Os corpos eram incontáveis. Incontáveis mesmo. E, no entanto, esse não era um conflito entre duas nações estrangeiras ou culturas.

Era, na verdade, entre irmãos, primos e vizinhos. Por quê? Só eles sabiam o que valia matar um ao outro. Sobre os cadáveres de soldados com braçadeiras da Milícia Galliana, Pétain, com seu uniforme tão limpo e impecável como sempre, aplicava cera fresca ao bigode, enquanto a chuva tentava ao máximo eliminar a mancha humana que sujava a terra abaixo.

Apesar das vidas perdidas em seu nome e da juventude de muitos daqueles que jaziam dilacerados pelas ruas de Paris, o general envelhecido não parecia nem de longe arrependido pelo que ele e seu rival tinham feito.

Não, ele não lamentava o preço pago em nome de ideologia e governança. Pelo contrário, ele se regozijava com sua vitória, conquistada arduamente ao longo de quatro anos de luta. Sua voz soava quase excessivamente alegre ao gritar em direção a um soldado próximo, que tinha a cabeça sendo consertada de um estilhaço que atravessou seu capacete estilo Adrian. A viseira de aço mal salvando sua vida.

"Ali? Onde ele está? Onde está o De Gaulle?"

O soldado parecia sofrer de algum trauma craniano ou de choque de guerra. De qualquer forma, sua resposta foi lenta e magra, respirando com dificuldade através dos pulmões, com o olhar vago de um homem que já tinha perdido a vida.

"Fugiu…"

Pétain tinha pouca paciência para linguagem imprecisa e logo se enervou, exigindo uma resposta melhor do jovem ferido, que tinha entrado na batalha com armas em nome dele.

"Fugiu? O que quer dizer com isso? Fale: morto? Ou fugiu de verdade? Como assim? Vai controlar a sua cabeça aí, rapaz! Fale logo!"

Mesmo diante do deboche e provocação de um superior agressivo, não… um ditador impaciente, o jovem soldado não falou imediatamente; continuou a olhar para a chuva que caía na poça vermelha que se formava no solo da estrada próxima.

"Fugiu… Correu… Com os sobreviventes…"

A alegria de Pétain transformou-se em cinzas na boca ao ouvir que seu maior rival tinha escapado vivo para lutar outro dia. Ele recolheu seu capacete, bateu-o na lama e sangue, e começou a xingar na sua língua nativa.

Após se acalmar à força, ele rapidamente sinalizou para um oficial próximo e exigiu uma tarefa irrealista.

"Quero que encontrem o De Gaulle! Vivo ou morto, tanto faz para mim! Mas ele não pode escapar de Paris!"

O oficial, visivelmente cansado — apesar de estar de uniforme limpo —, claramente mais exausto pelo comportamento de seu líder do que pelo combate, conseguiu fazer uma saudação antes de sair para passar a ordem a alguém que pudesse rastrear o paradeiro de De Gaulle.

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De Gaulle e seus homens já tinham desaparecido quando Pétain chegou para celebrar a vitória de seu exército. A maior parte da Milícia havia se entregado ao tentar defender a cidade. Agora, apenas um pequeno grupo dos seus soldados mais fiéis e oficiais mais habilidosos o seguiu para uma área rural.

Eles estavam cobertos de sujeira e restos de sangue, sem dúvida tendo lutado até acabar com a última cápsula de munição. Aqui, no interior da França, contudo, tiveram algum descanso, sentados contra rochas e carrinhos, derrotados moral, fisicamente, taticamente e estrategicamente.

Ninguém falou uma palavra enquanto vinho e tabaco eram passados em silêncio. Até que, finalmente, De Gaulle, que fixava o olhar ao longe, na direção de Paris, fez o impensável. Tirou sua braçadeira, depois as epaulettes. Em seguida, arrancou sua túnica e seu capacete.

Após verificar o carregador de sua arma para garantir que tinha disparado todas as balas contra o inimigo, fez sua declaração definitiva:

"A Milícia morreu… E a República morreu junto com ela…"

Os sobreviventes levantaram a cabeça ao ver seu líder, que apaga seu último cigarro, acendendo-o com força, puxando uma tragada longa e vigorosa, antes de lançar a bituca no chão, na lama.

Entre o grupo, um dos sobreviventes se forçou a fazer a pergunta que pairava na cabeça de todos:

"E agora? O que fazemos?"

De Gaulle não respondeu de imediato. Pelo menos, inicialmente. Mas, finalmente, falou, dando novamente esperança àqueles que haviam perdido tudo, dando-lhes um novo propósito, assim como tinha feito em Iper, anos atrás.

"Agora, vamos para o subterrâneo… Nos arrumamos, trocamos nossas roupas, deixamos de usar uniformes e insígnias que dizem que somos soldados, e ficamos na sombra. Construindo a resistência que fará Pétain — ou, mais especificamente, seu mestre na Áustria — gorgar de raiva quando chegar o dia em que o povo francês levantar-se e reivindicar o que é seu."

Por ora… Vamos nos esconder, observar e esperar… A Milícia Galliana pode estar morta, mas enquanto respirarmos, a guerra continua. Só que, desta vez, não será com armas de fogo e artilharia no campo; será uma guerra de conquistar corações e mentes da França e do seu povo. Para que sempre lembremos que esses símbolos não se rendem… Nem se curvam a mestres estrangeiros!"

Ao terminar, cada sobrevivente da Milícia Galliana se levantou e realizou o mesmo ato de purificação de suas vestimentas, como De Gaulle fizera. Eles permaneceram com ele até o fim.

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Bruno não ficou surpreso ao ver, um dia depois, ao chegar em sua mesa, um relatório de inteligência. Pétain tinha derrotado a Milícia Galliana e seu senhor da guerra. Assumira o controle de Paris e, mais importante, de todas as províncias que faziam fronteira com a Alemanha, trazendo estabilidade à região.

Infelizmente, De Gaulle havia escapado, e Bruno suspeitava que isso significava que ainda havia assuntos inacabados. Contudo, Pétain não parecia pensar assim. Pelo contrário, proclamou o Governo de Restauração Nacional.

Era um Estado transitório que reivindicava legitimidade na sucessão da Colapsada Terceira República Francesa. Na prática, era uma ditadura militar comandada por Pétain, com uma junta de conselheiros abaixo dele.

Mesmo assim, era uma opção melhor do que os outros senhores da guerra autoproclamados, que tratavam os territórios ocupados como seus feudos pessoais. Talvez por isso, a primeira declaração de Pétain fosse a de integrar pacificamente esses senhores ou eliminá-los com uma "superior força de fogo".

Essa frase quase fez Bruno rir. Em mais de uma ocasião, na sua vida anterior, ele dera palestras no Dia da Mentira para futuros candidatos ao Estado-Maior, abordando o conceito de "paz através do fogo esmagador".

Era uma comemoração que Bruno aprendera com alguns americanos com quem esteve na missão no Afeganistão, nos primeiros anos da intervenção da OTAN, e que carregou como piada durante suas aulas, para os estudantes.

E parece que Pétain tinha levado essa ideia à sério como sua principal forma de diplomacia. Enquanto Bruno dava um gole em um bom porto importado de Lisboa — que ainda não chegara ao fim do vinho que recebera como presente do rei de Portugal um ano depois —, virou a página e viu uma notícia em Paris revelando algo mais.

Imagens de pichações nas ruas de Paris, com a frase Réveil de France ("Despertar da França"), não chamaram atenção do regime de Pétain, pois a manchete era completamente alheia ao conteúdo. Mas Bruno estreitou os olhos ao ver essas palavras.

Não se tratava de uma declaração festiva feita por jovens rebelados, criados sem pai em casa, após a Grande Guerra ter levado a maioria de seus homens. Não… Era um ato de resistência. E Bruno tinha certeza de quem era o responsável por isso.

Por isso, o homem colocou o jornal e seu copo na mesa e discou um número. A ligação tocou por um segundo, depois dois. Finalmente, alguém atendeu, mas Bruno não deu tempo para falar.

"Aqui é o Marechal-general Bruno von Zehntner… Solicito que ativos de inteligência sejam enviados a Paris nas próximas duas semanas… O objetivo é investigar o destino da Milícia Galliana e seus principais membros… Se estiverem vivos e escondidos, quero infiltrações e relatórios sobre suas ações na minha mesa, em intervalos regulares."

Bruno não esperou uma resposta. Em sua posição, não precisava. Simplesmente desligou e tratou o assunto como concluído, pois, neste mundo, ninguém é mais apto em inteligência do que as redes que Bruno ajudou a revisar, reformar e aprimorar para os tempos modernos.

Depois de lançar um último olhar ao jornal na sua mesa, dobrando-o e jogando fora, um leve sorriso se formou nos lábios de Bruno.

"Claro que ele vive… Nada é fácil na vida, não é?"

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